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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

«A história trágica de um marinheiro (…) num mundo demasiado humano onde a Lei vigora acima da Justiça.»


«Como sempre, a apresentação de Aníbal Fernandes é um valor acrescentado a esta edição de Billy Bud, Marinheiro, texto que só mais de 20 anos após a morte de Melville seria trazido a público. A história trágica de um marinheiro cuja beleza, bondade e inocência acabam castigadas num mundo demasiado humano onde a Lei vigora acima da Justiça.»

Ana Cristina Leonardo
, «Actual»/ Expresso, 12 de Julho de 2014

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

«Um livro triste e belo» - Ana Cristina Leonardo


«Creio ser com legitimidade que podemos considerar Judeus Errantes um livro de História, com H maiúsculo. História abreviada do povo judaico, mas também uma história onde se identifica um olhar nostálgico, pelo menos perplexo, sobre esse tempo singular em que o Império Austro-Húngaro cede lugar aos estados-nação, conceito envolto em autodeterminação e liberdade que não deixará de arrastar sangrentos resultados. Joseph Roth, testemunha privilegiada desse período, traça um retrato preciso da cultura, religiosidade e idiossincrasias judaicas, centrando-o nos judeus orientais e, com isso, desmistificando o mito do judeu inevitavelmente rico, banqueiro, conselheiro de príncipes e poderosos. [...] O livro é uma "declaração de amor" e reconhecimento das origens [...]
Intuindo com argúcia o carácter antirreligioso do nazismo, conclui profeticamente: "Não há nenhum conselho, nenhum consolo, nenhuma esperança. [...] Morre em 1939, em Paris, e a História dar-lhe-á razão. Um livro triste e belo.»


Ana Cristina Leonard
o, «Actual»/ Expresso, 9 de Fevereiro de 2013

sábado, 29 de dezembro de 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

David Golder - um «retrato inclemente do meio endinheirado judaico»


«A autora de David Golder teve há uns anos traduzido em Portugal o seu romance Suíte Francesa, épico que se queria tolstoiano, em cinco partes, do qual Irene Nemirowsky só teve tempo para escrever duas, antes de ser enviada para Auschwitz, onde morreu em agosto de 1942, pouco tempo antes do marido, também ele deportado para o campo de extermínio.
[...] David Golder, cuja edição original recua a 1929, tinha Irene apenas 26 anos, catapultou-a de imediato para a fama, tendo inclusivamente sido convertido para cinema, em 1931, pelo realizador Julien Duvivier.
[...]
A crueza com que são descritas as personagens, o realismo sem adereços mitigadores com que são recriados os ambientes e a ausência de mensagens redentoras, para o que muito contribuirá também a opção por um narrador impessoal, expurgado de "estados de alma", à maneira de Flaubert, explicarão em grande parte que David Golder tenha sobrevivido ao tempo e se possa ler hoje com o mesmo entusiasmo e surpresa que tomaram de assalto Bernard Grasset, o seu editor original, ou que levou o escritor e crítico Edmond Jaloux a escrever na época; "Fiquei estupefacto."
O retrato inclemente do meio endinheirado judaico, a "história desprovida de caridade" que se conta, para citar Aníbal Fernandes (tradutor e prefaciador), poderá causar estranheza por vir de alguém que é, ele próprio, judeu. Mas sobre isso, Irene Nemirowsky disse, corajosamente, tudo o que haveria para dizer: "É bem certo que eu teria adoçado muito David Golder se já houvesse Hitler e não lhe teria dado o mesmo sentido. Mas seria um erro, teria mostrado fraqueza indigna de um verdadeiro escritor."»

Ana Cristina Leonardo, «O outono do banqueiro», «Actual» / Expresso [onde pode ser lido na íntegra], 13 de Outubro de 2012.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

«Com os Loucos», de Albert Londres, por Ana Cristina Leonardo



«[...]
"Com os Loucos" é o quarto título da Sistema Solar, chancela lançada pela anterior equipa da Assírio & Alvim. Traduzido por Aníbal Fernandes, o livro tem todas as razões para ser apetecível: o editor, o tradutor... e o autor.
Albert Londres (1884-1932) foi um caso sério do jornalismo francês, cognome oficial "príncipe dos repórteres". Na apresentação de "Com os Loucos" assinada por Aníbal Fernandes, como sempre um valor acrescentado, reproduz-se este retrato: "Na sua carreira não isenta de quixotismo procurar-se-ia em vão uma reverência ao dinheiro, uma deferência para com os que governam ou financiam, a docilidade perante as ordens e as recomendações, a aceitação dos factos consumados e dos poderes estabelecidos, a fuga perante as responsabilidades."
[...]
Lê-se "Com os Loucos" e vão caindo por terra todas as supostas leis (invioláveis e maçadoras) do jornalismo de reportagem. Londres parece errático. Londres troca o realismo pela notação impressionista. Londres toma partido. Londres prefere a verdade à objectividade. Londres não conta histórias (cliché que servirá à exaustão de álibi à mediocridade e à falta de assunto), Londres vê - e o talento que é preciso para ver!» 

LER NA ÍNTEGRA


Ana Cristina Leonardo, «Oh, psiquiatria!», «Actual» / Expresso, 4 de Agosto de 2012.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

«[...] nem suspeitava que tinha havido um escritor chamado Jean Lorrain que habitara a mesma casa, outrora.» Le Clézio


«Vou-vos dizer, vou-vos explicar tudo. Tinha, portanto, dez, doze anos e morava nessa velha casa que dava para o porto, um pouco napolitana, completamente a cair, com lençóis a secar a todas as janelas do pátio, gatos semi-selvagens que lutavam nos telhados e, claro, os bandos de pombos. Nesse tempo não sabia o que era um escritor, não fazia a menor ideia, nem suspeitava que tinha havido um escritor chamado Jean Lorrain que habitara a mesma casa, outrora. Recordo esta casa sobretudo na época do calor, no Verão e no começo da Primavera, porque deixávamos as janelas abertas e escutávamos o barulho dos gaivões e os arrulhos dos pombos. Mas havia especialmente um barulho que mexia comigo. Não posso verdadeiramente dizer porque é que me inquietava, mas ainda hoje quando penso nisso me arrepio e entro numa espécie de estado de melancolia e impaciência que precede o momento em que sei que terei de me sentar em qualquer lado, ali mesmo onde estou, agarrar num caderno e numa lapiseira e começar a escrever. Este barulho, eram as vozes dos jovens que chamavam uns pelos outros no pátio, que gritavam os seus nomes. Havia os rapazes que assobiavam, e os outros que metiam a cabeça à janela, e diziam: "Estás abonado?" E os de cima: "Onde é que vão?" Eles iam já não sei onde, à praia ou à feira, ou simplesmente conversar à esquina da rua, ou esperar as raparigas que saíam da escola Ségurance, isso já não tem nenhuma importância. Mas quando ouvia aqueles assobios, e os nomes que ecoavam no pátio, imaginava uma vida diferente da minha, imaginava as correrias pelo infinito das ruas, imaginava os banhos na água fria do mar, o sol, o cheiro dos cabelos das raparigas, a música dos dancings, a aventura, a noite. Nunca ouvi chamar o meu nome no pátio, nunca ouvi assobiar por mim. Eu vivia na mesma casa, mas era outro mundo. Aqui está, é por isto que eu escrevo.»

J.M.G. Le Clézio, in Libération, Março de 1985. Tradução de Ana Cristina Leonardo. AQUI, AQUI e AQUI.