sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial

Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial 
Mário Cesariny 

Preâmbulo de Laurens Vancrevel 
Posfácio de Perfecto E. Cuadrado 

ISBN 978-989-8833-82-2 | EAN 9789898833822 

Edição: Novembro de 2021 
Preço: 24,52 euros | PVP: 26 euros 
Formato: 16,5 × 24 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 496 

Com a Fundação Cupertino de Miranda

O 25 de Abril fez-me trazer para primeiro plano este serviço de utilidade pública de reunir, em extenso, dados universais do surrealismo que pela sua linguagem não poderiam antes daquela data sair entre nós sem preço imediato de martírio, talvez ressurreição, com certeza morte. (Civil, para começar.) 
[Mário Cesariny] 

Considero-me privilegiado por ter testemunhado, desde 1974, o desenvolvimento deste livro até à sua publicação em 1977. Mário Cesariny havia concebido o projecto nos primeiros dias da Revolução dos Cravos em Abril de 1974, quando os longos anos da ditadura repressiva finalmente terminaram. Falou-me das suas ideias para o livro em várias cartas e, durante as nossas visitas regulares, mostrou-nos, a mim e à minha esposa Frida, os novos dossiers que pensava incluir. Em Junho de 1977, levou-nos à impressionante e antiga tipografia Império, na Rua do Salitre, em Lisboa, para ver as provas que estavam a ser preparadas para correcção final. 
Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial tornou-se verdadeiramente um livro totalmente inortodoxo e continua formidável, pioneiro, urgente e pertinente mesmo passado meio século. Cesariny era não só um singular inovador da poesia e pintura portuguesas, como era brilhante na sua análise da mundivisão que o surrealismo desenvolvera. Tudo o que tocava e concebia ficava imbuído de uma nova vida. 
[Laurens Vancrevel] 

O itinerário do livro através de capítulos cronológicos umas vezes, outras geográficos, pessoais ou temáticos, vai desenhando o mapa do labirinto da «única real tradição viva» (Ernesto Sampaio dixit), onde pode servir-nos de fio de Ariadne para, forçando e controlando sistematicamente as leis do acaso, ir ao encontro do Minotauro do «obscuro objecto do desejo» de cada um de nós e de todos nós juntos no caminho da coincidente revolução do «homem interior» e do «homem exterior» (nos termos de Breton para se referir ao sonho da fusão dos sonhos de Rimbaud e Marx), revolução quetem três caras: a Liberdade, o Amor, a Poesia. 
[Perfecto E. Cuadrado]

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Sofia Areal: 20 Anos para a Frente, 20 Anos para Trás

Sofia Areal: 20 Anos para a Frente, 20 Anos para Trás 
Sofia Areal 

Edição de Martim Brion 
Textos de Jorge Silva Melo, José Luís Porfírio, Martim Brion, Ricardo Escarduça 

ISBN 978-989-8833-64-8 | EAN 9789898833648 

Edição: Setembro de 2021 
Preço: 35,85 euros | PVP: 38 euros
Formato: 23,6 × 33 cm (encadernado, com cinta) 
Número de páginas: 224 (a cores) 

Com a Fundação Carmona e Costa Edição bilingue: português-inglês


A obra de Sofia […] é um retrato da sua vida, um retrato das suas ideias, necessidades e desejos, a necessidade de se exprimir e de ser livre sem mais restrições que as suas capacidades físicas e os limites da sua imaginação. 
[Martim Brion] 



Como a maior parte das exposições na Fundação Carmona e Costa, esta é uma exposição de câmara, i.e., onde o formato conta e o suporte é o papel, onde o desenho está presente, muito embora sem ser dominante, e, no caso de Sofia Areal, onde a exuberância de cor é dominante, indispensável quase sempre. Dizer câmara não é limitar, é ajudar a definir a regra do jogo que se joga neste conjunto de obras que, embora descendo no tempo até aos anos 90 do século XX, não se institui como história ou retrospectiva, mas como uma espécie de mapa poético, ou como um passeio através de formas e temas que constroem uma paisagem e essa paisagem é: a pintura e o desenho de Sofia Areal. 
A formas dominantes estão todas lá e associam-se a temas que a artista elege em séries e nomeia com o seu peculiar gosto de inventar nomes e títulos que têm sempre «algo que se lhe diga», é a artista quem o afirma. 
[…] 
Depressa e bem… 
… há pouco quem! É o povo que o diz num provérbio contra o qual Sofia se insurge, porque a velocidade e a urgência são o seu forte, muito embora em certos casos possa andar alguns anos em torno de um desenho-colagem sem saber o que lhe fazer, esperando o instante em que subitamente resolva o problema depressa, depressa sempre. Esta urgência é parte integrante do seu fazer, de um trabalho que é, sempre, um divertimento, um prazer ou uma fonte de alegria, rápida e amável no sentido em que está sempre buscando um afecto positivo. 
Esta rapidez assemelha-se ao improviso e sobretudo ao desaprender. Sofia Areal frequentou escolas, porém a sua prática artística faz-se no abandono delas, na capacidade de emigrar para uma escrita antes da escrita, um desenho antes do desenho e uma pintura a fazer-se ali diante dos nossos olhos, sempre viva porque sempre incompleta, caminho sem fim, jogo, brincadeira, grito, riso, divertimento. 
[José Luís Porfírio]

Julião Sarmento – The Complete Film Works

Julião Sarmento – The Complete Film Works 
Julião Sarmento 

Edição de Nuno Crespo
Textos de Chrissie Iles, Delfim Sardo, João Pedro Amorim, Kerry Brougher, Nuno Crespo 
Design de Pedro Falcão 

ISBN 978-989-8833-68-6 | EAN 9789898833686 

Edição: Novembro de 2021 
Preço: 37,74 euros | PVP: 40 euros 
Formato: 18 × 25,5 cm (encadernado) 
Número de páginas: 360 (a cores) 

Com a Universidade Católica, Escola das Artes, CITAR 
Edição bilingue: português-inglês


Este livro tem no título uma palavra que não devia lá estar: complete. Porque a obra de Julião Sarmento nunca estará completa. Enquanto existirem pessoas que olhem para as suas pinturas, esculturas, desenhos, instalações e filmes, a sua obra continuará. 
[Nuno Crespo] 



Desde o início da sua carreira, em 1967, que o filme ocupa um lugar central na investigação levada a cabo por Julião Sarmento sobre os impulsos reprimidos da psique. A relação de Sarmento com o filme começou num momento crítico da história do cinema, quando as severas leis sobre a obscenidade estavam prestes a ruir, no final de uma década orientada pela libertação do impulso erótico. Em toda a Europa e nos Estados Unidos da América, o desenvolvimento de um cinema experimental e independente vital desafiava o domínio dos modelos hollywoodescos de fantasia e desejo. Em Portugal, a revolução política de esquerda estava prestes a derrubar o regime salazarista, conduzindo a uma nova vaga radical de cinema que aborda as questões da emancipação social. No mundo da arte, as tradicionais fronteiras entre filme e outras formas de arte haviam sido flexibilizadas por artistas que abraçaram o filme como parte da sua prática artística baseada no processo. 
[Chrissie Iles] 

Muita da matéria de Sarmento, e da sua abordagem à produção de arte, encontra-se neste simples filme inicial: o foco na mulher, na sexualidade e na objectificação; a parede monocromática como tela em branco (que seria incorporada nas suas Pinturas Brancas duas décadas mais tarde); a fusão entre o corpo e o pano de fundo; e, acima de tudo, a amplificação do próprio medium para neutralizar as ilusões cinemáticas e abrir o sentido da imagem. Esta abordagem é usada por Sarmento em muitos dos seus filmes mais antigos. Em Faces (1976), Sarmento foca línguas que se tocam, um acto sensual que, visto repetidamente com um grau de pormenor desconfortável, perde a sua aura erótica e se transforma num estudo de movimento e anatomia. Em Sombra, do mesmo ano, a iluminação varia lentamente sobre duas mulheres nuas, transformando a imagem erótica num estudo de chiaroscuro
[Kerry Brougher]

Uma Curadoria da Falta – O Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian 1984-1989

Uma Curadoria da Falta – O Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian 1984-1989 
Ana Bigotte Vieira 


ISBN 978-989-8833-65-5 | EAN 9789898833655 

Edição: Setembro de 2021 
Preço: 22,64 euros | PVP: 24 euros 
Formato: 17 × 24 cm (brochado) 
Número de páginas: 246 (caderno a cores)


ACARTE, um Serviço voltado para a cultura contemporânea e um centro de educação pela arte dedicado às crianças



Na sua estrutura, este livro pode à primeira vista não parecer o que se propõe ser: uma história do serviço ACARTE desde a sua criação, em 1984, até 1989. Mas é precisamente isso que este livro é. Simplesmente, uma história do Acarte desperta uma série de interrogações que vão muito para além da criação de um serviço, do seu enquadramento institucional, das pessoas que contribuíram para a sua existência ou das obras e autores que lhe deram projecção pública. Através de uma narrativa com múltiplos caminhos, Ana Bigotte Vieira vai tecendo um panorama largo onde várias áreas artísticas — os debates teóricos que as preenchem e as manifestações culturais a que dão lugar — evoluem cronologicamente até confluírem, como num ponto de encontro de múltiplas dinâmicas, no Acarte. O serviço, como um espaço que contém todos os outros espaços — como o Aleph — ganha assim uma dimensão narrativa que nos permite reconstituir as formas plurais, descontínuas e por vezes contraditórias com que a cultura se relacionou com a modernização no século XX. Ou melhor, com a percepção histórica com que, no século passado, muitos em Portugal imaginaram viver a experiência da modernidade, em particular através do modo como o corpo constituiu um terreno expressivo dessa experiência. 
[Luís Trindade] 

O ACARTE pode igualmente entender-se como o culminar de duas décadas de investigação em Educação pela Arte e Educação Artística, pois a sua fundadora e primeira directora, Madalena Perdigão, não apenas criou a Orquestra, o Coro e o Ballet Gulbenkian, como foi responsável pela reforma do Conservatório Nacional, em 1971, e por um projecto falhado de reestruturação do Ensino Artístico Nacional, em 1978. Uma história intrincada liga assim as experiências em Educação pela Arte levadas a cabo na Gulbenkian antes da Revolução, a reforma do Conservatório, a falhada reestruturação do Ensino Artístico Nacional e o regresso de Perdigão à Fundação Calouste Gulbenkian em 1984. Neste sentido, a actividade do ACARTE na década de 1980 continua as experimentações pedagógicas da década de 1960. Mas não apenas: esta actividade pode também ser entendida no cruzamento entre uma série de práticas de curadoria e programação. Ao pautar a sua acção por uma «atenção à falta», o ACARTE terá desenvolvido uma forma particular de albergar propostas estéticas e políticas geralmente atribuídas a períodos distintos, abrindo-se às diferentes percepções que os contemporâneos teriam do seu momento histórico. 
[Ana Bigotte Vieira]

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Julião Sarmento


As Magias do Ceilão

As Magias do Ceilão 
Francis de Croisset 

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-9006-70-6 | EAN 9789899006706 

Edição: Outubro de 2021 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 192

Um humor à inglesa, por um francês. Para ler com um sorriso nos lábios.



Em 1925 o Oriente estava na moda. Os primeiros transatlânticos de passageiros tinham posto as grandes distâncias a salvo dos solavancos das diligências e do fumo dos comboios; substituíam-nos por uma vida tranquila de hotel marítimo, por uma agitação mundana de termas de luxo embaladas pela oscilação das ondas. Muitos europeus aproveitaram esta deslocação mais cómoda para se confrontar com o exotismo oriental; para verem ao vivo o que tinham dentro de si mitificado pelas leituras e pelas pinturas dos orientalistas. 
Francis de Croisset também cedeu ao apelo das viagens exóticas; e, na ocasião aqui em causa, com rápida paragem na Índia mas prolongada descida um pouco mais ao sul, ao exotismo vegetal do Ceilão — ou do Sri Lanka, ou da Trapobana, como lemos em Camões. Uma passageira do mesmo barco recordou-o para memória póstuma: «Homem magro, agradável e nervoso, terrivelmente inglês, e que descia em cada porto com uma nova conquista.» Terrivelmente inglês… Encontrá-lo-emos assim nesta viagem, a olhar para ingleses com a ironia de um olhar britânico… expressa em palavras por um francês. 
[…] neste «romance» e a sobrepor-se com inesperada força, sentimos a sua capacidade de estabelecer uma relação mágica e verbalmente faustosa com a paisagem, com a História, a arqueologia, os costumes, os lados maléficos do exotismo. Croisset surpreende — neste êxito da sua literatura exterior aos palcos — por se mostrar dominador de uma prosa a que ele não deu grandes oportunidades nos trinta e sete anos de vida e nos quarenta títulos que ele consagrou quase por inteiro à espuma leve que lhe era pedida pelos tiques do teatro de bulevar. 
A popularidade de Croisset foi, no público que no princípio do século XX frequentava com deleite os espectáculos teatrais, enorme. Os empresários disputavam-lhe os textos; e o cinema mais de vinte vezes se lembrou das suas peças. […] 
Era uma vez… apetece-nos dizer, para começarmos a ouvir este Ceilão assassinado pelo esplendor da selva: É inútil as escavações exumarem e ressuscitarem deuses. Mal eles se erguem, a planta inimiga assedia-os com espinhos que rasgam, raízes que furam e lianas que submergem. 
[Aníbal Fernandes]

Má Sorte Que Ela Fosse Puta


Má Sorte Que Ela Fosse Puta 
John Ford 

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-8833-70-9 | EAN 9789898833709 

Edição: Outubro de 2021 
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 144

Uma bela e sombria tragédia de John Ford — mundo de valores transtornados, com a insolente reivindicação de um incesto indiferente aos códigos sociais e a uma moralidade anulada pela crise espiritual que atingia o seu auge nesse princípio do século XVII britânico. 



O dramaturgo John Ford socorreu-se da autoria partilhada. Em 1624 associou-se a Thomas Dekker e William Rowley para escrever The Witch of Edmonton; nesse mesmo ano, e só com Thomas Dekker, também escreveu The Sun’s Darling; e entre as suas seis peças perdidas houve mais duas partilhadas com Dekker, e uma com William Rowley e John Webster. 
Má Sorte que Ela Fosse Puta e The Lover’s Melancholy, ambas de 1626, parecem ter sido as suas primeiras peças de autoria solitária; a revelarem-no com uma diferença violadora das regras estabelecidas por Shakespeare e os seus contemporâneos; a despojar, a evitar metáforas e a dar preferência à fala directa; a substituir a serenidade isabelina pelas agressividades da sátira e do cinismo. John Ford não deu à sua posteridade esse prazer da citação, essa colecção de frases e expressões que as peças de Shakespeare emprestam com abundância às exibições da cultura; sonhou e escreveu textos para um teatro que saltou sobre as formas que cumpriam a tradição, com personagens que evitavam a ênfasee a requintada elaboração metafórica para reproduzir o reconhecível discurso dos homens do seu tempo. 
Má Sorte… tem no seu centro Annabella, que Antonin Artaud considerou «a imagem do perigo absoluto». 
[…] 
As peças de John Ford foram olhadas no seu tempo como objectos estranhos ao tom teatral reconhecido e acarinhado pelo público. Chocavam-no as heroínas que reivindicavam com insolência a sua liberdade social e sexual (mais tarde valorizada pelos movimentos feministas); chocavam-no as suas paixões requintadamente mórbidas (as que vieram a fazê-lo muito apreciado pelos decadentistas do século XIX); Algernon Charles Swinburne louvou-lhe «a harmónica pureza da língua»; Samuel Taylor Coleridge a sua linguagem «clara como as estrelas de uma noite gelada». Ford foi um amoralista pagão, penalizado perante o seu público por fazer subir aos palcos uma linguagem despida da ênfase metafórica tão querida dos isabelinos. 
Má sorte que ele fosse… tão moderno. 
[Aníbal Fernandes]

Durante o Fim


Durante o Fim 
Rui Chafes 

Textos de Manuel Castro Caldas, Maria Nobre Franco, Rui Chafes, Aurora Garcia 
Fotografias de Alcino Gonçalves 

ISBN 978-989-8833-67-9 | EAN 9789898833679 

Edição: Outubro de 2021 
Preço: 22,64 euros | PVP: 24 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado) 
Número de páginas: 192 

Edição bilingue: português-inglês

Maria Nobre Franco: Durante o Fim é uma viagem interior feita de inquietações e ousadias. A travessia de um espaço mental acossado pelo mistério, pela perturbação e por uma estranha magia que envolve a condição humana, o destino. Não é isso determinante em Rui Chafes?» 



Este livro foi publicado pela primeira vez (Assírio & Alvim, Outubro 2000) por ocasião da exposição Durante o Fim, de Rui Chafes, com curadoria de Maria Nobre Franco, de 15 de Outubro de 2000 a 15 de Janeiro de 2001, em três espaços de Sintra: Palácio Nacional da Pena, Parque Histórico da Pena / Parque Natural de Sintra-Cascais e Sintra Museu de Arte Moderna. Esta edição (Documenta, Outubro 2021) foi publicada como homenagem a Maria Nobre Franco (Messejana, 1938 – Cascais, 2015), durante a exposição No Reino das Nuvens: os Artistas e a Invenção de Sintra, realizada entre Maio e Outubro de 2021, no Museu de Artes de Sintra (MU.SA). 

E já então eu sabia que vivemos porque outros vivem, só por isso. Porque o que me mostram passa a ser meu: é essa a crua generosidade desta vida desamparada. Um minúsculo olho gigantesco que tudo vê e no qual tudo se reflecte: quartos, portas, retratos pendurados na parede, janelas. Tudo reflectido na esfera de vidro desse olho que um dia me ofereceste, embrulhado em papel claro. Por sermos como pedras lançadas no ar que, eventualmente, um dia se encontrarão, sempre a tua voz me foi uma indizível dádiva. Contigo, por ti, por existires, o Mundo tornou-se maior, enorme. 
E quando morrermos, se morrermos, Deus não saberá o que fazer. Muito mais do que isto não temos. Mas é tanto. «Não, não chores, tu não», disseste, «tens os olhos claros e quem tem os olhos claros não pode chorar nunca». Todos acreditam que através dos olhos claros tudo se vê de forma mais clara. E era sobretudo quando não havia sol e a névoa cobria a floresta da montanha, que subias os penedos para chegar à estátua do Guerreiro, que também teria os olhos claros. É curioso que lhe chamem a Estátua do Gigante, ou do Parsifal, ou do Arquitecto, do Construtor. Aliás, que outra coisa se pode fazer neste mundo a não ser construir? Dizem-me. Construir como quem tenta dar um sentido à sua efémera passagem. Tão evidente, não é? 
[Rui Chafes]

Livro do Ponto


Livro do Ponto 
Ana Claro, Ana Pires, André Pinto, Annet Couwenberg, António Quadros Ferreira, Ariana Moroder, Benedita Pestana, Filipe Rocha da Silva, Filomena Silvano, Guida Fonseca, Helena Loermans, Hugo Ferrão, Isabel Sabino, Jessica Hallett, Jessica Hemmings, Joana Fonseca, Joaquim Pinheiro, Johanna Bramble, José Silva, Kevin Rodrigues, Maria Gimeno, Maria João Ferreira, Nelson Durães, Paula Monteiro, Rita Salvado, Rui Miguel Lobo, Rute Rosas, Sandra Leandro, Sofia Silva, Susana Pires.

Coordenação de Cristina Barrocas Dias, Filipe Rocha da Silva, Córtex Frontal – Residências e oficinas e Susana Pires 
Apresentação de Ana Costa Freitas, Ana Paula Amendoeira, Filipe Rocha da Silva e Sílvia Pinto 

ISBN 978-989-8833-46-4 | EAN 9789898833464 

Edição: Setembro de 2021 
Preço: 20,75 euros | PVP: 22 euros 
Formato: 17 × 23,5 cm (brochado) 
Número de páginas: 320 (a cores) 

Com o apoio da Câmara Municipal de Arraiolos, Direcção Regional de Cultura do Alentejo, Universidade de Évora e outras entidades

Ana Paula Amendoeira: «O saber acumulado que existe no Alentejo, na área dos lanifícios e da arte têxtil, representa um potencial enorme para a criação, produção e transferência de conhecimento, contribuindo objetivamente para assegurar futuro a esta atividade.» 



Recordo o episódio da Odisseia no qual Penélope adia sucessivamente o seu casamento com um dos pretendentes ao lugar de Ulisses, com a desculpa de que tem de terminar primeiro uma peça tecida, na realidade a mortalha para o sogro, Laertes. 
Para além de todas as interpretações que o expediente possa suscitar, ele chama a atenção para um fator sempre presente na história da arte têxtil: o tempo. 
Por ser uma tecnologia imemorial ligada à adaptação e sobrevivência da espécie humana na natureza, ao lar (oikos), aos dispositivos ligados à caça e à pesca; por ser uma superfície meticulosa, prévia e pacientemente executada ponto a ponto, a confeção têxtil acarreta a ideia do planeamento e da extensão no tempo, o contrário da urgência e do oportunismo históricos. 
Como interpretar então a significativa presença que esta forma de arte tem assumido nos últimos anos, comprovada pela sua presença nos grandes fora artísticos mundiais? Como se conjuga o contemporâneo com o intemporal? […] 
O Ponto concentrou-se por isso também na história e na tradição do têxtil: a perenidade e futuro do fenómeno Arraiolos e do têxtil no Alentejo; mas também na sua presença entre os mais profícuos criadores internacionais; nas combinatórias entre o têxtile as mais recentes formas artísticas e tecnológicas, nomeadamente o digital. 
[Filipe Rocha da Silva] 

Sinfonia do Desconhecido II


Sinfonia do Desconhecido II 
Symphony of The Unknown II 

Nuno Cera 
Textos de George Kafka, Julia Albani, Joaquim Moreno, Nuno Cera, Nuno Crespo, Mirko Zardini e Susana Ventura 

ISBN 978-989-9006-94-2 | EAN 9789899006942 

Edição: Agosto de 2021 
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros 
Formato: 16,5 × 24 cm (encadernado, com cinta) 
Número de páginas: 192 (a cores) 

Com a UCP / Escola das Artes / CITAR 

Edição bilingue: português-inglês


O trabalho de Nuno Cera caracteriza-se por uma atenção às imagens e aos modos como são construídas. […] É como se a sua ambição fosse transportar-se para o interior das imagens e, a partir dessa posição secreta, entender a sua fisionomia íntima. 
[Nuno Crespo] 

Livro publicado por ocasião da exposição Sinfonia do Desconhecido II, Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa, Porto, de 7 de Maio a 25 de Junho de 2021. 



A ideia para a segunda parte da Sinfonia surgiu numa viagem a Itália no Verão de 2019: passei por Urbino e, além de visitar os incríveis espaços do centro histórico renascentista e interessado na obra do arquitecto Giancarlo De Carlo (1919- -2005), fui ver as suas residências universitárias um pouco fora do centro, o Collegio del Colle. Um projecto, ainda hoje, revolucionário, concebido nos anos sessenta, para criar um campus-cidade que promova uma arquitectura participativa e uma sociedade mais activa. Senti que era um local quase esquecido, ou pouco conhecido fora dos círculos da história da arquitectura — um espaço com propostas muito interessantes e relevantes para observar e revisitar. Também era muito importante que os três locais da segunda parte da Sinfonia do Desconhecido tivessem funções muito diferentes da primeira. Ou seja, depois das grandes estruturas de habitação colectiva, seguem-se edifícios da cultura e do conhecimento, de funções públicas: um arquivo, a Torre do Tombo em Lisboa (1980-1990, de Arsénio Cordeiro); umas residências universitárias, o Collegio del Colle em Urbino (1963- -1985, de Giancarlo De Carlo); e uma cidade da cultura, a Cidade da Cultura de Galicia em Santiago Santiago de Compostela (2001-2012, parcialmente construído segundo o plano inicial, de Peter Eisenman). 
[Nuno Cera]

Eu nem Sabia Que Marvila Existia


Eu nem Sabia Que Marvila Existia 
Vários autores 

Edição e organização de Fátima Tomé, Inês Sapeta Dias, Maria do Mar Fazenda 
Design gráfico de vivóeusébio 

ISBN 978-989-9006-92-8 | EAN 9789899006928 

Edição: Agosto de 2021 
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros 
Formato: 13 × 21 cm (brochado) 
Número de páginas: 216 (cadernos a cores) 
Co-edição com o Arquivo Municipal de Lisboa

José Bragança de Miranda: «Eu nem sabia que Marvila existia. Não fazia a mínima ideia. Sabia que havia o 39, acho eu… o autocarro 39 tem lá escrito Marvila, foi a única coisa que alguma vez me levou a pensar em Marvila. Mas imagino que seja igual a todos os outros espaços, onde as pessoas vivem, se protegem, se jogam, se perseguem umas às outras, etc.» 



José Bragança de Miranda — […] A Carla Filipe trouxe uma imagem de que gostei muito, do vegetal, o verde a invadir a pedra e a destruí-la… presenças muito fortes da natureza no meio duma espécie de suburbanização geral. Esses espaços têm interesse porque neles a natureza resiste melhor, as casas ocupam demasiado espaço. Eu, sempre que vou pelas ruas e vejo o asfalto dobrado pelas raízes das árvores, sei que está tudo a trabalhar, está tudo a fazer o que tem de ser feito. A terra está realmente a emergir contra tudo o que a história fez. 
Maria Filomena Molder — Como aquela árvore a crescer no telhado de uma casa que vimos no nosso passeio. joana braga — A vegetação a tomar conta… 
Maria Filomena Molder — Ah, mas a vegetação toma sempre conta, sempre. 

Com a participação de moradores e de investigadores de diversas áreas de trabalho (como o urbanismo, a arquitectura, a filosofia ou a história), o livro propõe um trajecto pela maior mas também das mais desconhecidas freguesias de Lisboa, Marvila. O texto remonta às conversas entre estes diversos intervenientes, que tiveram lugar ao longo de dois anos em diversos bairros da freguesia, como se de uma única conversa, sem princípio nem fim, se tratasse. Uma conversa que projecta na paisagem do presente os múltiplos e complexos passados, e os futuros possíveis, de Marvila. […] O texto-montagem resulta da edição e remontagem da transcrição das intervenções em conversas que tiveram diferentes formatos: sessões de trabalho informais realizadas na Biblioteca de Marvila, encontros organizados pela TRAÇA em diferentes colectividades, e ainda as conversas tidas durante os passeios realizados por várias zonas da freguesia de Marvila, entre Fevereiro de 2019 e Março de 2020. A montagem segue o método do trajecto e o seu fio condutor foram as diferentes distâncias e proximidades ao tema-lugar onde todos estes encontros decorreram, como se de uma única conversa, sem princípio nem fim, se tratasse.

Fenomenologia da Depressão — Aspectos Constitutivos da Vivência Depressiva


Fenomenologia da Depressão — Aspectos Constitutivos da Vivência Depressiva 
Fabio Caprio Leite de Castro 

Apresentação de Marcelo S. Norberto 

ISBN 978-989-9006-74-4 | EAN 9789899006744 

Edição: Setembro de 2021 
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros 
Formato: 14 × 21 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 240 
Colecção Fenomenologia e Cultura | Volume 1 
Com o apoio do PRAXIS


Uma nova colecção luso-brasileira publicada pela Documenta em Portugal e pelas Editora PUC-Rio e NAU Editora no Brasil. 
Coordenação de André Barata, Fernando Gastal de Castro e Marcelo S. Norberto.



A coleção Fenomenologia e Cultura responde a duas lacunas no âmbito da publicação de obras em língua portuguesa da área do pensamento fenomenológico: ensaios inéditos sobre os desafios societais e culturais do nosso tempo a partir de abordagens fenomenológicas originais por autoras e autores luso-brasileiros; e a criação de um espaço de publicação simultânea de ensaios em ambos os países, com distribuição comercial. 
Suprir estas duas lacunas representa um contributo significativo para a demonstração prática da atualidade e relevância intelectual da fenomenologia além dos limites confinados do público de especialistas e para a estabilização de uma ponte perene de partilha de resultados de investigação e obras entre as duas geografias. 
Em suma, uma comunidade fenomenológica com duas geografias, em vez de duas comunidades fenomenológicas com a mesma língua; alargar-se uma comunidade de leitores de fenomenologia no universo intelectual luso-brasileiro; trazer um estímulo a que reconhecidos fenomenólogos brasileiros e portugueses tragam a público ensaios capazes de, sem perda de rigor, chegar a audiências mais vastas; finalmente, convocar a fenomenologia, seu patrimônio de pensamento, variedade de abordagens metodológicas e sua cultura, para o enfrentamento dos problemas e desafios do tempo que vivemos.
Fabio Caprio Leite de Castro quer resgatar a questão dos sintomas da apreensão estritamente cientificista, que obscurece diversos trabalhos da psicologia contemporânea. Se Eric Kandel, Nobel de Medicina, defende, com justeza, que só há um futuro promissor tanto para a psicologia quanto para a neurociência se ambas dialogarem, Fenomenologia da Depressão relembra a urgência de se observar o caráter estrutural da reflexão filosófica neste processo, não enquanto clínica, o que seria uma apropriação de função indevida, mas na qualidade de uma descrição rigorosa da vivência, das relações constituídas, do solo sobre o qual ocorre a experiência humana. 
Se quiséssemos, ao fim do livro, retomar sua força vital e em sintonia com o pensamento ali exposto, poderíamos subscrever as palavras de Émile Zola em J’Accuse: «Meu dever é falar, eu não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam assombradas pelo espectro do inocente que ali expia, na mais terrível das torturas, um crime que ele não cometeu». 
[Marcelo S. Norberto] 

Fabio Caprio Leite de Castro é doutor em Filosofia pela Université de Liège – Bélgica e professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS

Antes Que Adoeça - Before I Get Sick


Antes Que Adoeça 
Before I Get Sick 
Sara Bichão 

Texto de Luísa Especial 
Design gráfico de Joana Durães

ISBN 978-989-8833-57-0 | EAN 9789898833570

Edição: Outubro de 2021 
Preço: 28,30 euros | PVP: 30 euros 
Formato: 11,5 × 16,5 cm (brochado) 
Número de páginas: 128 

Edição bilingue: português-inglês

Em Antes Que Adoeça, há como que um jogo de equivalências: a palavra como escultura, os poemas como espaço. 



Se utilizarmos a escala da mão, o livro tem as dimensões de uma palma pousada. Concebido com uma tónica na manualidade, aliada à convocação de saberes especializados, nomeadamente quanto à encadernação, gravura e paginação, foi pensado como um trabalho a várias mãos. Por esse motivo também, apresenta-se como um objecto sedutor, impregnado de uma sensação de preciosidade. Para tal contribuem também o cuidado depositado na escolha de cada material empregue, que denota a valorização de cada componente. 
Logo na capa, uma insígnia, cunhada por um gesto firme, alerta para o potencial simbólico que iremos encontrar no interior da obra. Este emblema sugere uma derivação de uma flor-de-lis, elemento heráldico, tradicionalmente associado à pureza e à espiritualidade. Neste caso, as três “pétalas” apontam para a mesma direcção. Esta figura congrega três imagens dominantes — flor, chama, ave, como se se tratasse de uma adaptação de um símbolo, um carimbo pessoal. Em qualquer dos casos, esses elementos pertencem ao mundo natural e atravessam livremente todo o livro, em diferentes formulações, ora através do texto, ora do desenho. 
O título evidencia uma ameaça latente, ligada à ideia de doença. Perante essa possibilidade, resta antecipar-se: observar antes que adoeça; escrever antes que adoeça; registar, transfigurando; declarar o amor, antes que adoeça. […] Porém, note-se que o livro não se intitula «Antes de adoecer» e sim «Antes que adoeça». Observar, escrever, registar, transfigurar, declarar, para não adoecer. E entendemos aqui que a doença enunciada no título possa não comportar apenas a condição física: criar antes que enlouqueça? A partir daqui, entramos no livro e saímos do chão. 
[Luísa Especial] 

Este fac-símile é uma edição de 240 exemplares, dos quais 40 contêm uma zincogravura assinada pela artista. Antes Que Adoeça é um livro original com edição especial de 10 exemplares, numerados de 1/10 e assinados pela autora. Encadernação manual com capa dura e caixa; zincogravura com acabamento chine-collé; papel japonês Shiramine, Awagami. A impressão offset e a zincogravura foram feitas por Mike Goes West, em Coimbra. Foi ainda produzida uma edição especial de gravuras, a partir do livro, por Hugo Amorim na Oficina Meelpress, em Lisboa. A encadernação manual do livro foi feita por Perrine Le Monnier.

Waldemar d’Orey — Something is Missing


Waldemar d’Orey — Something is Missing 
Waldemar d’Orey 

Textos de Catarina Rosendo, Daniel Madeira, Gene Baro, Jürgen Bock, Manuel Costa Cabral e Penelope Curtis 
Design gráfico de Bárbara Gradim 

ISBN 978-989-8833-63-1 | EAN 9789898833631 

Edição: Outubro de 2021 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 18 × 19,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 72 (a cores) 

Com o apoio de Lumiar Cité / Maumaus

 Edição bilingue: português-inglês


Waldemar d’Orey pertence à geração de artistas que dispensou o plinto para a escultura e que começou a fazer experiências com materiais industriais e formas abstratas. 



O presente catálogo traça a história da breve carreira de um jovem artista português bem integrado socialmente, durante os swinging days em Londres, na década de 1960, revelando a rede de ligações que estabeleceu com os protagonistas que moldaram o mundo da arte dessa época. Entre entrevistas dadas ao canal português da BBC sobre o escultor britânico Anthony Caro (um dos seus professores) e ser entrevistado sobre o seu próprio trabalho por Gene Baro, célebre curador e organizador de exposições americano, d’Orey fez amizade com vários artistas e outras personalidades influentes do mundo da arte. Os seus anos de sucesso enquanto artista culminaram em 1966 numa exposição individual na prestigiada galeria Axiom, em Londres, que resultou numa aquisição pelo Museu de Arte Contemporânea de Sydney. Porém, atualmente, não existe qualquer evidência da existência da obra de d’Orey. O artista, por razões familiares urgentes, regressou a Portugal no final da década de 1960 e não produziu outras obras de arte. 
Mais de cinco décadas passadas desde a sua exposição na Axiom, Waldemar d’Orey teve agora a sua segunda exposição individual, no espaço Lumiar Cité. Motivada pela história de uma das suas maiores esculturas cinéticas de 1964, intitulada Mobile, esta foi reconstruída e torna-se na peça central da mostra em Lisboa (21 de Julho a 10 de Outubro de 2021), consubstanciando finalmente o legado artístico de d’Orey. 
[Jürgen Bock e Manuel Costa Cabral]

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Manuel António Pina

 

«E eu, como um estranho, passava / no jardim fora de mim / como alguém de quem alguém se lembrava / vagamente (talvez tu), / num tempo alheio e impresente.»
MANUEL ANTÓNIO PINA
Sabugal, 18-XI-1943 | Porto, 19-X-2012


Fotografia: Na homenagem a MAP, Feira do Livro do Porto, 2010.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Apresentação do livro «Antropologia da Moda» de Filomena Silvano, por Sónia Vespeira de Almeida


«É um prazer enorme estar hoje aqui perto dos céus de Lisboa e na Moda Lisboa no lançamento do livro Antropologia da Moda de Filomena Silvano, colega e amiga, a quem agradeço imenso o convite para apresentar este seu último livro. É uma honra e uma responsabilidade.
 
1. Este livro é mais um marco na trajectória da investigação que a Filomena Silvano tem desenvolvido e espelha a vitalidade da Antropologia contemporânea, atenta ao que chega mas com forte interlocução com temas e autores clássicos, propondo análises críticas que nos ajudam a ler o real. E o real aqui, o pedaço de mundo, o recorte que a Filomena nos traz é, de facto, a moda e o vestir e o que este universo complexo activa.
 
Antes de me debruçar especificamente sobre este livro, e também com o objectivo de o compreendermos melhor, gostaria de sublinhar que a antropologia que a Filomena Silvano faz (uso aqui intencionalmente o verbo fazer), é uma antropologia desafiante e criativa que se caracteriza por diálogos e experiências com outras áreas, como por exemplo o design, o cinema, as artes visuais e, também, uma antropologia muito atenta nos últimos anos ao “fazer”. Acredito que estes diálogos e a atenção que dirige aos processos criativos, às criatividades culturais contaminam o seu modo de fazer e de ensinar antropologia.
 
O livro apresenta-nos os grandes territórios de interpelação que guiaram a autora no tratamento do assunto “moda” e que viriam a configurar o seu trabalho de campo mais recente (que não se encontra presente neste livro) realizado entre 2016-2018 no atelier do designer de moda Filipe Faísca, trabalhando sobre o que irradia a partir dele. Mas antes desta etnografia, importa destacar o trabalho anterior da Filomena sobre o traje ritual – em particular os mantos usados pelas rainhas nas Festas do Espírito Santo, na ilha do Pico, nos Açores – no quadro pesquisa de terreno realizada durante as festas de 2012, coordenado pelo antropólogo João Leal - onde analisa a cultura material têxtil no quadro mais vastos dos processos migratórios.
 
Porquê que convoco a etnografia estando ela ausente deste livro? Porquê que é importante? Convoco-a porque nos ajuda a compreender Antropologia da Moda, justamente porque o livro vem do real, vem dos mundos que “etnografou” e congrega simultaneamente o colectivo de autores que configurou a sua investigação mais recente.
                                 
2. Antropologia da Moda activa capilaridades várias a partir de um objecto complexo e contraditório que nos leva do luxo, às alterações climáticas até à pandemia. Ajuda-nos a reflectir porquê que o que existe não chega, é insuficiente como afirmou John Berger (1972) referindo-se à arte.
 
Filomena Silvano vai tecendo uma rota nómada. Não se cinge à Antropologia, tem a eficácia de ir anexando campos disciplinares diversos que permitem pensar a Moda hoje, apresentando uma constelação de autores e temáticas que são trabalhadas de forma muito ágil.
 
O que dá a ver? O que permite pensar Antropologia da Moda?
O livro desdobra-se em cinco momentos que revelam um quadro teórico-conceptual sofisticado e que é colocado em articulação com exemplos empíricos cuidadosamente seleccionados e analisados, que vão iluminando a teoria, aproximando-nos do mundo da moda. E conseguimos entrar…
 
Abre com os filões estruturantes dos primeiros escritos sobre a Moda e que configuraram as principais reflexões ao longo do século XX. Destaco um deles: o cruzamento tenso entre diferentes temporalidades. Por exemplo, a moda como um fenómeno que lida habilmente com a ideia de actualidade, de novidade, mas também como, paradoxalmente, se desajusta do tempo presente e como recua.
 
Depois o livro desenha um outro movimento. O olhar da autora desloca-se deste território interdisciplinar – onde habitam antropólogos, sociólogos, economistas e filósofos - para se deter na Antropologia, na sua disciplina, e em particular na Antropologia do Vestir e nas roupas enquanto cultura material, área de estudos que a autora tem também trabalhado.
 
Filomena Silvano sublinha o carácter ainda marginal destes tópicos na Antropologia, o que nos permite identificar o pioneirismo deste livro no contexto português e até internacional. Contudo, apesar do “vestir” ter estado presente nas análises antropológicas, o sub-campo disciplinar “Antropologia do Vestir” só se configura tardiamente, em particular no ano 2000.
 
De seguida cruza a moda e o vestir a partir de grandes temáticas dando visibilidade aos percursos sociais das coisas, à sua circulação, às várias condições que assumem, às relações que as pessoas estabelecem com as roupas, à corporalidade, às identidades e ao luxo.
 
No quarto momento, é trazida a dimensão política e de contestação no mundo da moda, analisando-se os direitos dos animais, a sustentabilidade no contexto da emergência climática - e alteração dos consumos daqui decorrentes e a resposta da indústria e dos criadores - a não discriminação racial, as condições de trabalho e a precariedade no quadro da neoliberalização da moda.  
 
São inquietantes as reflexões trazidas porque nos confrontam com os “processos antrópicos” que tiveram consequências planetárias (Haraway 2016) e que configuram o que designamos de Antropoceno.
 
Por exemplo, são necessários dois mil e setecentos litros de água para produzir uma t-shirt de algodão, que correspondem ao consumo médio de água por pessoa durante dois anos e meio (p. 165). Filomena Silvano dá a ver as contradições e complexidades do mundo da moda e afirma que “as pessoas do mundo inteiro têm cada vez mais consciência dos efeitos nocivos da produção de roupa, mas as pessoas do mundo inteiro consomem cada vez mais roupa.” (p. 166).
 
A atenção da autora ao presente conduz a uma reflexão que encerra o livro sobre a moda e o vestir na pandemia. E aqui são analisados como os desfiles, centrais para o funcionamento da indústria da moda ao construírem os sentidos e os valores das roupas, se reconfiguraram no digital, mas também são trabalhadas as alterações no vestir com o uso generalizado da máscara.
 
3. A grelha teórica magnamente costurada num arco temporal alargado, as temáticas e exemplos seleccionados, fazem de Antropologia da Moda um contributo extraordinário para multiplicarmos pontos de vista sobre o contemporâneo e percebermos as diferentes formas de se ser humano. Temos a moda, mas em articulação com os direitos laborais, com a emergência climática. Percebemos como as roupas circulam, quais as roupas que entram num desfile, e como se constrói o seu valor. Percebemos a vida social das coisas.
 
Contribui para percebermos porquê que cada um de nós se veste desta ou daquela maneira, porquê que a cantora Billie Eilish opta pelo oversize, porquê que Kamala Harris vestiu roxo na tomada de posse - a outra cor das sufragistas - ou ainda porquê que os índios brasileiros Caduveos tanto investem no cuidado e no adorno dos seus corpos.
 
E termino apropriando-me das palavras de Italo Calvino. No ensaio “Para quem se escreve”, que integra o livro Ponto Final, diz-nos que um livro é tão mais interessante se gerar curto-circuitos pela relação que estabelece com livros que não estão habituados a estar uns com os outros.
 
Antropologia da Moda activará esta relação, justamente por não ser um livro só para leitores de antropologia. Habitará, certamente, uma estante improvável.»

Sónia Vespeira de Almeida
Professora Auxiliar | Departamento de Antropologia NOVA FCSH
Investigadora do CRIA

Apresentação do livro Antropologia da Moda de Filomena Silvano
Moda Lisboa, 9 de Outubro de 2021
Palavras lidas, na ocasião

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Antropologia da Moda

Antropologia da Moda 
Filomena Silvano 


ISBN 978-989-9006-97-3 | EAN 9789899006973 

Edição: Agosto de 2021 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 192

Foi preciso que chegasse o recolhimento a que a pandemia nos forçou para que a minha relação com a moda se passasse a organizar numa nova modalidade, mais distanciada e mais centrada nos textos e nos arquivos. 



Em dez anos a cidade mudou. Nas ruas, no metro, nas escolas ou nas discotecas cruzamo-nos com pessoas que são diferentes. Para sermos mais precisos, cruzamo-nos com pessoas que usaram a liberdade que as cidades sempre concedem para produzirem corpos e imagens diversificados. São histórias de amor próprio. Tal como são de amor as histórias que os criadores portugueses viveram durante os dez anos de produção da ModaLisboa. Por vezes essas histórias cruzaram-se. As colecções dos criadores propuseram regras de composição possíveis, programas que foram utilizados para compor e repor as imagens de nós próprios. 
Escrevi este pequeno texto, em 2001, para integrar a exposição comemorativa dos 10 anos da ModaLisboa, que nesse ano decorria sob o leitmotiv «Pashion». Desde a década de 1990 que a moda, o vestir, as cidades e os processos de criação das identidades me interessaram, e, por isso, ao longo dos anos, sempre que foi oportuno, escrevi sobre o assunto. Em 2017, decidi iniciar uma abordagem mais etnográfica e comecei uma pesquisa de terreno no atelier do designer Filipe Faísca. Já num quadro de pesquisa académica, em 2019, organizei, em parceria com Solange Riva Mezabarba, um dossier intitulado «Moda: cultura material, modos de vestire dese apresentar», publicado na revista Cadernos de Arte e Antropologia. A ideia de escrever este livro surgiu-me no fim desse trabalho conjunto, mas foi preciso que chegasse o recolhimento a que a pandemia nos forçou para que a minha relação com a moda se passasse a organizar numa nova modalidade, mais distanciada e mais centrada nos textos e nos arquivos. 
[…] 
Num primeiro momento, este livro trata de quatro questões que foram identificadas logo nos primeiros textos escritos sobre a moda: o tempo enquanto contemporaneidade; a construção sistemática do novo; a oposição entre costume e moda; e a articulação entre imitação e distinção. De seguida, faz um parêntese para apresentar a noção antropológica de vestir, que, por ser construída a partir de uma perspectiva universal, liberta os estudos de moda de concepções demasiado ocidentalistas. Segue com uma apresentação de grandes temáticas — os percursos sociais das coisas, os seus trânsitos culturais, os sentidos das roupas, os corpos e os adornos, as identidades e o luxo. O livro termina com os impactos de algumas lutas cívicas e, no último ano, da pandemia nas dinâmicas da moda. 
[Filomena Silvano]

Hugo Canoilas: A Exposição como Parcela de Tempo — Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro

Hugo Canoilas: A Exposição como Parcela de Tempo 
Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro 
Hugo Canoilas, Pedro Faro, Sara Antónia Matos 

ISBN 978-989-9006-93-5 | EAN 9789899006935 

Edição: Dezembro de 2020 
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros 
Formato: 12 × 17 cm (brochado) 
Número de páginas: 192 

Com o Atelier-Museu Júlio Pomar

«Adoro vir [a Portugal], sabendo que vou regressar a Viena, percebem? Não sei se estou preparado para viver aqui outra vez. Começo a sentir-me um pária. Significa que não sou de nenhum dos lados exclusivamente. Vou aos lugares onde faço exposições e projetos. Nos últimos dois anos, contudo, tenho vindo mais a Portugal por questões de trabalho.» 
[Hugo Canoilas] 



As conversas com Hugo Canoilas pretendiam dar a conhecer o percurso de um artista de uma geração e com uma experiência diferente da dos anteriores entrevistados. Formado na ESAD (Caldas da Rainha) e assistente de Pedro Cabrita Reis — «escola» que certamente lhe trouxe uma experiência e uma confiança inigualáveis —, o artista decide sair de Portugal em 2003 e virar o rumo do seu trabalho. Esse momento, como o mesmo refere, constituiu uma espécie de arranque «falhado» no aspeto da subsistência, o qual lhe podia ter custado não a sua vida, mas o espírito. 
Volvida essa página e os diferentes momentos difíceis, como o nascimento da sua filha, a mudança de galeria, a apresentação de uma nova linguagem — figurativa — a qual foi mal recebida pelo meio artístico, que dele tinha ideias feitas e criou certas expectativas, o artista resiste e fala-nos com frontalidade, sem pudores ou receios, o que pensa do sistema da arte. 
Nesta conversa, Hugo Canoilas chama a atenção para a ausência de partilha e diálogo entre pares e profissionais, apontando vícios estruturais do sistema e a necessidade de libertação das convenções. Terá sido esse o maior motivo para a sua partida: um alargamento de horizontes e possibilidades, em simultâneo, com a necessidade de não ter de corresponder ao esperado por uma comunidade e um consenso instalados. Isso ficou patente nas conversas que se foram tendo, em que o mesmo revela, sem a certeza de poder divulgar publicamente o gesto de destruição de toda a obra realizada antes dessa viragem, com o propósito de não carregar sobre si, sobre as suas costas, uma força opressora, coerciva e limitativa. 
Sobre o projeto no próprio Atelier-Museu, sobre a sua faceta antropofágica, isto é, de amante e devorador do mundo, é reveladora a sua insistência em ver transformada a exposição a apresentar ao público no decorrer do tempo. 
É nesse momento que se torna claro que, para o artista, é vital algo que também era para Júlio Pomar: o movimento e a transformação, o risco e a mudança que lhe estão inerentes. Essa faceta, essa energia contagiante e «canibalística» também Hugo Canoilas reconhece a Pomar e certamente teria feito, de um encontro entre os dois, surtir centelha, clarão, vivacidade, faísca. 
[Sara Antónia Matos]

Arenario

Arenario 
Francisco Tropa 

Textos de François Piron, Maria Filomena Molder e Nuno Crespo 

ISBN 978-989-9006-73-7 | EAN 9789899006737 

Edição: Março de 2021 
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros 
Formato: 16,5 × 24 cm (encadernado) 
Número de páginas: 216 (a cores) 

Com a Universidade Católica, Escola das Artes, CITAR 

Edição trilingue: português, inglês, francês

«A obra de arte cria uma imagem intemporal formada através dos sentidos, da inteligência e da memória do observador e, por mais estranho que pareça, este processo nada tem que ver com os instrumentos da comunicação.» 
[Francisco Tropa] 



Por mais que tentemos, o trabalho de Francisco Tropa (n. Lisboa, 1968) não se deixa apresentar através da sua condução a um conjunto determinado de gestos, objectos ou conceitos. A sua natureza é ser um campo amplo onde se conjugam diferentes experiências humanas. Uma arena, um «arenario» como lhe chama o artista, um espaço aberto onde se dá um corpo-a-corpo (real e virtual) entre o humano e a arte e que é palco do mistério — cujo drama se desenvolve pelo menos desde Lascaux — que se constitui de cada vez que um de nós enfrenta uma obra de arte e é por ela enfrentado. 
A exposição que esteve na origem deste livro propôs, a partir de uma única obra, explorar o trabalho deste artista segundo a ideia das imagens, da sua fabricação e da sua existência enquanto lugares reais. A obra pertence à família das lanternas de Tropa e nessa família são convocadas ideias axiais para o mundo contemporâneo. Um mundo tomado pelas imagens digitais que transportam no seu interior, e como sua condição, dispositivos de controlo, de subjugação e de poder. 
As imagens quase primitivas que Tropa faz acontecer — e as suas imagens são sempre uma espécie de acontecimento — reenviam insistentemente ao corpo humano e inscrevem-se no seu plano material de finitude. Plano este do qual as imagens virtuais, puramente espectrais e desencarnadas, parecem estar arredadas. 
[Nuno Crespo] 

Assinalem-se três aspectos eminentes da obra de Francisco Tropa e que se revêem nestas passagens benjaminianas. 
Primeiro: é seu propósito manifesto e latente apagar os vestígios de qualquer autoria e dificultar qualquer felicidade interpretativa imediata (embora não a possa impedir, claro). 
Segundo: também ele procura «um aparecer purificado da beleza, livre de qualquer sedução», também ele o sabe sujeito à dissolução sem fim. O lusco-fusco, a hora entre cão e lobo, a luz do ocaso reinam nesse teatro abandonado do mundo, Scenario ou outro título, com as «suas ruínas decifradas», sem intérprete. 
Terceiro: a arte é uma interrupção da dissolução sem fim, uma forma insubmissa de delírio, capaz de imortalizar a ruína. 
[Maria Filomena Molder]