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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

«As Lojas de Canela», de Bruno Schulz


As Lojas de Canela

Bruno Schulz


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN: 978-989-8566-18-8

Edição: Novembro 2012

Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros

Formato: 14,5×20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160 (caderno em papel de cor com desenhos do autor)


No dia 19 de Novembro de 1942, dirigia-se Bruno Schulz (1892-1942) para o ghetto quando percebeu que estava a ser perseguido por um grupo de SSs. Como reacção pôs-se em fuga, um bom pretexto para ser alvejado. Foi abatido com dois tiros na nuca; e o advogado Izydor Friedman, que presenciou a cena, garantiu mais tarde que esses dois tiros tinham sido dados por Günther. E também são seus estes pormenores: «Quando anoiteceu fui procurar o cadáver. Despejei-lhe os bolsos. Todos os documentos e papéis que lá encontrei foram entregues a Zygmunt Hoffman, que viria pouco depois a morrer. De madrugada fui enterrar o Bruno no cemitério judaico.» […]
Em 1960, o crítico polaco Arthur Sandauer revelou a editores franceses e alemães um escritor do seu país que Cracóvia acabava de voltar a pôr à disposição do público com As Lojas de Canela (aqui numa tradução feita a partir dos seus textos francês e inglês). Desde logo houve a precipitação de ser comparado com Kafka. Estavam confundidos no que parecia uma mesma tradição bíblica e nos mitos que ela alimenta; e até acontecia que a metamorfose em insecto de Gregor Samsa era repetida em Jakub, o Pai das histórias de Schulz. Eram no entanto separados por algo de mais fundamental: ao asceticismo de Kafka opunha-se a sensualidade de Schulz; à secura estilística de Kafka a exuberância verbal de Schulz, o delírio de um amante das palavras que a todo o momento travavam batalha dura para as dominar. Tinha sido preciso esse meio século para o autor de uma tão brilhante singularidade literária começar a ser reconhecido como nome central da literatura polaca, para o autor de tão belos desenhos, com Vénus à Masoch e homens humilhados, alimentar álbuns e surgir em exposições públicas que mostravam o melhor do seu nunca concluído Livro Idólatra. [A.F.]

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Bruno Schulz, «um dos nomes centrais da literatura europeia do século XX.»


«Histórias de um imaginário desmesurado e perturbador, que mergulha no inconsciente para o vasculhar à procura de memórias perdidas e sonhos.

Num entardecer de Novembro do ano de 1942, o judeu polaco Bruno Schulz (n. 1893), pintor, artista gráfico, escritor e crítico literário, foi alvejado com duas balas na cabeça por um oficial da Gestapo numa rua do gueto da sua cidade natal, Drohobycz (hoje é parte da Ucrânia).
[...]
Mais do que um romance, ou do que uma simples colectânea de contos, As Lojas de Canela (agora reeditado com tradução revista) é um vívido ciclo de histórias onde se percebe um sentido unificador, com personagens e temas recorrentes. Na sua versão inicial,estes textos foram cartas escritas a um amigo a quem Schulz queria dar conta, de maneira bastante original, da sua vida, da dos seus conterrâneos, da sua "solidão profunda" e da sua cidade; a conselho de uma amiga escritora, essas cartas acabaram por ser reescritas e publicadas em 1934.
[...]
A cidade de Schulz, com a sua Praça do Mercado (vazia "como o deserto bíblico varrida por rajadas quentes"), é o centro de todas as narrativas. Sob essa cidade, em que tudo parece estar prestes a dissolver-se, apercebemo-nos de que se esconde um outro mundo, de que tudo o que se passa nas suas ruas e fachadas faz parte da cuidada coreografia de uma dança que parece acontecer sempre atrás das cortinas do palco. Há uma aparência de ordem sobre o caos da existência.
[...]
Aquando das primeiras traduções de Schulz, não faltaram os que se precipitaram a anunciar a descoberta de um novo Kafka.
[...]
Mas as diferenças são grandes, como nota Aníbal Fernandes na introdução, pois ao asceticismo de Kafka opõe-se a sensualidade de Schulz (neste aspecto, e os seus desenhos confirmam-no, a sexualidade é dirigida para o masoquismo - de notar o número de mulheres que empunham um chicote); também o estilo depurado de Kafka se opõe ao exuberante barroco de Schulz. De qualquer dos modos, a sua brilhante singularidade literária faz dele um dos nomes centrais da literatura europeia do século XX.»

José Riço Direitinho, Excertos de «A sombra do pai», «Ipsilon» / Público, 25 de Janeiro de 2013, onde pode ser lido na íntegra.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

«Em cada canto destas lojas espreita essa espécie de inquietante estranheza...»


De Bruno Schulz diz o narrador de Estrela Distante, de Roberto Bolaño, ser um dos seus escritores favoritos e é, como o próprio Bolaño, um desses escritores que trazem consigo o encanto pérfido daqueles que desaparecem de forma prematura. O mesmo pode dizer-se de Kafka, com o qual é por vezes comparado. Mas Schulz, como os dois citados, é um autor que vive de si e para si, sem a necessidade de estabelecer pontes para outros universos. Um bom exemplo dessa auto-suficiência pode encontrar-se no livro – intitulado As Lojas de Canela – ao qual aqui se tentará um aproximação.

Em cada canto destas lojas espreita essa espécie de inquietante estranheza que transforma o familiar em desconhecido, tipificada por Sigmund Freud no seu trabalho sobre o conceito de “Unheimlich”, publicado em 1919. Não se pode saber de ciência segura se Bruno Schulz estaria familiarizado com o conceito, ou sequer com o trabalho de Freud, seu contemporâneo e órfão do mesmo império, mas é difícil negar que é esse mesmo princípio que aqui podemos observar em acção, como uma forma de princípio básico e unificador que sujeita toda a matéria do real à possibilidade da metamorfose. Não por acaso, abundam neste peculiar texto autobiográfico as referências a máscaras e ao teatro. Há uma realidade por trás da realidade e apenas a imaginação – auxiliada nesse exercício, de forma determinante, pela linguagem poética – pode levantar o véu que a cobre (como indica o próprio Freud, a dado passo do seu ensaio, não são só os medos que podem acarretar essa transformação do real mas também os desejos ou as crenças). É à precisão da linguagem empregue pelo autor, ao descrever os aspectos dessa outra realidade, que se deve o prodígio de que possamos tomá-la também como verdadeira. Obtém-se essa precisão com o recurso ao estabelecimento de relações pouco habituais, mas extremamente precisas, entre o objecto observado e a forma que se escolhe para caracterizá-lo (por exemplo, «Maryska-a-Louca estava deitada na palha de um caixote de madeira, branca como uma hóstia e silenciosa como uma luva de onde a mão tinha saído.», p. 49).

No entanto a mesma precisão não se estende à descrição das personagens: o narrador permanece por nomear e da sua família mais imediata – mãe, pai e irmão mais velho – apenas o pai tem direito a que o seu nome seja conhecido. E se há um herói nestas histórias não pode ser outro que não o pai. A esse pai heróico opõe-se a criada Alena, figura de pesada sensualidade e pose pragmática. Os dois, a par do narrador, são os verdadeiros motores da narração. Por seu lado, a mãe e o irmão mais velho – tal como toda uma hoste de personagens secundários, alguns dos quais merecem ser nomeados; tal é o caso das raparigas, Polda e Paulina, a quem o pai se dirige no triplo episódio dos manequins – permanecem por nomear e possuem apenas uma vaguíssima consistência, agindo como sombras que espreitam a acção principal sem que nunca dela cheguem a participar. Assim, a narração concentra-se em torno desses três eixos: em primeiro lugar o narrador, através de cujos olhos vemos aquilo que o rodeia, olhar esse para o qual tudo é digno da mesma minuciosa atenção e toda a matéria se oferece ao jogo de transfiguração e desvelamento que permite descascar as camadas do familiar e atingir, enfim, a outra realidade possível que existe por trás dele; em segundo lugar o pai Jakub, que concentra em si toda a força do fantástico e do maravilhoso, força que interrompe o entediante desfile dos dias pardacentos e demonstra as férteis possibilidades que se oferecem a quem souber olhar o mundo de uma forma nova («Só hoje entendo o seu heroísmo: solitário, fez guerra ao tédio infinito que entorpecia a cidade. Sem nenhum apoio nem compreensão da nossa parte, este homem extraordinário defendia sem esperança a causa da poesia. Nas rodas deste moinho mágico afundavam-se as horas vazias, para de lá saírem com perfume e cor.», p. 69); e por fim, em terceiro lugar, a criada Alena, a quem cabe a tarefa de voltar a pôr nos eixos o mundo que a intervenção do pai deles desviara. («Sempre espetado, o sapato de Alena tremia um pouco e brilhava como uma língua de serpente. O meu pai manteve o olhar baixo e começou a levantar-se com lentidão, com passos de autómato, e caiu de joelhos.», p. 81.)

Nesta oposição entre fantasia e pragmatismo o texto – de recorte autobiográfico, como antes se referiu – apresenta-se fragmentado, não cronológico, em capítulos que se sucedem sem aparente ligação entre si, por vezes organizados em blocos, (veja-se os capítulos “As lojas de canela” e o seguinte, “A Rua dos Crocodilos”, nos quais se apresentam as duas partes da cidade – a velha e a nova, o conforto e a confusão – e os respectivos simbolismos, ou o “Tratado dos manequins”, apresentado em três partes e já em tempos publicado em Portugal como texto autónomo, pela &etc., no qual o autor, pela boca de Jakub, expõe aquilo que pode considerar-se como um programa estético e até filosófico) como se fosse intenção do autor dar-nos a ver a memória em funcionamento, sem sequência cronológica mas antes em estado de anárquica desordem, alinhados de acordo com as impressões que os convocam e sem preocupações de linearidade. E a cada passo lá se pode encontrar a mesma fúria metamorfoseante, essa operação levada a cabo sobre o real pela poesia, num mundo onde toda a coisa é outra coisa, à espera de ser desvendada num vislumbre fantástico mas que não pode fixar-se nessa nova forma, como se o tecido da realidade não pudesse suportar essa fixação. («Temos a franqueza de reconhecê-lo: não acentuamos a tónica da duração nem da solidez do trabalho, e as nossas criaturas serão como que provisórias, feitas para servir uma só vez.», p. 79).

O método de Schulz consiste então em iniciar a narração num mundo que, para todos os efeitos, é ainda o mundo familiar, habitual, e só no decorrer da narração revelar os contornos da máscara que o reveste até fazê-la por fim tombar, desse modo deixando a descoberto as feições desse outro mundo que se esconde por trás do mundo. Este método, ao contrário do que é por vezes anunciado, não o aproxima de Franz Kafka (embora não possamos esquecer-nos das estranhas transformações que o pai sofre, tornado pássaro ou até barata) mas antes o afasta. Em Kafka a realidade não se apresenta em modificação mas, pelo contrário, já modificada e ao lê-lo o leitor entra num mundo que em pontos se aparenta ao mundo familiar mas que, desde o início, se apresenta como fundamentalmente diferente desse. Assim o processo de transformação não é visível. Afasta-os também o uso que fazem da linguagem, a qual em Kafka é sempre mais seca, menos poética do que em Schulz. Na realidade, se devesse procurar um escritor que se assemelhasse a Bruno Schulz apontaria, por insólito que possa parecer, o nome de Nikolai Gógol, exímio praticante do adjectivo pouco ortodoxo e alguém que, como Schulz, se perdia com frequência nos muitos pontos de fuga que lhe proporcionavam as suas narrativas, alguém que contempla todo o mundo como passível de interesse e objecto de detalhada descrição. Diferiam nos propósitos e nos métodos mas animava-os a mesma voracidade descritiva, a mesma vontade de percorrer todos os caminhos que o material lhes propusesse.

Rodrigo Martins, in Orgia Literária.

segunda-feira, 11 de março de 2013

«Judeu da Galícia, filho de um mercador de têxteis, estudante de arquitectura, professor do liceu, desenhador compulsivo, escritor escasso, morreu cedo, vítima da Gestapo.»


«Ruas insalubres, bairros feéricos, lojas enigmáticas, casas sombrias, divisões abandonadas, quartos de arrumos cheios de fancaria, armários atulhados, abutres empalhados, estampas obscenas, palmeiras incongruentes, ornamentos, utensílios, escombros, telescópios. É o mundo de Bruno Schulz, visita guiada a "configurações irreais", que incluem ainda entidades biológicas primitivas, matagais, musgos, ervas daninhas, faunas insidiosas, insectos, animais fantásticos, erupções, fermentações, cores de âmbar, bafios e podridões, cardos, crustáceos, escamas, ectoplasmas.
Esta "imaginação aberrante e encantada" é o alfa e ómega de As Lojas de Canela (1934), a primeira das duas colectâneas de contos publicadas por Bruno Schulz (1892-1942). Judeu da Galícia, filho de um mercador de têxteis, estudante de arquitectura, professor do liceu, desenhador compulsivo, escritor escasso, morreu cedo, vítima da Gestapo. [...]
Porém, ao contrário de Kafka, Schulz é excessivo, exuberante, acumula metáforas insólitas, imagens nunca vistas, vocábulos raros, substantivos e adjectivos aos magotes (a tradução de Aníbal Fernandes é extraordinária): "Havia por lá banais germinações, caules finos encimados com o penacho emplumado das suas espigas; salsas e cenouras selvagens com filigranas delicadas; os rudes folíolos amarrotados da hera e das urtigas cegas que cheiravam a mentol; as tanchagens filandrosas e luzidias manchadas de ferrugem, que jorravam com poupas de grandes grãos vermelhos."
O escritor queixava-se de que a língua não possui palavras que penetrem em certos graus da realidade, e por isso inventou uma linguagem nova, adequada a uma "realidade mutante". [...] Jakub e o filho são demiurgos em segunda mão, a matéria assusta-os, apaixona-os. E como nada se perde e tudo se transforma, eles recriam tudo aquilo em que tocam, num génesis heterodoxo, distorcido.
Os inquietantes desenhos de Schulz, incluídos nesta edição, ilustram bem essa causa genesíaca, a que ele chama, sem hesitações, "a causa da poesia".»

Pedro Mexia, «Génesis bizarro», «Actual»/Expresso, 9 de Março de 2013, onde pode ser lido na íntegra.

Ler mais sobre Bruno Schulz.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

«Bruno Schulz - Errância das Formas», por José Guardado Moreira


«[...] Estas histórias são luxuriantes no seu âmago escuro, desafiadoras nas suas ramificações filosóficas, sensuais na cor, textura e sabor. O universo em decomposição exibe um gozo sensorial que transmuta o sórdido da vida humana em certeza heterodoxa, escoradas na vivência do mito da criação. A nova edição destas histórias assombrosas está enriquecida com um conjunto de desenhos de Bruno Schulz que dizem muito sobre o seu convulso mundo interior, onde a arte era a única lucerna que o orientava em tempos terríveis.»

José Guardado Moreira, «Bruno Schulz - Errância das Formas», Ler, Janeiro de 2013.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

«Foi abatido com dois tiros na nuca», faz hoje 70 anos.

Bruno Schulz, auto-retrato

«No dia 19 de Novembro de 1942, dirigia-se Bruno Schulz para o ghetto quando percebeu que estava a ser perseguido por um grupo de SSs. Como reacção pôs-se em fuga, um bom pretexto para ser alvejado. Foi abatido com dois tiros na nuca; e o advogado Izydor Friedman, que presenciou a cena, garantiu mais tarde que esses dois tiros tinham sido dados por Günther. E também são seus estes pormenores: "Quando anoiteceu fui procurar o cadáver. Despejei-lhe os bolsos.Todos os documentos e papéis que lá encontrei foram entregues a Zygmunt Hoffman, que viria pouco depois a morrer. De madrugada fui enterrar o Bruno no cemitério judaico."»

Aníbal Fernandes, na apresentação de As Lojas de Canela, Sistema Solar, 2012

terça-feira, 19 de novembro de 2013

«Foi abatido com dois tiros na nuca», faz hoje 71 anos.

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«No dia 19 de Novembro de 1942, dirigia-se Bruno Schulz (1892-1942) para o ghetto quando percebeu que estava a ser perseguido por um grupo de SSs. Como reacção pôs-se em fuga, um bom pretexto para ser alvejado. Foi abatido com dois tiros na nuca;  e o advogado Izydor Friedman, que presenciou a cena, garantiu mais tarde que esses dois tiros tinham sido dados por Günther. [...].»

Aníbal Fernandes, Apresentação de As Lojas de Canela, Sistema Solar, 2012.

domingo, 19 de novembro de 2017

Faz hoje 75 anos



«Num entardecer de Novembro do ano de 1942, o judeu polaco Bruno Schulz (n. 1893), pintor, artista gráfico, escritor e crítico literário, foi alvejado com duas balas na cabeça por um oficial da Gestapo numa rua do gueto da sua cidade natal, Drohobycz (hoje é parte da Ucrânia).»