quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O poema é pensamento por imagens...


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“O que é poesia?”, pergunta Sousa Dias. A ausência do artigo é significativa: trata-se de saber o que é “poesia” e não “a poesia”. Parece um propósito menos ambicioso, mas é o contrário. Determinar o que é “a poesia” tem qualquer coisa de projecto metafísico e nebuloso; estabelecer o que é “poesia” é um exercício pragmático e útil.

Tentemos resumir as teses, frequentemente densas, de Sousa Dias, filósofo da galáxia deleuziana, aqui bastante influenciado pelo ensaísmo minucioso de Jean-Luc Nancy. A primeira tese tem a ver com o poema enquanto poética, isto é, enquanto resposta à questão “o que é poesia”. Embora muitos poetas escrevam “artes poéticas”, o ensaísta cita Manuel António Pina, que se sempre se mostrou céptico quanto a esse olímpico auto-conhecimento. Existe uma espécie de “não-saber” no poeta, e até no próprio poema, de modo que até o poema mais “transparente” supõe uma certa opacidade. Sousa Dias assevera, de modo provocatório, que um poema nada diz, nada significa, não quer dizer nada, não tem nada para dizer. Isto porque as ideias do poema nascem das palavras do poema, não as antecedem. E essas ideias-palavras resistem ao mundo, ao discurso sobre o mundo, e até ao discurso sobre o poema. Trata-se da poesia como enigma, não como explicação.

O segundo argumento defendido neste breve conjunto de ensaios diz respeito ao vivido e à experiência, sensibilidades que têm dominado, com alguns hiatos, a poesia portuguesa. Sousa Dias, usando o exemplo de Ruy Belo, contesta essa visão ingénua. Por exemplo, a quase-narratividade de Belo não uma transposição do quotidiano visível mas um modo de desvendar a dimensão invisível de um quotidiano. A poesia não é uma estetização do vivido, nem um subjectivismo, mas um conjunto de sensações progressivamente impessoais, des-subjectivadas, de modo a que até os poemas mais confessionais são transmissíveis, porque não estão dependentes do “eu” original. 

Rilke lembrou que o poema não é um sentimento mas uma experiência, uma experiência verbal que que potencia os sentimentos de quem lê. Além do mais, escreve Sousa Dias, o material biográfico dos poemas torna-se muitas vezes uma abstracção. Por exemplo, as memórias infantis ou amorosas encaminham-se para reconstruções ficcionais e quase mitológicas da “infância” e do “amor”, desprendidas da factualidade. A “experiência da linguagem” transforma a subjectividade em impessoalidade. Daqui decorre a estratégia modernista do recurso às máscaras, à heteronímia, ao fingimento. O próprio lirismo, lembra Sousa Dias, tem uma fama imerecida de subjectividade pura, porque se trata, com frequência, de uma vertigem poética da ordem do imaginado, do invivível (e ocorre-nos a poesia de Keats).

A linguagem é o terceiro elemento desta argumentação. Como outros autores têm sublinhado, a poesia é uma língua contra a linguagem, contra a linguagem comum, comunicativa; a poesia é outra língua, que não respeita as normas sintácticas, semânticas, nem as fórmulas estafadas ou os clichés. Inventa por isso sequencialidades e combinações novas, não arbitrárias mas rigorosas, trabalhadas. O que é poesia? É uma linguagem contra os limites da linguagem. Uma tentativa de dizer aquilo que talvez não possa ser dito.

A quarta e última asserção é que a poesia não é o reino da metáfora, como julga o senso-comum, mas da metamorfose. Porque a metáfora é uma comparação elidida, um jogo sobre os significantes, e supõe uma prévia ideia “prosaica” que depois se traduz em linguagem poética. Sousa Dias explica que a imagem poética é uma imagem-ideia, e não corresponde às “ideias” lógicas da prosa, às ideias-conceito. O poema é pensamento por imagens, sem correspondência na língua não-poética. O exemplo dado é a acumulação imagética, cinematográfica e alucinada, de Herberto, o poeta vivo que mais escreve numa língua estranha, uma língua da metamorfose que nos intriga e fascina, e que nos leva a perguntar o que é poesia. 

Pedro Mexia, Público online, 9 de Setembro de 2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Feira do Livro do Porto 2014






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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

«Cinco contos assombrados e inquietantes de Edith Wharton»


«Por vezes, pequenos incidentes” transformam-se em Acontecimentos Extraordinários. As expressões, e as maiúsculas, são de Edith Wharton (1862-1937), nova-iorquina de boas famílias que se tornou esposa-troféu de um banqueiro, passou a vida em mansões, festas e viagens, foi amiga e discípula de Henry James, e escreveu quatro ou cinco livros que se tornaram clássicos. O romance A Idade da Inocência (1920) valeu-lhe o Prémio Pulitzer, que nunca tinha sido ganho por uma mulher.
(…)
Como nota, na introdução, Aníbal Fernandes, o grande trunfo de Wharton é cingir-se ao ponto de vista do narrador ou do protagonista, limitando aquilo que sabemos. Há por isso um não-dito” que sustenta toda uma atmosfera de mistério e ameaça. E o naturalismo psicologista dá lugar à modernidade das narrativas sem desfecho.
(…)»

Pedro Mexia, «Fantasmagorias», «Actual»/ Expresso, 2 de Agosto de 2014

«A história trágica de um marinheiro (…) num mundo demasiado humano onde a Lei vigora acima da Justiça.»


«Como sempre, a apresentação de Aníbal Fernandes é um valor acrescentado a esta edição de Billy Bud, Marinheiro, texto que só mais de 20 anos após a morte de Melville seria trazido a público. A história trágica de um marinheiro cuja beleza, bondade e inocência acabam castigadas num mundo demasiado humano onde a Lei vigora acima da Justiça.»

Ana Cristina Leonardo
, «Actual»/ Expresso, 12 de Julho de 2014