terça-feira, 19 de outubro de 2021

Manuel António Pina

 

«E eu, como um estranho, passava / no jardim fora de mim / como alguém de quem alguém se lembrava / vagamente (talvez tu), / num tempo alheio e impresente.»
MANUEL ANTÓNIO PINA
Sabugal, 18-XI-1943 | Porto, 19-X-2012


Fotografia: Na homenagem a MAP, Feira do Livro do Porto, 2010.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Apresentação do livro «Antropologia da Moda» de Filomena Silvano, por Sónia Vespeira de Almeida


«É um prazer enorme estar hoje aqui perto dos céus de Lisboa e na Moda Lisboa no lançamento do livro Antropologia da Moda de Filomena Silvano, colega e amiga, a quem agradeço imenso o convite para apresentar este seu último livro. É uma honra e uma responsabilidade.
 
1. Este livro é mais um marco na trajectória da investigação que a Filomena Silvano tem desenvolvido e espelha a vitalidade da Antropologia contemporânea, atenta ao que chega mas com forte interlocução com temas e autores clássicos, propondo análises críticas que nos ajudam a ler o real. E o real aqui, o pedaço de mundo, o recorte que a Filomena nos traz é, de facto, a moda e o vestir e o que este universo complexo activa.
 
Antes de me debruçar especificamente sobre este livro, e também com o objectivo de o compreendermos melhor, gostaria de sublinhar que a antropologia que a Filomena Silvano faz (uso aqui intencionalmente o verbo fazer), é uma antropologia desafiante e criativa que se caracteriza por diálogos e experiências com outras áreas, como por exemplo o design, o cinema, as artes visuais e, também, uma antropologia muito atenta nos últimos anos ao “fazer”. Acredito que estes diálogos e a atenção que dirige aos processos criativos, às criatividades culturais contaminam o seu modo de fazer e de ensinar antropologia.
 
O livro apresenta-nos os grandes territórios de interpelação que guiaram a autora no tratamento do assunto “moda” e que viriam a configurar o seu trabalho de campo mais recente (que não se encontra presente neste livro) realizado entre 2016-2018 no atelier do designer de moda Filipe Faísca, trabalhando sobre o que irradia a partir dele. Mas antes desta etnografia, importa destacar o trabalho anterior da Filomena sobre o traje ritual – em particular os mantos usados pelas rainhas nas Festas do Espírito Santo, na ilha do Pico, nos Açores – no quadro pesquisa de terreno realizada durante as festas de 2012, coordenado pelo antropólogo João Leal - onde analisa a cultura material têxtil no quadro mais vastos dos processos migratórios.
 
Porquê que convoco a etnografia estando ela ausente deste livro? Porquê que é importante? Convoco-a porque nos ajuda a compreender Antropologia da Moda, justamente porque o livro vem do real, vem dos mundos que “etnografou” e congrega simultaneamente o colectivo de autores que configurou a sua investigação mais recente.
                                 
2. Antropologia da Moda activa capilaridades várias a partir de um objecto complexo e contraditório que nos leva do luxo, às alterações climáticas até à pandemia. Ajuda-nos a reflectir porquê que o que existe não chega, é insuficiente como afirmou John Berger (1972) referindo-se à arte.
 
Filomena Silvano vai tecendo uma rota nómada. Não se cinge à Antropologia, tem a eficácia de ir anexando campos disciplinares diversos que permitem pensar a Moda hoje, apresentando uma constelação de autores e temáticas que são trabalhadas de forma muito ágil.
 
O que dá a ver? O que permite pensar Antropologia da Moda?
O livro desdobra-se em cinco momentos que revelam um quadro teórico-conceptual sofisticado e que é colocado em articulação com exemplos empíricos cuidadosamente seleccionados e analisados, que vão iluminando a teoria, aproximando-nos do mundo da moda. E conseguimos entrar…
 
Abre com os filões estruturantes dos primeiros escritos sobre a Moda e que configuraram as principais reflexões ao longo do século XX. Destaco um deles: o cruzamento tenso entre diferentes temporalidades. Por exemplo, a moda como um fenómeno que lida habilmente com a ideia de actualidade, de novidade, mas também como, paradoxalmente, se desajusta do tempo presente e como recua.
 
Depois o livro desenha um outro movimento. O olhar da autora desloca-se deste território interdisciplinar – onde habitam antropólogos, sociólogos, economistas e filósofos - para se deter na Antropologia, na sua disciplina, e em particular na Antropologia do Vestir e nas roupas enquanto cultura material, área de estudos que a autora tem também trabalhado.
 
Filomena Silvano sublinha o carácter ainda marginal destes tópicos na Antropologia, o que nos permite identificar o pioneirismo deste livro no contexto português e até internacional. Contudo, apesar do “vestir” ter estado presente nas análises antropológicas, o sub-campo disciplinar “Antropologia do Vestir” só se configura tardiamente, em particular no ano 2000.
 
De seguida cruza a moda e o vestir a partir de grandes temáticas dando visibilidade aos percursos sociais das coisas, à sua circulação, às várias condições que assumem, às relações que as pessoas estabelecem com as roupas, à corporalidade, às identidades e ao luxo.
 
No quarto momento, é trazida a dimensão política e de contestação no mundo da moda, analisando-se os direitos dos animais, a sustentabilidade no contexto da emergência climática - e alteração dos consumos daqui decorrentes e a resposta da indústria e dos criadores - a não discriminação racial, as condições de trabalho e a precariedade no quadro da neoliberalização da moda.  
 
São inquietantes as reflexões trazidas porque nos confrontam com os “processos antrópicos” que tiveram consequências planetárias (Haraway 2016) e que configuram o que designamos de Antropoceno.
 
Por exemplo, são necessários dois mil e setecentos litros de água para produzir uma t-shirt de algodão, que correspondem ao consumo médio de água por pessoa durante dois anos e meio (p. 165). Filomena Silvano dá a ver as contradições e complexidades do mundo da moda e afirma que “as pessoas do mundo inteiro têm cada vez mais consciência dos efeitos nocivos da produção de roupa, mas as pessoas do mundo inteiro consomem cada vez mais roupa.” (p. 166).
 
A atenção da autora ao presente conduz a uma reflexão que encerra o livro sobre a moda e o vestir na pandemia. E aqui são analisados como os desfiles, centrais para o funcionamento da indústria da moda ao construírem os sentidos e os valores das roupas, se reconfiguraram no digital, mas também são trabalhadas as alterações no vestir com o uso generalizado da máscara.
 
3. A grelha teórica magnamente costurada num arco temporal alargado, as temáticas e exemplos seleccionados, fazem de Antropologia da Moda um contributo extraordinário para multiplicarmos pontos de vista sobre o contemporâneo e percebermos as diferentes formas de se ser humano. Temos a moda, mas em articulação com os direitos laborais, com a emergência climática. Percebemos como as roupas circulam, quais as roupas que entram num desfile, e como se constrói o seu valor. Percebemos a vida social das coisas.
 
Contribui para percebermos porquê que cada um de nós se veste desta ou daquela maneira, porquê que a cantora Billie Eilish opta pelo oversize, porquê que Kamala Harris vestiu roxo na tomada de posse - a outra cor das sufragistas - ou ainda porquê que os índios brasileiros Caduveos tanto investem no cuidado e no adorno dos seus corpos.
 
E termino apropriando-me das palavras de Italo Calvino. No ensaio “Para quem se escreve”, que integra o livro Ponto Final, diz-nos que um livro é tão mais interessante se gerar curto-circuitos pela relação que estabelece com livros que não estão habituados a estar uns com os outros.
 
Antropologia da Moda activará esta relação, justamente por não ser um livro só para leitores de antropologia. Habitará, certamente, uma estante improvável.»

Sónia Vespeira de Almeida
Professora Auxiliar | Departamento de Antropologia NOVA FCSH
Investigadora do CRIA

Apresentação do livro Antropologia da Moda de Filomena Silvano
Moda Lisboa, 9 de Outubro de 2021
Palavras lidas, na ocasião

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Hugo Canoilas: A Exposição como Parcela de Tempo — Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro

Hugo Canoilas: A Exposição como Parcela de Tempo 
Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro 
Hugo Canoilas, Pedro Faro, Sara Antónia Matos 

ISBN 978-989-9006-93-5 | EAN 9789899006935 

Edição: Dezembro de 2020 
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros 
Formato: 12 × 17 cm (brochado) 
Número de páginas: 192 

Com o Atelier-Museu Júlio Pomar

«Adoro vir [a Portugal], sabendo que vou regressar a Viena, percebem? Não sei se estou preparado para viver aqui outra vez. Começo a sentir-me um pária. Significa que não sou de nenhum dos lados exclusivamente. Vou aos lugares onde faço exposições e projetos. Nos últimos dois anos, contudo, tenho vindo mais a Portugal por questões de trabalho.» 
[Hugo Canoilas] 

As conversas com Hugo Canoilas pretendiam dar a conhecer o percurso de um artista de uma geração e com uma experiência diferente da dos anteriores entrevistados. Formado na ESAD (Caldas da Rainha) e assistente de Pedro Cabrita Reis — «escola» que certamente lhe trouxe uma experiência e uma confiança inigualáveis —, o artista decide sair de Portugal em 2003 e virar o rumo do seu trabalho. Esse momento, como o mesmo refere, constituiu uma espécie de arranque «falhado» no aspeto da subsistência, o qual lhe podia ter custado não a sua vida, mas o espírito. 
Volvida essa página e os diferentes momentos difíceis, como o nascimento da sua filha, a mudança de galeria, a apresentação de uma nova linguagem — figurativa — a qual foi mal recebida pelo meio artístico, que dele tinha ideias feitas e criou certas expectativas, o artista resiste e fala-nos com frontalidade, sem pudores ou receios, o que pensa do sistema da arte. 
Nesta conversa, Hugo Canoilas chama a atenção para a ausência de partilha e diálogo entre pares e profissionais, apontando vícios estruturais do sistema e a necessidade de libertação das convenções. Terá sido esse o maior motivo para a sua partida: um alargamento de horizontes e possibilidades, em simultâneo, com a necessidade de não ter de corresponder ao esperado por uma comunidade e um consenso instalados. Isso ficou patente nas conversas que se foram tendo, em que o mesmo revela, sem a certeza de poder divulgar publicamente o gesto de destruição de toda a obra realizada antes dessa viragem, com o propósito de não carregar sobre si, sobre as suas costas, uma força opressora, coerciva e limitativa. 
Sobre o projeto no próprio Atelier-Museu, sobre a sua faceta antropofágica, isto é, de amante e devorador do mundo, é reveladora a sua insistência em ver transformada a exposição a apresentar ao público no decorrer do tempo. 
É nesse momento que se torna claro que, para o artista, é vital algo que também era para Júlio Pomar: o movimento e a transformação, o risco e a mudança que lhe estão inerentes. Essa faceta, essa energia contagiante e «canibalística» também Hugo Canoilas reconhece a Pomar e certamente teria feito, de um encontro entre os dois, surtir centelha, clarão, vivacidade, faísca. 
[Sara Antónia Matos]

Antropologia da Moda

Antropologia da Moda 
Filomena Silvano 


ISBN 978-989-9006-97-3 | EAN 9789899006973 

Edição: Agosto de 2021 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 192

Foi preciso que chegasse o recolhimento a que a pandemia nos forçou para que a minha relação com a moda se passasse a organizar numa nova modalidade, mais distanciada e mais centrada nos textos e nos arquivos. 

Em dez anos a cidade mudou. Nas ruas, no metro, nas escolas ou nas discotecas cruzamo-nos com pessoas que são diferentes. Para sermos mais precisos, cruzamo-nos com pessoas que usaram a liberdade que as cidades sempre concedem para produzirem corpos e imagens diversificados. São histórias de amor próprio. Tal como são de amor as histórias que os criadores portugueses viveram durante os dez anos de produção da ModaLisboa. Por vezes essas histórias cruzaram-se. As colecções dos criadores propuseram regras de composição possíveis, programas que foram utilizados para compor e repor as imagens de nós próprios. 
Escrevi este pequeno texto, em 2001, para integrar a exposição comemorativa dos 10 anos da ModaLisboa, que nesse ano decorria sob o leitmotiv «Pashion». Desde a década de 1990 que a moda, o vestir, as cidades e os processos de criação das identidades me interessaram, e, por isso, ao longo dos anos, sempre que foi oportuno, escrevi sobre o assunto. Em 2017, decidi iniciar uma abordagem mais etnográfica e comecei uma pesquisa de terreno no atelier do designer Filipe Faísca. Já num quadro de pesquisa académica, em 2019, organizei, em parceria com Solange Riva Mezabarba, um dossier intitulado «Moda: cultura material, modos de vestire dese apresentar», publicado na revista Cadernos de Arte e Antropologia. A ideia de escrever este livro surgiu-me no fim desse trabalho conjunto, mas foi preciso que chegasse o recolhimento a que a pandemia nos forçou para que a minha relação com a moda se passasse a organizar numa nova modalidade, mais distanciada e mais centrada nos textos e nos arquivos. 
[…] 
Num primeiro momento, este livro trata de quatro questões que foram identificadas logo nos primeiros textos escritos sobre a moda: o tempo enquanto contemporaneidade; a construção sistemática do novo; a oposição entre costume e moda; e a articulação entre imitação e distinção. De seguida, faz um parêntese para apresentar a noção antropológica de vestir, que, por ser construída a partir de uma perspectiva universal, liberta os estudos de moda de concepções demasiado ocidentalistas. Segue com uma apresentação de grandes temáticas — os percursos sociais das coisas, os seus trânsitos culturais, os sentidos das roupas, os corpos e os adornos, as identidades e o luxo. O livro termina com os impactos de algumas lutas cívicas e, no último ano, da pandemia nas dinâmicas da moda. 
[Filomena Silvano]

Arenario

Arenario 
Francisco Tropa 

Textos de François Piron, Maria Filomena Molder e Nuno Crespo 

ISBN 978-989-9006-73-7 | EAN 9789899006737 

Edição: Março de 2021 
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros 
Formato: 16,5 × 24 cm (encadernado) 
Número de páginas: 216 (a cores) 

Com a Universidade Católica, Escola das Artes, CITAR 

Edição trilingue: português, inglês, francês

«A obra de arte cria uma imagem intemporal formada através dos sentidos, da inteligência e da memória do observador e, por mais estranho que pareça, este processo nada tem que ver com os instrumentos da comunicação.» 
[Francisco Tropa] 

Por mais que tentemos, o trabalho de Francisco Tropa (n. Lisboa, 1968) não se deixa apresentar através da sua condução a um conjunto determinado de gestos, objectos ou conceitos. A sua natureza é ser um campo amplo onde se conjugam diferentes experiências humanas. Uma arena, um «arenario» como lhe chama o artista, um espaço aberto onde se dá um corpo-a-corpo (real e virtual) entre o humano e a arte e que é palco do mistério — cujo drama se desenvolve pelo menos desde Lascaux — que se constitui de cada vez que um de nós enfrenta uma obra de arte e é por ela enfrentado. 
A exposição que esteve na origem deste livro propôs, a partir de uma única obra, explorar o trabalho deste artista segundo a ideia das imagens, da sua fabricação e da sua existência enquanto lugares reais. A obra pertence à família das lanternas de Tropa e nessa família são convocadas ideias axiais para o mundo contemporâneo. Um mundo tomado pelas imagens digitais que transportam no seu interior, e como sua condição, dispositivos de controlo, de subjugação e de poder. 
As imagens quase primitivas que Tropa faz acontecer — e as suas imagens são sempre uma espécie de acontecimento — reenviam insistentemente ao corpo humano e inscrevem-se no seu plano material de finitude. Plano este do qual as imagens virtuais, puramente espectrais e desencarnadas, parecem estar arredadas. 
[Nuno Crespo] 

Assinalem-se três aspectos eminentes da obra de Francisco Tropa e que se revêem nestas passagens benjaminianas. 
Primeiro: é seu propósito manifesto e latente apagar os vestígios de qualquer autoria e dificultar qualquer felicidade interpretativa imediata (embora não a possa impedir, claro). 
Segundo: também ele procura «um aparecer purificado da beleza, livre de qualquer sedução», também ele o sabe sujeito à dissolução sem fim. O lusco-fusco, a hora entre cão e lobo, a luz do ocaso reinam nesse teatro abandonado do mundo, Scenario ou outro título, com as «suas ruínas decifradas», sem intérprete. 
Terceiro: a arte é uma interrupção da dissolução sem fim, uma forma insubmissa de delírio, capaz de imortalizar a ruína. 
[Maria Filomena Molder]

Herança

Herança 
Ana Vidigal, Nuno Nunes-Ferreira 

Textos de Emília Ferreira, Irene Flunser Pimentel e Raphael Fonseca 
Design gráfico de Madalena Vidigal 

ISBN 978-989-9006-89-8 | EAN 9789899006898 

Edição: Maio de 2021 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 16,5 × 20 cm (brochado) 
Número de páginas: 128 (a cores) 

Com o Museu Nacional de Arte Contemporânea 

Edição bilingue: português-inglês 

No dia 25 de julho de 2020, em plena instabilidade da pandemia da Covid-19, uma tragédia ocorreu na Avenida de Moscavide, em Lisboa. 

Bruno Candé, um homem negro de 39 anos de origem guineense e que exercia a profissão de ator foi assassinado por Evaristo Carreira Marinho, um homem branco português de 76 anos que é auxiliar de enfermagem reformado. O crime se deu alguns dias após ambos terem uma discussão que terminou com xingamentos racistas. Segundo a reconstituição do Ministério Público, frases como «Vai para a tua terra, preto!» e «Tens toda a família na senzala e devias também lá estar!» foram proferidas e seu racismo incitou o crime de ódio planejado e consumado três dias depois. 
[…] 
Ana Vidigal e Nuno Nunes-Ferreira, os dois artistas que ocupam as salas do Museu de Arte Contemporânea na presente exposição, também podem ser considerados herdeiros — mas de espólios diversos deste episódio trágico. Ambos os artistas são filhos de homens recrutados para esta guerra entre o desejo de permanência da colônia e a independência de diversos países em África. Sessenta anos após o seu início, os diversos nomes que a escrita histórica deu a esse momento parecem — mas não conseguem — se sobrepor às diversas micro-histórias das quais eles são personagens. Quando crianças, escutavam histórias sobre os conflitos, viam fotografias tiradas por seus pais e tinham experiências do tempo muito diversas — se Ana Vidigal esperou por anos até o retorno de seu pai à casa, Nuno Nunes-Ferreira vivenciou os anos da guerra sempre no passado. Ela sentiu a espera fisicamente ao passo que crescia; ele se pôs a imaginar o que teriam sido aqueles anos pelos jornais e fotografias. O pai dela esteve no território hoje chamado por Guiné-Bissau; o pai de Nuno, em Angola. Além de suas diversas formas de presenciar os traumas da guerra — ela com o presente, ele com o passado —, ambos os artistas são de distintas gerações e experimentam a visualidade de formas contrastantes. Tenho a impressão de que o conjunto de seus trabalhos presentes nessa exposição traz ao público visões existenciais e pesquisas artísticas que se complementam principalmente pelas diferenças. 
[…] 
O que esta exposição propõe é um exercício intimista de rememoração, reflexão e fissura em pequenas histórias que compõem o quebra-cabeça de um todo extremamente complexo onde processos de racismo estrutural foram solidificados ao passo que uma geração de recrutados portugueses sofreu traumas insuperáveis. Deste modo, cada artista à sua maneira, traz à tona que, sim, o racismo foi e é um dado essencial da cultura portuguesa. 
[Raphael Fonseca]

José Barrias: Escrever com a Luz – Notas para a Biografia de Uma Sombra

José Barrias: Escrever com a Luz – Notas para a Biografia de Uma Sombra 
José Barrias 

Organização de Paula Pinto. 
Textos de António Guerreiro, Elisabetta Longari, João Pinharanda, José Luís Porfírio, 
Maria Filomena Molder, Paula Pinto e Vítor Silva. 
Design gráfico de Ricardo Assis 

ISBN 978-989-9006-39-3 | EAN 9789899006393 

Edição: Agosto de 2021 
Preço: 23,58 euros | PVP: 25 euros 
Formato: 17 × 22 cm (brochado) 
Número de páginas: 180 (a cores) 
Apoio: Fundação Ilídio Pinho, Fundação Carmona e Costa e Fundação EDP 

Edição bilingue: português-italiano

A sombra de José Barrias é errante e não encerra em si um significado preciso e fechado. É a capacidade de mutação transitiva desta imagem que entendemos assinalar nesta exposição, configurada como viagem de um artista que se autodefine como um «habitante dos intervalos». 

A exposição [«José Barrias. Escrever com a Luz: Notas para a Biografia de uma Sombra», realizada no CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães) entre 1 de Novembro e 28 de Dezembro de 2019, com curadoria de Paula Parente Pinto e o contributo de Vítor Silva] observa as viagens e metamorfoses de uma imagem fotográfica de pequeno formato — O Princípio da Sombra — captada por José Barrias na Alemanha, em 1970. Como uma razão em trânsito que passa através da obra do artista, esta projecção de um corpo em movimento reaparece noutros suportes e formatos. Manifesta-se numa pluralidade de existências: em documentos, em vestígios ou em trabalhos acabados; uma mesma referência visual tomando novas condições materiais. O entendimento sobre a arte e o método de trabalho de José Barrias espelham-se nesta mutação cumulativa das sombras, que acaba por assumir os contornos de um percurso biográfico. 
É este o enredo de «Notas para a Biografia de uma Sombra»: uma exposição que, a partir de uma imagem fotográfica única e irrepetível — o auto-retrato de José Barrias enquanto sombra — reflecte um processo de migração em aberto através da reprodução. Em paralelo com a forma como o autor reapresenta outras figuras-referências no seu trabalho artístico, a sombra literalmente incorpora uma relação dialéctica entre presença e ausência que define a itinerância do percurso biográfico de José Barrias. 
[…] 
Contrariamente às silhuetas, aos retratos em perfil evocados por Plínio o Velho como a origem da representação artística ocidental, esta sombra não invoca os traços fisionómicos característicos de José Barrias nem é o contorno de um perfil. Barrias possui na sua obra uma dessas silhouettes, executada durante uma viagem familiar a Paris, mas O Princípio da Sombra é seguramente uma figura mais determinada pela reflexão do que pelo recorte físico. A relação frontal da sombra é consigo próprio, com o seu espaço e tempo, mas ganha novas razões de ser na comunidade de imagens que a acompanha. 
[Paula Pinto]