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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O poema é pensamento por imagens...


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“O que é poesia?”, pergunta Sousa Dias. A ausência do artigo é significativa: trata-se de saber o que é “poesia” e não “a poesia”. Parece um propósito menos ambicioso, mas é o contrário. Determinar o que é “a poesia” tem qualquer coisa de projecto metafísico e nebuloso; estabelecer o que é “poesia” é um exercício pragmático e útil.

Tentemos resumir as teses, frequentemente densas, de Sousa Dias, filósofo da galáxia deleuziana, aqui bastante influenciado pelo ensaísmo minucioso de Jean-Luc Nancy. A primeira tese tem a ver com o poema enquanto poética, isto é, enquanto resposta à questão “o que é poesia”. Embora muitos poetas escrevam “artes poéticas”, o ensaísta cita Manuel António Pina, que se sempre se mostrou céptico quanto a esse olímpico auto-conhecimento. Existe uma espécie de “não-saber” no poeta, e até no próprio poema, de modo que até o poema mais “transparente” supõe uma certa opacidade. Sousa Dias assevera, de modo provocatório, que um poema nada diz, nada significa, não quer dizer nada, não tem nada para dizer. Isto porque as ideias do poema nascem das palavras do poema, não as antecedem. E essas ideias-palavras resistem ao mundo, ao discurso sobre o mundo, e até ao discurso sobre o poema. Trata-se da poesia como enigma, não como explicação.

O segundo argumento defendido neste breve conjunto de ensaios diz respeito ao vivido e à experiência, sensibilidades que têm dominado, com alguns hiatos, a poesia portuguesa. Sousa Dias, usando o exemplo de Ruy Belo, contesta essa visão ingénua. Por exemplo, a quase-narratividade de Belo não uma transposição do quotidiano visível mas um modo de desvendar a dimensão invisível de um quotidiano. A poesia não é uma estetização do vivido, nem um subjectivismo, mas um conjunto de sensações progressivamente impessoais, des-subjectivadas, de modo a que até os poemas mais confessionais são transmissíveis, porque não estão dependentes do “eu” original. 

Rilke lembrou que o poema não é um sentimento mas uma experiência, uma experiência verbal que que potencia os sentimentos de quem lê. Além do mais, escreve Sousa Dias, o material biográfico dos poemas torna-se muitas vezes uma abstracção. Por exemplo, as memórias infantis ou amorosas encaminham-se para reconstruções ficcionais e quase mitológicas da “infância” e do “amor”, desprendidas da factualidade. A “experiência da linguagem” transforma a subjectividade em impessoalidade. Daqui decorre a estratégia modernista do recurso às máscaras, à heteronímia, ao fingimento. O próprio lirismo, lembra Sousa Dias, tem uma fama imerecida de subjectividade pura, porque se trata, com frequência, de uma vertigem poética da ordem do imaginado, do invivível (e ocorre-nos a poesia de Keats).

A linguagem é o terceiro elemento desta argumentação. Como outros autores têm sublinhado, a poesia é uma língua contra a linguagem, contra a linguagem comum, comunicativa; a poesia é outra língua, que não respeita as normas sintácticas, semânticas, nem as fórmulas estafadas ou os clichés. Inventa por isso sequencialidades e combinações novas, não arbitrárias mas rigorosas, trabalhadas. O que é poesia? É uma linguagem contra os limites da linguagem. Uma tentativa de dizer aquilo que talvez não possa ser dito.

A quarta e última asserção é que a poesia não é o reino da metáfora, como julga o senso-comum, mas da metamorfose. Porque a metáfora é uma comparação elidida, um jogo sobre os significantes, e supõe uma prévia ideia “prosaica” que depois se traduz em linguagem poética. Sousa Dias explica que a imagem poética é uma imagem-ideia, e não corresponde às “ideias” lógicas da prosa, às ideias-conceito. O poema é pensamento por imagens, sem correspondência na língua não-poética. O exemplo dado é a acumulação imagética, cinematográfica e alucinada, de Herberto, o poeta vivo que mais escreve numa língua estranha, uma língua da metamorfose que nos intriga e fascina, e que nos leva a perguntar o que é poesia. 

Pedro Mexia, Público online, 9 de Setembro de 2014

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Riso de Mozart – música pintura cinema literatura I Sousa Dias


O Riso de Mozart – música pintura cinema literatura
Sousa Dias

Capa de António Gonçalves

ISBN: 978-989-8834-05-8

Edição: Janeiro de 2016

Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 272



«É a vida que ri no riso de Mozart, é ela o “sujeito” desse magnífico riso, e que ri não da sua auto-negação por imitação da matéria mas da sua auto-afirmação por criação do espírito. O além-imagem de onde sobrevém de modo fantasmal esse riso no fim de “Amadeus” não é o além-túmulo, não é o não-lugar da morte pessoal de Mozart, mas antes o fora-de-campo absoluto da vida supra-histórica da sua criação musical genial, o tempo não cronológico, a forma de imortalidade ou de eternidade, dessa criação espiritual. O riso de Mozart é a Alegria pura, mesmo quando não pessoalmente extrovertida, de todos os excepcionais criadores em todos os domínios, a sua sensação de transcendência da vida biopsíquica pessoal numa vida não pessoal do espírito que não morre com a morte do criador. A espectralidade desse riso na sua derradeira aparição não é metáfora, o cinema não se faz com metáforas, é a imagem sonora exacta, absolutamente literal, dessa vida do espírito que se eleva dos corpos, que se desprende da finitude dos sujeitos, e fica.» [Sousa Dias]

Sousa Dias nasceu no Porto em 1956. Professor. Publicou, entre outros livros, Lógica do acontecimento — introdução à filosofia de Deleuze, O Que é Poesia?, Grandeza de Marx — por uma política do impossível e Žižek, Marx & Beckett — e a democracia por vir.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

«O que é Poesia?», de Sousa Dias

O que é Poesia?
Sousa Dias

ISBN: 978-989-8566-60-7

Edição: Julho de 2014

Preço: 9,52 euros | PVP: 10 euros
Formato: 14,5X20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 80

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Poesia, função da linguagem e não do vivido — mas arte do silêncio e não da palavra — o paradoxo da criação poética: dizer o indizível — todo o poema diz a sua própria impotência, sendo este o seu incomparável poder — Ruy Belo e o bilinguismo formal da poesia — verdade poética e verdade lógica: o excesso de ser no ser ou o real para lá do real — o exemplo do lirismo: não há poesia subjectiva — o poema, linguagem fora de si: heterogénese da língua como pintura e como música — a questão da imagem poética: estatuto ontológico, e não literário, dessa imagem — não há metáforas na poesia, a poesia é anti-metáfora — Herberto Helder e Manuel António Pina como exemplos da não-metaforicidade da poesia — porque é que raros autores que publicam poemas podem considerar-se poetas. 


«Um poema é sempre mais do que um poema: é uma poética, uma ideia de arte poética. Cada poema é já um conceito do poético, já uma resposta à questão: o que é a poesia? Não há como os poetas para nos dizer o que poesia quer dizer, mas é nos próprios poemas —na noção implícita de poema, ou eventualmente explícita em termos ainda assim (meta)poéticos —que se encontra o pensamento «estético» dos poetas. É com efeito frequente os poemas de um poeta serem tudo o que ele pensa, tudo o que ele escreve, «sobre» poesia. «Pergunto como se escreve o poema? E a resposta possível / é escrever o poema» (Nuno Júdice, O estado dos campos). Sucede no entanto um grande poeta escrever textos de teoria ou de crítica literária que de certo modo fazem parte da sua obra poética, na medida em que constituem a auto-expressão teórica dessa obra, ou a sua passagem para um plano de doutrina estética. É o caso entre nós, de todos o mais conhecido, de Fernando Pessoa. Mas é também o caso, por exemplo, de Ruy Belo.» [Sousa Dias]

Sousa Dias nasceu no Porto em 1956. Professor. Publicou, entre outros livros, Lógica do acontecimento — introdução à filosofia de Deleuze, Questão de estilo (colectânea de textos de teoria da literatura e da arte) e Grandeza de Marx — por uma política do impossível. Tem no prelo Žižek, Marx & Beckett — e a democracia por vir.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Teologia da Carne — A pintura de António Gonçalves I Sousa Dias


Teologia da Carne — A pintura de António Gonçalves
Sousa Dias

ISBN: 978-989-8902-11-5 | EAN 9789898902115

Edição: Maio de 2018
Preço: 12,26 euros | PVP: 13 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, caderno a cores)
Número de páginas: 80




Objecto ou objectivo deste pintor: pintar Eros, pintar o desejo erótico. Mas pintá-lo por si, pintar o desejo «ele mesmo».


O que deveras aqui se pinta, o que aqui se dá a ver, é uma sagração. É a sagração de Eros, a celebração artística da sacralidade do desejo erótico e com ele da vida, a afirmação pictural da inocência, «para lá de bem e mal» (Nietzsche), da vontade vital que se exprime no erotismo. A pintura como culto, cena ou encenação do mistério da «encarnação» do desejo e desse modo do mistério da vida, da «anunciação» erótica da vida. Um sentido do sagrado, do espírito sacral da figuração, que decorre de imediato da apresentação políptica, retabular, desta pintura. Uma espécie de teologia da vida legível na «textualidade» puramente visual composta pelas várias figuras dos polípticos.


Sousa Dias nasceu no Porto em 1956. Professor de Filosofia, lecciona actualmente no ICAFG (Porto). Publicou, entre outros livros, Grandeza de Marx — Por uma política do impossível (Assírio & Alvim, 2011), Lógica do Acontecimento — Introdução à filosofia de Deleuze (2.ª edição aumentada, Documenta, 2012), O Que É Poesia? (3.ª edição aumentada, Documenta, 2014), Žižek, Marx & Beckett — E a democracia por vir (Documenta, 2014), O Riso de Mozart — Música, Pintura, Cinema, Literatura (Documenta, 2016), Pre-Apocalipse Now — Diálogo com Maria João Cantinho sobre política, estética e filosofia (Documenta, 2016). Traduziu para a Documenta: Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo — Cinema 2 (2015), A Imagem-Movimento — Cinema 1 (2016).


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Pre-Apocalypse Now – Diálogo com Maria João Cantinho sobre política, estética e filosofia I Sousa Dias



Pre-Apocalypse Now – Diálogo com Maria João Cantinho sobre política, estética e filosofia
Sousa Dias

ISBN: 978-989-8834-42-3

Edição: Novembro de 2016
Preço: 10,38 euros | PVP: 11 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 88


Vivemos numa época de amálgamas espúrias, que confunde pensamento e comunicação, crítica e marketing, teoria e opinião de «especialista», pensador e intelectual mediático ou jornalista cultural. Época de sobre-informação mas, paradoxalmente, época antipensamento, de extravio generalizado do sentido do pensamento, de refluxo do pensamento sob todas as suas formas. E, não por acaso ou por coincidência, época de uma extrema desumanização do humano, da dessubstancialização da subjectividade humana, como diz Žižek, do mais dócil e cobarde corpo social, como diz Agamben.
Uma catástrofe do pensamento, de que o «fim das ideologias» é uma reverberação, e com ela um desastre do humano, desastre absoluto no qual estaremos talvez só a entrar, um pré-apocalipse espiritual para o qual não se vislumbra saída. Escreve noutro texto Agamben que, enquanto o animal pode a sua potência, variável de espécie para espécie mas definida de uma vez por todas pela sua natureza ou «vocação biológica», o homem, desprovido de natureza, é aquele ser que pode a sua própria impotência. «A grandeza do seu poder mede-se pelo abismo da sua impotência». A saída da presente situação do humano, a existir, passará necessariamente pelo pensamento, quer dizer, pelo poder ilimitado, desmedido, dessa impotência do homem.

Sousa Dias nasceu no Porto em 1956. Professor. Publicou, entre outros livros, Lógica do acontecimento — introdução à filosofia de Deleuze, O Que é Poesia?, Grandeza de Marx — por uma política do impossível, Žižek, Marx & Beckett — e a democracia por vir e O Riso de Mozart — música pintura cinema literatura.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

«Žižek, Marx & Beckett — e a democracia por vir» | Sousa Dias


Žižek, Marx & Beckett — e a democracia por vir
Sousa Dias

ISBN: 978-989-8566-73-7

Edição: Outubro de 2014

Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros
Formato: 14,5x20,5 cm (brochado)
Número de páginas: 128


«Democracia» designa hoje na linguagem política um significante vazio, tão mais consensual quanto mais vazio, quanto mais inquestionado no seu conceito ou na sua substância, espécie de religião laica universal. O problema filosófico-político deste tempo não é a crítica do capitalismo, sobre a qual toda a gente está mais ou menos de acordo. É a crítica da democracia que nos vendem, a única a que nos dizem termos direito, como regime de poder inseparável da realidade capitalista dominante e modo ideal, e também o mais cínico, de legitimação sociopolítica dessa realidade. Uma crítica ciente de que a solução para os cada vez mais dramáticos problemas da humanidade suscitados pelo capitalismo global, para o presente estado pré-apocalíptico do mundo, não passa por esta democracia. 

Sousa Dias nasceu no Porto em 1956. Professor. Publicou, entre outros livros, Lógica do acontecimento — introdução à filosofia de Deleuze, Questão de estilo (colectânea de textos de teoria da literatura e da arte), O Que é Poesia? e Grandeza de Marx — por uma política do impossível.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

«Lógica do Acontecimento – Introdução à Filosofia de Deleuze», de Sousa Dias

 
Lógica do Acontecimento – Introdução à Filosofia de Deleuze

Sousa Dias


ISBN: 978-989-8618-14-6
Colecção Linhas de Fuga 1

Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Edição: Outubro 2012
Formato: 14,5x20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 208

«"A história da filosofia não é uma disciplina particularmente reflexiva. Antes é como a arte do retrato na pintura. São retratos mentais, conceptuais. Como na pintura, é preciso fazer parecido, mas por meios que não são parecidos, por meios diferentes: a parecença deve ser produzida, e não meio de reproduzir (o autor limitar-se-ia a repetir o que o filósofo disse) (…) A história da filosofia deve, não repetir o que disse um filósofo, mas dizer o que ele subentendia necessariamente, o que ele não dizia e que está porém presente no que ele dizia". Bastam decerto estas palavras do próprio Deleuze para desautorizar este nosso estudo, sem dúvida demasiado escolar, reprodutivo. Mas talvez não completamente frívolo, atentando na escassa bibliografia sobre ele existente, sintomática mas injusta ressonância da coerência exemplar de uma criação avessa a compromissos com as condições da época. Através de um jogo de colagens de textos, de manipulações e de simplificações, de omissões e de ênfases, quisemos extrair da complexa obra deleuziana uma sóbria linha articulatória capaz de se propor como uma auto-apresentação do criador. E de traçar os contornos originais da sistematicidade e, nesse sentido, do ostensivo classicismo de um dos mais estimulantes pensamentos do nosso tempo.» 
[...]
A concluir, como caracterizar em termos sumários o efeito único do trabalho de Deleuze sobre a cena filosófica, como dar conta do efeito-Deleuze? Como dizer o deleuzianismo como Acontecimento filosófico? Um vento, uma ventania refrescante, uma atmosfera mais respirável, mais habitável, mais livre. A suscitação do desejo, desejo de pensar, de ver e de ler mais, sem proceder por memória, por consciência cultural, vontade de uma vida mais intensa, um irresistível efeito nómada, segredo de estilo. A filosofia como pathos, uma paixão de pensar motivada não imediatamente por problemas, muito menos pela tradição, mas sempre por circunstâncias práticas, por situações concretas, por estados vividos, e como sua despersonalização. O pensamento como heterogénese, mas em nós, de nós. O conceito como passagem de um concreto a outro concreto, a teoria como passagem de uma prática a outra prática. Vitalismo. Viagem. Ou "devir não humano
dos homens", fulgor desta fórmula, prescritiva tanto quanto especulativa, toda uma metafísica e toda uma ética. Toda uma negação do finito como medida humana, do espírito de finitude como infidelidade ao pensamento e à vida, dos limites e impossibilidades que fazem os nossos conformismos, toda uma exposição activa ao que nos excede, e uma afirmação desse excesso, do infinito-impessoal, como a nossa medida, a nossa realidade transcendental.»
[da Conclusão]


Sousa Dias
nasceu no Porto em 1956. Professor. Publicou, entre outros livros, Questão de estilo (colectânea de textos de teoria da literatura e da arte), O que é poesia? (ensaios de teoria crítica) e Grandeza de Marx – Por uma política do impossível.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

«Para Grandes Solidões Magníficos Espelhos», de Carmo Sousa Lima, Vasco Araújo e João Sousa Monteiro


Para Grandes Solidões
Magníficos Espelhos
 
Carmo Sousa Lima | Vasco Araújo | João Sousa Monteiro

ISBN: 978-989-8566-34-8
Edição: Novembro de 2013
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 15,5x23,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 144 (com fotografias a preto e branco)

Durante vários meses, Carmo Sousa Lima (psicanalista) e Vasco Araújo (artista plástico) conversaram sobre a infância e os mistérios que a tecem sem se deixarem ler; sobre a delicadeza; sobre o enigma que parece estar no coração de tudo; sobre a virtude da incerteza, a coragem, o fascínio da fragilidade; sobre os medos que cruzam a vida em todas as direcções. A obra em vídeo de Vasco Araújo – hoje uma referência central no panorama da arte contemporânea – inspirou muitas destas conversas. Sem que tivesse sido planeado, o livro revelou-se um surpreendente ‘statement’ sobre a experiência criativa de Vasco Araújo. Longos anos de experiência clínica, e um olhar de autora de poesia, atravessam cada linha deste livro. Olhada em conjunto, a conversa – com as suas hesitações, inseguranças, mudanças bruscas de direcção – reflecte sem o quererem, a experiência da vulnerabilidade com que os dois interlocutores vêem, de dentro, a vida. João Sousa Monteiro (psicanalista) colaborou na última, e mais extensa, conversa deste livro.


«Vasco: …O mundo é feito de coisas invisíveis, que quando se mostram são extraordinárias!
João: Mas quantos dos vivos estão vivos? O que é que, em cada um de nós, está vivo – ainda está vivo, já está vivo, nunca esteve vivo, nunca estará vivo, não queremos que esteja vivo? C. Péguy dizia que em cada novo dia, a coisa mais velha do mundo é o jornal da véspera, e a mais nova, a Ilíada. Quantos de nós somos apenas o jornal da véspera? Quanto de cada um de nós já se tornou no jornal da véspera, ou quantas vezes nunca foi outra coisa senão o jornal da véspera? Estou inteiramente de acordo em que é precisa imensa coragem para manter um olhar claro relativamente à vida. Mas não é exactamente o que mais nos falta a todos, coragem?
Carmo: …«ele há dias»… e nessa matéria – como em tantas outras – há dias que valem anos e anos que valem dias…»
cartaz

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz


Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz

Textos de Alexandre Quintanilha, Carmo Sousa Lima, Hugo Dinis, José Neves, 
Miguel Vale de Almeida, Sara Antónia Matos, Tiago Castela

ISBN: 978-989-8834-73-7

Edição: Abril de 2017

Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros
Formato: 17 x 21cm
Número de páginas: 128 [brochado, a cores]

[Em colaboração com o Atelier-Museu Júlio Pomar]

Edição bilingue: português-inglês


Este projecto do curador Hugo Dinis problematiza o modo como os criadores
reagem aos períodos de crise, como e se é possível produzir arte em contextos
adversos, e de que forma isso se reflecte nas obras e discursos produzidos…


Este livro foi publicado por ocasião da exposição «Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz», a proposta curatorial de Hugo Dinis, vencedor da 2.ª edição do Prémio Atelier-Museu Júlio Pomar / EGEAC 2016, realizada no Atelier-Museu Júlio Pomar de 30 de Março a 21 de Maio de 2017.

A exposição apresenta obras de Júlio Pomar (Lisboa, 1926), André Romão (Lisboa, 1984), Carlos Bunga (Porto, 1976), Igor Jesus (1989), Joana Bastos (Lisboa, 1979), João Leonardo (Odemira, 1974), João Pedro Vale (Lisboa, 1976) & Nuno Alexandre Ferreira (Torres Vedras, 1973), Pedro Barateiro (Almada, 1979) e Rodrigo Oliveira (Sintra, 1978).

[…] os desequilíbrios económicos, sociais e culturais acentuam-se e, sem empatia, marcam definitivamente o fosso entre todos, prevendo que nos canais (de comunicação) que os separam o desespero e a luta sejam as palavras que mais ordenam. Porém, não se tentará aqui nem avaliar as culpas de um passado recente nem prever um futuro por vir, mas sim aflorar quais os sentimentos, as reacções e as reflexões presentes na contemporaneidade.
Nesta óptica, as obras apresentadas na exposição «Estranhos dias recentes de um tempo menos feliz» confluem, em última instância, num rumo comum: a nostalgia da perda, da decadência e da precariedade. 
Hugo Dinis



Hugo Dinis (Lisboa, 1977) vive e trabalha em Lisboa. Licenciado em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e Pós-graduação em Estudos Curatoriais em cooperação com a Fundação Gulbenkian, Lisboa. Comissariou «Eu (título em construção)» (2015) no Espaço Novo Banco, Lisboa; «A Iminência da Queda» (2009), na Galeria Diário de Notícias, Lisboa; e «Desedificar o homem» (2008), na Galeria Municipal Paços do Concelho, Dois Paços Galeria Municipal e Transforma em Torres Vedras no âmbito do projeto itinerante «Antena» da Fundação Serralves.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

«Reler e pensar a poética de Manuel António Pina», por Maria João Cantinho



Nesta tarefa de alto risco mergulha Rita Basílio, ao abordar a obra poética de Manuel António Pina, oferecendo aos seus leitores um livro que resulta da edição da sua tese de doutoramento, prefaciado pelo filósofo Sousa Dias. Guiada pela proposta de «ler uma pedagogia do literário em Todas as Palavras, de Manuel António Pina, procura aceder aos temas nucleares que, de acordo com a autora, se apresentam na sua poesia, como os da morte, da infância, da língua e da memória. No entanto, a ensaísta revela um conhecimento aprofundado de toda a sua obra, procurando iluminar a sua tese a partir de contaminações de outros textos, em particular o ensaio de MAP, «Ler e Escrever» [1], texto que é tomado como «testemunha da sua própria reflexão sobre o processo de criação» (p. 25), e donde a autora retira essencialmente as premissas para a sua tese da «pedagogia do literário». Do que é que se fala afinal quando se fala de literatura, é justamente a questão que conduz Rita Basílio  —  e nos conduz pela sua mão segura  —  nesta travessia pelo universo poético de MAP.


Ciente de que ao poeta não interessam as grandes correntes literárias, nem os seus conceitos e técnicas maiores, a autora tenta, a partir dos dispositivos e instrumentos analíticos de que dispõe, sulcar outros caminhos, sobretudo a partir do conceito deleuziano de «literatura menor», aludindo aqui, em particular, a uma poética que se faz de forma «extravagante» (p. 15), no sentido em que se demarcou (à época do seu surgimento) e se demarca daquilo a que Deleuze se referiu como uma «axiomática dominante» (a poesia dos anos 70), isto é, «face a alguns lugares literários — excessivamente territorializados pela crítica nacional» (p. 15). Serve-lhe então o conceito deleuziano para estabelecer desde logo uma leitura crítica que procura desembaraçar a poética do autor das suas equívocas leituras. É no primeiro capítulo, intitulado «Uma Entrada pelo Lado de Fora», que aborda as reacções e leituras críticas sobre a sua poesia, em particular no período entre 1974 e 1989. Justifica essa passagem do seu ensaio pela necessidade de compreender a «extravagância» de MAP e o modo como poucos foram os críticos que se revelaram capazes de sair da sua visão familiar e acolher «a inesperada perspectiva de forasteiro que MAP dava desde logo a conhecer.» (p. 15). A sua proposta de releitura parte também da refutação de algumas leituras, como, por exemplo, a de Inês Fonseca Santos, autora do primeiro estudo sistemático sobre o autor, intitulado A Poesia de Manuel António Pina. O Encontro do Escritor com o seu Silêncio, ou ainda de críticos que estiveram ligados à recepção da sua poesia. A integração da obra de MAP no quadro da pós-modernidade, como o fazem alguns, é insuficiente para categorizar a produção poética de MAP, revelando-se, neste sentido, redutora, naquilo que a própria categorização arrasta consigo.


Se a escrita poética era, para MAP, uma experiência que se revia numa «espécie de desejo de falar», de que ele próprio falava, em «Ler e Escrever» (p.39), corroborando uma injunção de T.S.Eliot (p. 268), Rita Basílio quer dar conta do que é esse «falar» que, na óptica do poeta, resulta numa leitura activa ou gesto poiético que é «solicitado a dar resposta» ao que não é, ou que não se deixa formular, esse «monstruoso vazio» que o assombra, em busca da sua expressão ou de uma qualquer forma na língua. Se aludimos aqui a uma procura, a uma tentativa de se transformar, pelo poema, numa presentificação do indizível, então essa é também a experiência do «Testemunho», que a autora reconhece na sua obra Todas as Palavras. Todavia, essa é também a experiência de uma «aprendizagem do incerto», para parafrasear a expressão de Silvina Rodrigues Lopes, referindo-se Rita Basílio a uma aprendizagem da passagem, que encontra na alegoria um modo de expressão privilegiado, como o justifica de forma extensa no capítulo IV, que dedica à alegoria, convocando para este encontro a distinção benjaminiana entre símbolo e alegoria.

Não é apenas a experiência da fragmentação que se encontra aqui presente, mas essencialmente aquilo que a autora caracteriza como o «drama da escrita de MAP» (p. 99), que «começa precisamente por ser o drama de um excesso que exibe uma falta: o excesso de fala, o excesso de significação (pela recorrência constante à citação), o excesso de memória, de anterioridade e, sobretudo, o excesso de consciência da impossibilidade de esquecer tudo isto» (Idem). Duplo e simultâneo, dilacerado acto de memória e de esquecimento, a poesia de MAP conforma essa experiência da falta, a do próprio rasto. É justamente nessa poética que se inscreve o gesto, chamemos-lhe assim, da pedagogia do literário, como leitura activa, leitura por escrito de tudo o que é, foi e será lido no e pelo poema.

Mais do que gesto, a recorrência constante à citação, em MAP, é um acto de leitura. Não é apenas o reconhecimento das marcas que Borges deixou na sua poética que se faz visível, como no extraordinário poema «Emet» (, em que MAP nos diz que a Literatura «é uma arte/escura de ladrões que roubam a ladrões», mas é também esse enigmático processo alegórico que aqui se apresenta, como recomposição/reconfiguração do poema a partir de citações, tal como o colecionador de Walter Benjamin dispõe os seus objectos avulsos, «roubados» ou extraídos, numa nova ordem de significado. Por outro lado, o espaço do poema é também o «insondável lugar que os fantasmas habitam» (p. 275). E do que falará a literatura senão desse espaço fantasmático, a que o poeta, atento às vozes dos mortos, se obriga à escuta? E doravante, certamente, não será possível ler e compreender a obra de Manuel António Pina sem este estudo referencial, atento e rigoroso que lança novas pistas de investigação, que ampliam muito o que até então havia sido feito.

[1] In Revista Portuguesa de Psicanálise, nº 18, Março de 1999.

Texto publicado no JL, com pequenas alterações/correcções.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Manuel António Pina – Uma pedagogia do literário I Rita Basílio


Manuel António Pina – Uma pedagogia do literário

ISBN: 978-989-8834-29-4

Edição: Março de 2017

Preço: 22,64 euros | PVP: 24 euros
Formato: 14,5x20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 344



Este não é apenas um texto entre outros publicados e por publicar, pretéritos e futuros, sobre a obra poética de Manuel António Pina. O ensaio de Rita Basílio é o livro que faltava, que era urgente escrever, sobre essa obra […] Com um rigor analítico expressivo da paixão pelo objecto de análise, Rita Basílio restitui-nos em toda a sua complexidade a grandeza desta poesia ao mesmo tempo tão simples e sempre tão bela, desta voz «pós-pessoana» (Eduardo Lourenço) exterior às correntes e genealogias poéticas modernas. O presente ensaio, longe de se arrogar a última palavra sobre a poesia de Manuel António Pina, explicitamente pretende suscitar outras percepções, outras leituras teóricas dessa obra. Mas ele perfila-se desde já como a exigente fasquia com que tais leituras terão doravante de medir-se. [Sousa Dias]

Parto da hipótese que me põe à prova: a de ler uma pedagogia do literário em Todas as Palavras de Manuel António Pina. O autor não se interessa pelas grandes teorias do saber, pelas grandes correntes literárias, pelos conceitos e técnicas maiores, interessam-lhe as relações que, nos e pelos textos, se estabelecem com a língua e com a memória, com a morte e com a infância, com o mundo e com o silêncio. É o menor (esclarecer-me-ei teoricamente com Deleuze) o domínio epistemológico da aprendizagem do literário que esta obra solicita.
É sempre a meio de um lugar aberto por um talvez, um como se, que as hipóteses se ligam à possibilidade de experimentar saber para além – ou para lá – do que é sabido.
Ensaio, neste estudo, alguns modos de dar resposta à solicitação que em Todas as Palavras é aprendizagem de um pensamento sobre a própria literatura, sobretudo enquanto processo que agencia publicamente um não-saber, «um vazio privado» que, por isso mesmo, «há-de querer facultar-se», solicitando acesso. […] [Rita Basílio]

Rita Basílio nasceu em Leiria em 1972. Investigadora. Publicou, entre outros, o livro Mário de Sá Carneiro – Um Instante de Suspensão (2008). Trabalha actualmente sobre a literatura para crianças de Manuel António Pina.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A Imagem-Movimento. Cinema 1 I Gilles Deleuze


A Imagem-Movimento. Cinema 1
Gilles Deleuze

Tradução de Sousa Dias

ISBN: 978-989-8566-97-3

Edição: Setembro de 2016

Preço: 18,87 euros | PVP: 20 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 328



Este estudo não é uma história do cinema. É uma taxinomia, uma tentativa de classificação das imagens e dos signos. Mas este primeiro volume vai limitar-se a determinar os elementos, e mesmo assim os elementos de uma só parte da classificação.
[…]
Tratamos nesta primeira parte da imagem-movimento e das suas variedades. A imagem-tempo será objecto de uma segunda parte. Os grandes autores de cinema pareceram-nos confrontáveis não só com pintores, arquitectos e músicos mas também com pensadores. Eles pensam com imagens-movimento e com imagens-tempo, em vez de conceitos. A enorme proporção de nulidade na produção cinematográfica não é uma objecção […] não é por isso que o cinema deixa de fazer parte da história da arte e do pensamento, sob as formas autónomas insubstituíveis que esses autores souberam inventar e fazer passar apesar de tudo.

Gilles Deleuze [França, 1925-1995] é hoje internacionalmente considerado como um dos nomes maiores do pensamento contemporâneo. Michel Foucault, outra grande referência da filosofia do nosso tempo, considerava Deleuze o único verdadeiro filósofo de todo o século XX francês. E o italiano Giorgio Agamben, talvez o mais importante filósofo vivo, afirmou algures que o século XX só conheceu dois filósofos da estatura dos grandes clássicos da história da filosofia: o alemão Heidegger e, precisamente, Deleuze. A obra filosófica de Deleuze teve, já em vida do pensador, mas vem tendo entretanto cada vez mais, e por toda a parte, uma extraordinária importância não só na filosofia mas em vários outros domínios, uma vez que essa obra sistematicamente confrontou, de uma
forma sempre criativa, a filosofia com a literatura, a psicanálise, o cinema, a pintura, a ciência e a política.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo I Manuel António Pina



Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo
Manuel António Pina

Organização de Sousa Dias

ISBN: 978-989-8834-27-0

Edição: Junho de 2016

Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 224


A literatura nunca deixou de ser, na minha escrita, possível, mas a palavra literária (a palavra poética ter-se-á esgotado excessivamente a convocar o ser e o mundo (a ser ser e mundo) e terá, a certa altura, caído em si, percebendo que talvez se tivesse negligenciado como instância, também, e mais modestamente, de nomeação do ser e do mundo, e experimentando então «saudades da prosa». Mas tenho, de facto, consciência de que, desde Cuidados Intensivos (ou, talvez antes, desde Farewell Happy Fields), existe na minha escrita uma espécie de reconciliação com a literatura (com a poesia), que passa tanto pela aceitação dos seus processos como da sua memória.
Um dos últimos poemas que escrevi fala das «minhas últimas palavras», aquelas que, «por cansaço, por inércia, por acaso», foram ficando, e com quem, agora, «como velhos amantes sem desejo» desfio memórias. [Manuel António Pina]

Manuel António Pina [1943, Sabugal-2012, Porto] formado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, exerceu inicialmente a advocacia e foi jornalista e cronista no Jornal de Notícias até ao seu falecimento. Autor de textos para a infância e juventude e de uma obra poética das mais originais da sua geração, recebeu inúmeros prémios, entre os quais podemos destacar o Prémio Literário da Casa da Imprensa, em 1978; o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens e a Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, em 1988; o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Grande Prémio de Poesia da APE/CTT, em 2005; e o Prémio Camões, em 2011.