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segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Jésus-la-Caille

 

Jésus-la-Caille
Francis Carco

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-071-9 | EAN 9789895680719

Edição: Outubro de 2023
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 184

O controverso aparecimento de Carco como romancista. A homossexualidade masculina com uma audácia então desconhecida na literatura francesa. E o nome Jesus a baptizar… inocentemente… um gigolô.



 

Em 1914, o ano em que foi publicado pela primeira vez Jésus-la-Caille, Francis Carco só tinha como antecedentes literários uns quantos versos a que o autor chamava canções agridoces e podiam ser lidos em edições pobres, com reduzida circulação nas livrarias. Viviam-se dias de guerra, mas com uma presença editorial marcada por alguns sobressaltos. Poucos meses antes, os leitores franceses tinham sido surpreendidos com os versos de Alcools de Apollinaire e os de La Prose du Transsibérien de Blaise Cendrars; Barrès publicava o seu melhor livro, La Colline inspirée, e Martin du Gard provocava amenamente os católicos com Jean Barois; Proust dava a conhecer uma primeira amostra do seu enorme romance, e chamava-lhe Du Côté de chez Swann; Alain-Fournier, a poucos meses da bala alemã que o ia matar, mostrava-se com todas as seduções do seu Le Grand Meaulnes; Gide supunha-se impertinente com Les Caves du Vatican e Raymond Roussel fora de todas as regras com Locus Solus; o Jean-Christophe de Romain Rolland recebia o Grande Prémio da Academia Francesa.

No meio desta efervescente convivência criativa Jésus-la-Caille, a primeira obra em prosa de Francis Carco (que viria a ter a sua versão definitiva em 1917), levantava hesitações conservadoras aos editores de Paris. Era a primeira vez que a homossexualidade masculina da prostituição de engate surgia com tanta audácia num romance da literatura francesa. Ainda por cima, com um título que se atrevia a dar o nome de Jésus a um gigolô e a acrescentar-lhe na alcunha um La Caille, que embora significasse na linguagem vulgar uma inocente codorniz, tinha no calão da época o sentido de «a trampa». O som destas palavras, que num inevitável desvio de significação poderia sugerir Jesus a Trampa, era um mau gosto que roçava o sacrilégio. (Registe-se que muitos anos depois, em 1955, o banal filme de André Pergament baseado neste romance — com um dos primeiros papéis no cinema de Jeanne Moreau — achou que devia adoçar o seu título para um bem comportado M’sieur La Caille).

[Aníbal Fernandes]

Carmen seguido de Lokis

 

Carmen seguido de Lokis
Prosper Mérimée

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-112-9 | EAN 9789895681129

Edição: Outubro de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160


Dois pontos altos nas novelas de Mérimée. «Carmen», a oportunidade de uma dissertação sobre o mundo dos ciganos ibéricos. «Lokis», um fantástico de escabroso subentendido que recupera e transtorna uma lenda da tradição eslava.




Um livro onde Carmen e Lokis surgem reunidos pode não ser mais do que a associação de dois pontos altos na série de contos e curtas novelas que se fizeram o essencial na obra literária de Prosper Mérimée; mas reúne, além disto, duas histórias--pretexto; ou seja, em Carmen a oportunidade de uma dissertação sobre o mundo e os hábitos dos ciganos ibéricos; em Lokis um fantástico de escabroso subentendido que recupera e transtorna uma lenda da tradição eslava, aqui deslocada até à Lituânia como pretexto para uma reflexão sobre a estranha língua samogítica que Mérimée designa no texto com a forma popular jmud.

Mérimée nasceu em Paris no mês de Setembro do ano 1803; o seu pai, pintor de quadros banais, tinha o curioso nome de Léonor Mérimée; a sua mãe anglófila, culta e autoritária, dominou o filho com uma possessiva relação edipiana e durante toda a vida incitou-o à prudência de um celibato que ele temperou com relações cuidadosamente desviadas da vigilância materna. «Não podes confiar nas mulheres» — dizia ela, cautelosa ao ponto de mandar gravar-lhe num anel uma variante mais vaga do mesmo conselho: «Lembra-te de que deves desconfiar», uma frase que surgia no aro de ouro em minúsculas letras gregas e se reduzia, na gramática pessoal de Madame Mérimée, aos perigos de convivências mais íntimas com o elemento feminino.

[…]

Mérimée, um dos românticos mais corajosos e marcantes da sua geração, teve de J. Barbey d’Aurevilly esta curiosa frase: «Talento brilhante e negro como a Espanha que ele pintou, e com um refinamento que chega à malvadez. Há Goya em Mérimée.»

[Aníbal Fernandes]

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Kyra Kyralina

 

Kyra Kyralina
Panait Istrati

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-041-2 | EAN 9789895680412

Edição: Agosto de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160

Roman Rolland: «É um contador de histórias do Oriente que encanta e se comove com as suas próprias narrativas; e de um tal forma se prende a elas, que uma vez começada a história ninguém sabe, nem ele próprio sabe, se vai durar uma hora ou mil e uma noites.»

 

O mais significativo resultado de tudo isto deu-se em 1924 — o ano em que André Breton publicava Les Pas perdus, Raymond Radiguet surgia com o póstumo Le Bal du comte d’Orgel, Jean Cocteau com Le Grand écart e Jean Giraudoux com Juliette au pays des hommes — quando um desconhecido com estranho nome a soar muito a romeno, mas a mostrar que escrevia em francês, ofereceu ao público uma sedutora história de orientalismos que se chamava Kyra Kyralina. Dois anos antes, este Istrati já tinha quatro obras terminadas — Oncle Anghel, Kir Nicolas, Sotiz e Mikhail — mas o seu «mestre» preferiu-o na estreia literária com esta outra, mais recente e perturbante — que acrescentava ao nome de uma mulher o seu diminutivo — a que surgiu em 1923 na revista Europe e um ano depois em livro e prefaciada por Romain Rolland:

«Nos primeiros dias de Janeiro de 1921, foi-me entregue uma carta que vinha do Hospital de Nice. Tinha sido encontrada no corpo de um desesperado que acabava de dar um golpe na garganta. Havia poucas esperanças de que ele sobrevivesse ao ferimento. Li-a e fui invadido pelo tumulto do génio. Um vento que queimava na planície. Era a confissão de um novo Gorki dos países balcânicos. Conseguiram salvá-lo. Eu quis conhecê-lo. Encetámos uma correspondência. Ficámos amigos.»

[…]

A surpresa de Kyra Kyralina animou um editor a fazer o contrato que deu a conhecer poucos meses depois Oncle Anghel e Présentation des Haïdoucs. E em 1927 a Nouvelles Littéraires já se interessava por ele como entrevistado.

[…]

Morreu em 16 de Abril de 1935. Tem uma lápide no cemitério de Bellu, em Bucareste, aonde foi parar sem serviços religiosos. A sua fama política incomodava a ortodoxia romena. Tinha escrito Em Direcção a Outra Chama? Sim, mas era ainda assim «um comunista».

[Aníbal Fernandes]

Codine

 

Codine
Panait Istrati

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-040-5 | EAN 9789895680405

Edição: Agosto de 2023
Preço: 12,26 euros | PVP: 13 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 96



Codine, transformado no fora-da-lei por um sentimento cheio de violência contra a injustiça dos homens. Adrien, um apaixonado aprendiz do seu desiludido conhecimento dos males do mundo. Um estranho, incómodo e radical conceito do amor-amizade.

 



Os títulos do Istrati ficcionista vão aparecendo com uma imperturbável regularidade. Constroem aos poucos uma disfarçada autobiografia onde teremos de destrinçar o realmente vivido do literariamente contado, e que se divide em várias secções. As Narrativas de Adrien Zograffi incluem Kyra Kyralina, O Tio Anghel, Apresentação dos Haiduques e Domnitza de Snagov; A Infância de Andrien Zograffi inclui Codine, Mikhail, As Minhas Partidas e os contos de O Pescador de Esponjas; A Vida de Andrien Zograffi inclui A Casa Thüringer, A Agência de Empregos, Mediterrâneo. Fora deste extenso zograffismo está um dos seus romances mais célebres (Os Cardos do Baragan) que as memórias da sua vida inspiram mas escapa à presença explícita do Istrati-Zograffi.

[…]

Panait Istrati conviveu com Codine cerca de cinco anos, desde 1891 a 1896, ou seja, desde os seus sete aos doze anos de idade. E a passagem a literatura desta apaixonada admiração põe-nos perante um estranho, incómodo e radical conceito de amizade. Nas histórias de Adrien Zograffi, a amizade tem um papel importante; é o mais profundo dos sentimentos, aquele que ultrapassa todos os outros, incluindo o do amor sensual. Deste amor sensual há a mais explícita das confissões quando escreve em Narrantsoula: Amo no homem o que ele transporta consigo desde que nasce, o amor-amizade. Amo a mulher quando o seu sangue está abrasado pela paixão carnal. Entrego-me a eles sem condições, com frenesi. Isto custa caro, mas as decepções que sofri nunca me decepcionaram, nunca diminuem a soma dos meus desejos.

Na sua obra há a história de duas amizades masculinas que se destacam por uma brutal violência de sentimentos.

[Aníbal Fernandes]

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Salomé, Salomés…

Salomé, Salomés… 
Gustave Flaubert, Oscar Wilde, Guillaume Apollinaire e ainda Mário de Sá-Carneiro, Eugénio de Castro, Fernando Pessoa 

Tradução, organização e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-055-9 | EAN 9789895680559

Edição: Junho de 2023
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 168


A esterilidade do desejo; a neta de Herodes o Grande que Mateus pôs a dançar no seu capítulo 14 e uma imaginativa tradição enfeitou até à deusa da histeria e ao superlativo exemplo da sedução sangrenta.

 



Esta edição reúne textos em prosa de Gustave Flaubert, Oscar Wilde e Guillaume Apollinaire que cumprem, ao serem postos por esta ordem, uma aceitável sucessão cronológica nas suas narrativas. Flaubert demora-se nas horas que precedem o festim onde Salomé executa a dança premiada com a decapitação do Baptista, escolhendo embora como centro da intriga a sua mãe Herodíade, e fazendo de Salomé não mais do que o seu prolongamento físico, capaz de reacender no decrépito Herodes Antipas a maléfica memória da sua já morta paixão; Oscar Wilde escolhe para o seu texto teatral esse mesmo festim, fazendo Salomé perecer por decisão de um Herodes profundamente chocado com o acto que a palavra de tetrarca obrigou a consumar; Apollinaire imagina Salomé depois da sua dança, imagina-a levada para fora da Judeia por um procônsul romano, e destina-a a um final irónico onde a sua cabeça morta parece repetir visualmente o que ela própria impôs ao profeta que a não quis amar.

[…]

A este conjunto foram ainda associados três textos portugueses, de Mário de Sá-Carneiro, Eugénio de Castro e Fernando Pessoa, que em tempos muito impressionados por orientalismos trouxeram às letras portuguesas a perversa bailarina dos Evangelhos. Nem o soneto de Sá-Carneiro nem o poema de Eugénio de Castro podem considerar-se momentos altos entre os que tiveram a figura de Salomé como centro; e os fragmentos de Fernando Pessoa deixam em aberto todas as hipóteses sobre a qualidade do texto como matéria verbal destinada a uma representação dramática.

[Aníbal Fernandes]

Battling Malone, Pugilista

Battling Malone, Pugilista
Louis Hémon

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-094-8 | EAN 9789895680948

Edição: Junho de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160


O pugilismo a olhar do alto para os outros romances com o mesmo tema. Battling Malone — o jovem, o selvagem, o ingénuo — a identidade conflituosa que Louis Hémon espalhou — espalhando-se a si próprio — por todos os seus romances.

 



Com uma qualidade que surpreendeu, Battling Malone, pugilista escolhia o tema do boxe fazendo-o subir bastante acima do tom que costumava condená-lo a formas literárias que entretinham, em jornais e revistas, leitores pouco exigentes; escolhia o tema do boxe e dos seus jogadores num ambiente inglês tutelado pela aristocracia e por homens de dinheiro, muito povoado por gentlemen. Houve para isto uma decisiva vontade de escritor, expressa num artigo seu de 1905 com o título «Anglomanie»: «Desde há uns nove a doze anos, vemos aparecer periodicamente nas revistas [inglesas] uma mesma história sempre popular. Há nela a rapariga, o herói e o francês. A rapariga é encantadora, o francês atiradiço e o herói um indignado. Ele atira-se ao francês — que as gravuras, como é natural, representam como um homem pequeno, franzino e amaneirado — e administra-lhe uma fenomenal bordoada que deixa todos contentes. Por vezes os dados variam, mas o desfecho é sempre o mesmo. E todas as vezes que eu encontro sob uma nova forma este quadro britânico, fico obcecado pelo desejo de escrever a contrapartida desta mesma história.»

Vários indícios, que encontramos em cartas e artigos de Hémon, fazem crer que ele criou «o desvio da norma» a que chamou Battling Malone em 1909, levando a cabo a sua projectada subversão da história do jogador de boxe inglês e da rapariga que oscila entre o prestígio físico e desportivo do seu compatriota e a menoridade pouco viril de um belo francês.

«Louis Hémon proíbe a si próprio o uso da primeira pessoa do singular», disse Jacques Ferron quando prefaciou Colin-Maillard, «embora nos faça estar sempre na presença de um herói da sua idade, vindo não se sabe de onde, que parece não ter família e nunca, em qualquer caso, se volta para trás quando luta com as necessidades da vida, e nunca lhes tenta escapar de outro modo que não seja pelo sono e pelo amor.»

Battling Malone — o jovem, o selvagem, o ingénuo — personagem que executa uma das variações sobre a identidade conflituosa que Hémon obsessivamente espalhou — espalhando-se a si próprio — por todos os seus romances.

[Aníbal Fernandes]

sábado, 17 de junho de 2023

Viagem ao País dos Tarahumaras

Viagem ao País dos Tarahumaras
Antonin Artaud

Tradução, organização e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-078-8 | EAN 9789895680788

Edição: Abril de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 144



«Um mundo de sinais sagrados, de poesia e teatro em estado puro.»



 

Artaud escreveu textos sobre o México que nunca chegaram a formar o livro que ele pensava intitular Viagem ao País dos Tarahumaras; que já têm sido associados com vários critérios, quanto à sua organização, e vão ser aqui reunidos por ordem cronológica. A sua idoneidade como resultado de uma experiência realmente vivida tem preocupado conscienciosos e desconfiados antropólogos. Sem outra confirmação que não seja a das suas próprias palavras, sentiram-se no direito de perguntar: Ele foi realmente iniciado no ritual do Peiotl? Chegou a estar pessoalmente em lugares considerados de muito difícil acesso, que têm desanimado outros curiosos? Terá assistido às danças dos índios tarahumaras? Ou ter-se-á apenas baseado em textos já existentes sobre a realidade que ele afirma ter presenciado? Quatro anos antes, «Galapagos, les îles du bout du monde» e «L’amour à Changaï» tinham aparecido como reportagens suas na revista Voilà, sabendo-se que Artaud nunca tinha estado em nenhum desses lugares. Mas J.M.G. Le Clézio afirma no seu Le rêve mexicain que não tem sentido levantar-se em Artaud a questão antropológica: «Seria absurdo e inútil conduzir ao nada este encantamento, este apelo de um relato de viagem procurando nele a autenticidade.» Évelyne Grossman, essa, pensa que «Artaud atravessou a Sierra como se atravessasse a morte»; que percorreu «um mundo de sinais sagrados, de poesia e teatro em estado puro.» E o próprio Artaud escreve que fez no México uma «descida para voltar a sair no dia.»

Há no entanto algumas certezas. A do seu irresistível desejo de aventura: «É para mim uma verdadeira aventura e com isso a agradar-me, aliás, dentro dela, uma vez que parto com grande escassez de fundos. Terei a todo o custo de contar com o que irei encontrar lá para viver. E o destino, ao que parece, não poderá deixar de falar.» […] Que no dia 1 de Agosto pediu um prolongamento da sua permanência no México. Que no fim de Agosto partiu em direcção à Sierra Tarahumara, depois de conseguir uma pequena quantia dada pelas Belas Artes do México. Que passou todo o mês de Setembro na região dos Tarahumaras. Que em 7 de Outubro regressou à Cidade do México. Que El Nacional publicou traduções de «A Montanha dos Sinais» e «O País dos Reis Magos». Que em 31 de Outubro embarcou em Vera Cruz no navio Mexique e em 12 de Novembro desembarcava em Saint-Nazaire, em solo francês.

[Aníbal Fernandes]

O Nevoeiro de 26 de Outubro — E Outras Lições de Abismo

 

O Nevoeiro de 26 de Outubro — E Outras Lições de Abismo
Maurice Renard

Selecção, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-8833-99-0 | EAN 9789898833990

Edição: Abril de 2023

Preço: 16,03 euros | PVP: 17 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 176

Entre as espessas trevas do desconhecido e o bloco luminoso do nosso saber, há uma zona muitíssimo cativante que é o domínio da hipótese. Agitam-se ali as personagens do romance e a arrebatadora ilusão de compreender o não explicado.

 



Numa grande maioria das imaginações de Maurice Renard, o leitor é convidado a um final de história que o abisma, que o deixa a braços com a perplexidade de uma hipótese pressentida mas nunca cientificamente explicada. Sente-se longe das explicações para-científicas à Jules Verne, das tentativas de redução a laboratório que encontramos no Stevenson de Jekyll e Hyde, no homem invisível e nas explorações do tempo de H.G. Wells.

Os cinco textos desta edição exemplificam sob duas formas diferentes o seu «abismo». Se «A Glória do Comacchio» e «A Sublime Cantora» são de um fantástico mais tradicional, mostrando-nos o escultor renascentista Cesare Bordone abismado por visões de glória e horror provocadas por uma actuação com efeitos maléficos a que ele próprio parece atribuir uma duvidosa eficácia, ou a «humanização» de figuras mitológicas, os restantes textos são exemplos claros da «fórmula» renardiana — sugestões do «maravilhoso-científico» que ela gosta de fazer-nos aceitar como verdades inacessíveis aos actuais conhecimentos do homem.

«O Nevoeiro de 26 de Outubro» é a estupefacção de dois cientistas que se deparam com um inexplicável distúrbio na progressão do tempo — do tempo com um capricho retrospectivo. Vêem-se a viver uma aventura à Wells, mas sem a complicarem com explicações mecânico-científicas. A desgraçada queda de Ícaro terá sido a tentativa frustrada de recuperar a liberdade aérea do «homem alado de Cormonville»? O maravilhoso-científico de Renard voa tão alto como o seu antepassado pterodáctilo.

Ele… ele só voou na vida até ao 18 de Novembro de 1939; o dia em que foi vítima das consequências de uma operação cirúrgica menos eficaz do que a outra, a do pianista que ele celebrizou em As Mãos de Orlac. Ficou no cemitério da ilha de Oléron — um ventoso sul de França que em dias passados oferecia ostras aos seus prazeres da mesa, e ao seu sono noites batidas pelo som do mar; o mar que ali parece exprimir-se com uma insondável revolta — e não dá descanso às suas costas selvagens.

[Aníbal Fernandes]

quinta-feira, 30 de março de 2023

A Mandrágora

 

A Mandrágora
Jean Lorrain


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
Ilustrações de Marcel Pille

ISBN 978-989-568-081-8 | EAN 9789895680818

Edição: Março de 2023
Preço: 12,26 euros | PVP: 13 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 80 (cores)

Como em nenhuma outra obra sua, a obsessão do monstro onde o próprio Jean Lorrain se reconhecia. 


Entre as muitas memórias da sua convivência com Jean Lorrain, Rachilde escolheu uma que o mostra como «fanfarrão de vícios» embaraçado e à mercê da benevolência policial. Dois escritores franceses com destaque nessa época (ambos homossexuais — Marcel Proust e Jean Lorrain) disputavam murmúrios, eram personagens preferidas numa nebulosa de curiosidades que entretinha o mundo das letras. De Marcel Proust sussurravam-se coisas doentias que chegavam a uma insólita crueldade com ratos, excitante sexual muito pouco previsível numa tão correcta imagem de homem que beijava com elegância mãos de condessas e marquesas; e de Jean Lorrain, muito claro nas suas tendências sexuais e a expor-se com a maior das franquezas aos submundos da grande cidade, evitava-se em público o trato familiar, com a certeza de que ele contaminava reputações.
A sua obra literária é generosa em ambiguidades decadentes como as de Monsieur de Phocas, e tem escândalos que interessaram a Justiça, como o que envolveu La Maison Philibert. Num tom mais prudente e desviado até ao fantástico sem nada de gótico, também lhe encontramos contos com uma imaginação que preza a impunidade das máscaras e desvarios que lhe chegaram ao papel entontecidos por fortes cheiros do éter.
Mas neste conjunto merece especial destaque o conto A Mandrágora, que em Maio de 1899 surgiu enfatizado numa edição de luxo ilustrada por Marcel Pille e reflectiu, como nenhuma outra obra sua, a obsessão do monstro onde ele próprio se reconhecia. Tem uma primeira frase de choque: Quando ficou a saber-se que a rainha tinha dado à luz uma rã, houve consternação na corte.
[…]
A rainha deste conto, perturbada pela memória impura da sua filha-rã morta por determinação do rei, tem alucinações que a levam para junto das forcas, acompanhada por um galgo preto. E embora um dia lhe tenha chegado a cair na face uma «lágrima de cera muito mal-cheirosa», nunca encontrou a mandrágora que ela julgava poder transformar, com os seus conhecimentos de magia, na filha perdida — monstruosa mas sua filha, dizia-lhe um muito magoado amor de mãe.
[Aníbal Fernandes]

A Biografia de Vénus — Deusa do Amor

 

A Biografia de Vénus — Deusa do Amor
Francis de Miomandre


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-080-1 | EAN 9789895680801

Edição: Março de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160 (a cores)

Vénus, aqui autêntica e só perturbada pela lenda. O mito visitado pela seriedade de um biógrafo.

Em 1929 Miomandre publicou esta biografia de Vénus, um dos seus livros mais logrados e onde parece haver um desejo de ironia voltado para o que é vulgar chamar-se «verdade histórica». Olhando para Vénus como uma personagem autêntica e só perturbada pela lenda, Miomandre avisa-nos de que «passou a ser difícil discernir o verdadeiro daquilo que a imaginação lhe acrescentou». Com uma inesperada seriedade de biógrafo, tem hesitações nascidas da sua decisão de «só escrever a história, e não a lenda de Vénus»; e quando chega ao momento de fazer referência aos seus filhos, retrai-se porque se desconhecem muitas das suas aventuras e ele só quer falar «das que podem dar-se como garantidas». Também afirma que há poucos dados sobre a sua aventura com Mercúrio, mas que vai falar dela por ser de «inegável autenticidade». Para o biógrafo Miomandre, Vénus nascida da espuma das ondas, ou seja, com um lado terrestre, foi capaz de inquietar a pureza toda divina do Olimpo com a impura eficácia da sua sedução, mas acabou por ser vencida na sua imensa popularidade terrena quando frades de burel destruíram séculos mais tarde as suas imagens e fizeram suceder-lhe «uma doutrina nova, chegada do Oriente», que se propagava «com extraordinária rapidez no espírito das mulheres, dos pobres, dos escravos, dos humilhados, dos ofendidos, e vencia em poucos anos o sorridente e ingénuo paganismo com um papel civilizador que chegava ao fim.» A esta Vénus vencida e em plena época cristã, ainda surgiu o impossível amor de um tardio Tannhäuser. Mas hoje só lhe resta o seu planeta, «morada sideral, para lá do Olimpo destruído, de onde se vertem sobre nós as suas benfazejas ou maléficas influências, o planeta de esperança e beleza onde Ela elabora os nossos destinos de amor».

[Aníbal Fernandes]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O Plantador de Malata

O Plantador de Malata
Joseph Conrad


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-568-060-3 | EAN 9789895680603

Edição: Janeiro de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 152


Em Joseph Conrad, uma imprevisível história de amor louco. Uma realidade de fronteira com mais seduções do que as submetidas à disciplina do raciocinado mundo dos homens. 


 
Pode parecer inesperado um «amor louco» no mundo de histórias masculinas que foram centro na vocação literária de Joseph Conrad. Este escritor, inspirado sobretudo pelo mar, pelos seus homens, pelas suas lutas contra os maus humores do oceano, poucas vezes escolheu mulheres como centro das suas imaginações de ficcionista. Podemos lembrar-nos de Amy Foster, que até ficou no título de uma das suas novelas; da Freya que andava por sete ilhas; ou mesmo dessa desencantada mulher de Alvan Hervey, sem direito a nome, que só viu no «regresso» a solução para o irremediável tédio do seu matrimónio. Estas e algumas outras são evidências de uma personagem feminina destituída de um qualquer papel de vida ou morte num enlouquecido amor e que deslocam para um lugar de excepção o que nos é contado em O Plantador de Malata, onde encontramos a sua personagem central transtornada por um irremediável amor; onde não vemos nesse sentimento a bivalência mortal que é destino no Romeu e na Julieta, no Tristão e na sua Isolda, mas uma Miss Moorsom que se desfaz perante o seu apaixonado em irremediáveis e inatingíveis distâncias.
O próprio Conrad, que se casou em 1896 com a inglesa Jessie George e lhe deu um matrimónio com dois filhos gerados nos descansos breves de lar tradicional permitidos por longos períodos marítimos, teve uma vida de sentimentos amorosos pouco frequentada. Descobrem no entanto os seus biógrafos que oito anos antes deste casamento viveu ele próprio um grande desconforto sentimental; o que está na base — excitado literariamente até ao paroxismo — da história contada em O Plantador de Malata.
[Aníbal Fernandes]

Mulheres na Vida (Contos e Novelas)

Mulheres na Vida (Contos e Novelas)
Guy de Maupassant

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-060-3 | EAN 9789895680603

Edição: Janeiro de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 152

«Só existe um modo de exprimir uma coisa, uma só palavra para dizê-la, um só adjectivo para qualificá-la e um só verbo para animá-la» — disse Flaubert a Maupassant, e ele cumpriu-o bem melhor do que o seu mestre.

 

É fácil, num escritor que deixou publicadas três centenas de contos e narrativas breves, organizar grupos dominados por um tema específico, um género literário, uma qualquer maneira de compreender os homens que ele mais de perto conheceu. E se a escolha preferiu aqui seis histórias onde a prostituição feminina intervém com decisivo papel, deve-se ao facto de pertencerem a este «grupo» três textos entre os mais prestigiados do autor: Mademoiselle Fifi, A Casa Tellier, Bola de Sebo; e deve-se ainda à circunstância, não menos importante, de o próprio autor durante a sua vida adulta ter sido um exacerbado sensual, um coleccionador de trezentas amantes — como ele se classificou — de ter morrido precocemente, vitimado por um mal adquirido em noites de delírio, entregue sem temores à promiscuidade dos bordéis de Paris.

[…]

Guy de Maupassant, com uma vida de apenas quarenta e três anos, ficou com representação larga na literatura francesa. As suas três centenas de contos e novelas são hoje constantemente reeditadas, bem mais do que os livros de outros contemporâneos seus que tantos defeitos lhe encontraram, que ao sabor de uma tão persistente má vontade o censuraram; e têm a companhia de seis romances, dois deles — Une vie (1883) e Bel-Ami (1885) — que podem considerar-se de uma essencial representação entre os exemplos mais marcantes do naturalismo então liderado pela altiva superioridade do «mestre» Émile Zola.

Alberto Savinio, autor de um nada benevolente e muito injusto Maupassant e «l’Altro», faz na sua diatribe uma descoberta inquestionável: «A vida de Maupassant parece-se, ela própria, com uma novela à Maupassant.»

[Aníbal Fernandes]

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O Encontro — Uma História Incerta


O Encontro — Uma História Incerta
Henri de Régnier


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-044-3 | EAN 9789895680443

Edição: Setembro de 2022
Preço: 12,26 euros | PVP: 13 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 120



Um subtil fantástico ou não mais do que uma alucinação. A Veneza das suas artes, das suas igrejas e dos seus palácios; a sua canção dos sinos no céu, o eco dos remos na água. O sortilégio que emana e faz a dor suave, a tristeza feliz e a própria morte não mais do que um descanso, um pouco mais do que silêncio e esquecimento.



 
«Incerta», chamou Régnier a esta história, para nos lembrar como ela hesita, sem opção nítida, entre a possibilidade desde logo desfeita de uma intriga policial, e depois de uma discreta vontade de fantástico ou mesmo de uma simples alucinação. Há um busto que desaparece e reaparece; há um espelho que duplica a realidade, mas decidido a fazer nela uma alteração selectiva; e também há o homem que sai de uma doença com sequelas psicológicas e talvez só esteja a enfrentar alucinadamente esta realidade sem mistério que nos cerca. A narrativa, na primeira pessoa do singular e feita por esse homem, limita-nos deliberadamente as perspectivas e envolve de «incerteza» a sua visão. Mas…
Esta personagem humana vai deslocar-se para Veneza, a cidade que também terá aqui um principal lugar; Veneza é a cidade que incansavelmente se repete na obra literária de Henri de Régnier; a que ele frequentou, sempre dominado por uma insaciável paixão. As suas Proses datés (de 1925) são a este respeito muito explícitas: Foi o prazer de viver, aquilo que Veneza me deu com a sua generosa confiança. Deu-me pelas suas artes, pelas suas igrejas e pelos seus palácios, pelos seus museus, pela canção dos sinos no céu, pelo eco dos remos na água; deu-me por si própria, pelas suas misteriosas e vivas belezas, pelos entrelaçados das calli e dos canais, pela extensão da laguna, pelos campi, pelos jardins tão secretos; deu-me pelo estranho sortilégio que emana e faz a dor suave, a tristeza feliz e a própria morte não mais do que um descanso, um pouco mais do que silêncio e esquecimento.
No entanto, num prefácio a esta novela, Marcel Schneider acrescenta à obsessão de Régnier razões que ultrapassam as da Veneza física: «O seu amor a Veneza, o gosto pelo raro e pelo delicado, a sua libertinagem à século XVIII que o aparentavam com Casanova, e o simbolismo enevoado que o aproximava de Parsifal, faziam dele o modelo desses infelizes amantes da arte de viver que passavam a sua vida entre a Itália e a França, e sobretudo na Veneza onde “os homens embigodados” todos os anos se encontravam.»
[Aníbal Fernandes]

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Ser ou não Ser: Três Histórias – Sarrasine, Pierre Grassou, O Coronel Chabert


Ser ou não Ser: Três Histórias – Sarrasine, Pierre Grassou, O Coronel Chabert
Honoré de Balzac


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-022-1 | EAN 9789895680221

Edição: Agosto de 2022
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 200


Eis a questão. 


Sarrasine começa por intrigar-nos com um morto-vivo decrépito que assombra os salões parisienses do palácio de Lanty; intriga-nos ainda com a acidental visão de um Adónis pintado por Vien; e transporta-nos depois para a Itália-vaticana, onde nada parece relacionar-se com as surpresas que enfeitaram a primeira parte desta história. Mas o morto-vivo prolonga afinal uma radiosa juventude equívoca; e ficaremos a saber como ela perturbou, nas suas oscilações de ser-ou-não-ser, o escultor Sarrasine.
[…]
O ser-ou-não-ser de Pierre Grassou vive de um outro tipo de equívoco: a eficácia plagiadora de um pintor quetem como seu cliente de eleição a burguesia. Grassou, que chegou por disciplina e persistência a mostrar-se com um domínio formal assinalável, por falta de talento criador instituiu-se como rei do plágio — mina de ouro para um vendedor de arte intrujão e sem escrúpulos. Grassou é também pretexto para Balzac denunciar os mecanismos que forjam a fama imerecida, fruto da cultura-inculta de uma burguesia com possibilidades materiais para fazê-la sobrepor-se às que seria justo vingarem através de uma sólida lucidez crítica.
[…]
Quanto ao coronel Chabert, em 1882 contou pela primeira vez a sua história; chamou-lhe «La Transaction», e a revista L’Artiste revelou-a em quatro dos seus números numa versão menos extensa; e nesse mesmo ano também surgiu integrada em Salmigondis, Contes de Toutes les Couleurs, com o título «Le Comte Chabert».
[…]
O texto que serviu de base a esta tradução é o de 1835, corrigido por Jean-A. Ducourneau, mais conceituado por coleccionar as melhores formas literárias das várias versões conhecidas, resultantes dos cortes e das alterações que Balzac fez para as encaixar no espaço disponível dos volumes onde foram sucessivamente publicadas.
Sobre esta história paira a sombra do advogado Derville, o que procura resolver a situação jurídica do velho militar e é personagem noutras ficções de Balzac, quando lhe é necessário recorrer a um «advogado honesto». 
[Aníbal Fernandes]

Babilónia


Babilónia
René Crevel


Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-045-0 | EAN 9789895680450

Edição: Agosto de 2022
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 160


O melhor romance do surrealismo francês?
Um admirável exercício de humor.



O seu primeiro romance Détours (N.R.F., 1924), uma obra, um retrato (esgotado), era um passeio preliminar onde os críticos e em particular Benjamin Crémieux, Edmond Jaloux, Albert Thibaudet, reconheceram atitudes, passeatas e raivas características do jovem actual. O Meu Corpo e Eu (1925), romance com um herói que traz dentro de si todas as suas aventuras e onde os gestos, as personagens não são mais do que pretextos, é um panorama interior. 
A seguir foi a vez dos romances A Morte Difícil (1926) e no ano seguinte Babilónia, aquele que Crevel escreveu ligando-o com mais intensidade à estética literária surrealista; o melhor dos três melhores romances do surrealismo francês — nomeiem- -se aqui Hebdomeros de Chirico, A Liberdade ou o Amor de Robert Desnos e este Babilónia, com uma história contável dentro de parâmetros realistas, embora a deslizar em muitas das suas páginas para um discurso poético de intensa surrealidade.
[…]
René Crevel, o rebelde romancista do Surrealismo francês, regressa uma vez mais às suas obsessões de solidão e morte; persiste numa das suas denúncias preferidas, a da família orquestrada pela moral e por casamentos de burguesa virtude. A Menina, que se acha com direito a ver o mundo através de uma versão individual, dominada pela liberdade de ser e pensamento, começa a fazer-se mulher. E sente, com nitidez cada vez maior, que o seu pai, a sua prima Cynthia, a sua avó, a negrinha do Senegal, são todos invencivelmente dominados pelo desejo, todos ressuscitam o Vento soprado pelas licenças de uma velha Babilónia. Ela; o seu avô-psiquiatra só capaz de perceber os actos humanos quese adaptam à sua matriz,e que a todos os outros chama actos-cogumelos; a sua mãe que se sujeita, por falta de vento, a acompanhar um marido anão na sua propaganda evangélica, não ressuscitam o Vento. Mas esta consciência de não conseguir entregar-se aos Ventos da vida, perturba-a; ao não se ver capacitada para ressuscitar o seu Vento, foge do mundo pela indiferença e pelo medo. O final da história é melancólico: Terra insensível, terra vazia, Babilónia; depois dos gritos, das mordidas, é o grande silêncio. No mar, um dique continua este chão carnal, este grande corpo de continente que a insolação diviniza.
Uma mulher, uma cidade lutam, por indiferença.
[Aníbal Fernandes]

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Morte de Judas seguido de O Ponto de Vista de Pôncio Pilatos

Morte de Judas seguido de O Ponto de Vista de Pôncio Pilatos
Paul Claudel

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-568-028-3 | EAN 9789895680283

Edição: Maio de 2022
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 96 (a cores)


Proponha-se para estes textos uma leitura menos comprometida. Aceitem-se as provocações de subtil humor a diversas seriedades instituídas pela fé cristã. Os apóstolos fartaram-se até ao tédio de testemunhar milagres? Os paralíticos milagrados podem ter saudade das suas muletas? Simão Pedro, aquele pobre lamuriento? Maria Madalena (Miriam de Magdala) tão fútil?… Reabilitar Judas foi por diversas vezes um ponto preferido dos adversários da Igreja. Mas a habilidade de Claudel ironiza alguns pontos de honra da fé cristã com a caução indesmentível do seu catolicismo de missa diária e de uma obra literária tão atenta às palavras da Bíblia. 



Este Claudel ligado à diplomacia viveu em Nova Iorque e Boston; esteve em várias cidades da China — o que lhe deu oportunidade para as belas prosas poéticas de Connaissance de l’Est (1900) e de L’Oiseau noir dans le soleil levant (1927); e a este desfile de honrosos cargos de embaixada acrescentemos Praga, Roma, Rio de Janeiro, Tóquio, Copenhaga, Washington… 
A sua imagem começou, com este fervoroso catolicismo associado às honras de uma bem-sucedida carreira diplomática, a ser roída por uma sonora animosidade; o Claudel-poeta-dramaturgo-ensaísta-prosador, que surgia enfeitado com fortes brilhos de Estado,era católico de missa diária e fazia-o com uma exibição que parecia mentirosa perante as realidades sociais da sua vida; mas também complicava um pouco as vontades de maledicência, por não ser fácil negá-lo como grande poeta.
Isto não impediu que bastantes personalidades da literatura francesa o tivessem deixado ferido por incomodadas memórias. André Gide, seu inimigo de estimação, dizia que Claudel «era um senhor iludido, a julgar que se chegava ao Céu numa carruagem-cama»; Claudel respondia, dizendo que «Gide era um senhor que ia chegar ao Inferno de metro». Réplicas como estas circulavam como pormenor picante na conversa dos meios literários de Paris; mas, bem mais elucidativo e duradouro, é o que ficou escrito. 
[Aníbal Fernandes]

Os Domingos de Jean Dézert seguido de contos

Os Domingos de Jean Dézert seguido de contos
Jean de la Ville de Mirmont

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-027-6 | EAN 9789895680276

Edição: Maio de 2022
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 136


Charles Dantzig: «Ah! Se Beckett tivesse escrito algumas palavras sobre Os Domingos de Jean Dézert, que porção de teses e colóquios a seu respeito nós veríamos!» 




Dir-se-á que um deus cruel comandou as balase as granadas da Primeira Grande Guerra Mundial (a de 1914,estendida até 18) e via com desagrado os que então se iniciavam, a mostrar talentos na literatura daquela França metida numa guerra contra os seus vizinhos alemães. Foi eficaz. Jovens escritores, com uma idade abaixo da que poderia mostrá-los no seu mais alto ponto criativo, morreram. E se há nomes, entre os escolhidos por um qualquer Marte vingativo, que hoje menos nos dizem — Ernest Psichari, Charles Péguy, Émile Clermont, Sylvain Royé, René Dalize, Louis dela Salle, Jean-Marc Bernard, Robert d’Humières, Paul Drouot, Pierre Fons, Émile Desfax, Gérard Mallet — terminaram outros a sua curta vida, deixando-nos uma obra que perdurou. […] Mas esta guerra, maléfica para os da literatura, também se encarregou de outra morte, aqui a que mais nos interessa, a de um jovem de vinte e oito anos de idade que se queria com invulgar nome — Jean de la Ville de Mirmont — e foi poeta de versos e ficcionista de textos curtos em prosa, todos os que foram reunidos neste volume. 
[…] 
Tenho em mim grandes e insatisfeitas partidas — disse Jean dela Ville de Mirmont num verso de L’Horizon chimérique. O seu Jean Dézert partiu para o mundo, insatisfeito, numa edição que muito baixo gritava, posta a circular com discrição em 1914, nas vésperas da partida sem regresso do seu autor-soldado quese dirigia, inocente, para a explosão de uma granada alemã. Hoje, no cemitério protestante de Bordéus há um túmulo que ignora o escritor e apenas se lembra, num muito danificado epitáfio, do soldado: «Jean de la Ville de Mirmont, sargento do 57.º regimento de infantaria, nascido em Bordéus em 2 de Dezembro de 1886, morto pela França em 28 de Novembro de 1914 em Verneuil.»Túmulo abandonado, ao que se diz num cemitério particular onde os poderes públicos de Bordéus não podem intervir; e por isso num avançado estado de degradação;e com o sepultado já a preparar-se, talvez, para o destino comunitário e anónimo da vala comum. 
[Aníbal Fernandes]

quinta-feira, 28 de abril de 2022

A Dificuldade de Ser


A Dificuldade de Ser
Jean Cocteau

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-8833-69-3 | EAN 9789898833693 

Edição: Março de 2022 
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros 
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
 Número de páginas: 208

Jean Cocteau: «No fim de contas tudo tem solução, salvo a dificuldade de ser, que não tem solução nenhuma.»

É preciso, repito-o, compreender que a arte não existe enquanto arte, enquanto coisa separada, livre, desembaraçada do criador, e só existe se prolongar um grito, um riso ou um lamento. É o que leva certas telas de museus a fazerem-me sinais e viverem com angústia, enquanto outras estão mortas e só mostram os cadáveres embalsamados do Egipto. 
[Jean Cocteau] 

Em 1947 A Dificuldade de Ser tinha surgido como seu auto-retrato íntimo, espalhado por trinta e um textos de títulos à moralista clássico e a lembrarem-se de uma frase de Fontenelle no leito de morte: «Sinto uma dificuldade de ser.» 
André Fraigneau (num dia de diálogos): Por que escreveu A Dificuldade de Ser? 
Cocteau: O impudor é o meu heroísmo; lavo a roupa suja em público. Além disso, eu podia trabalhar ali o estilo que me agrada: Montaigne, Stendhal, o Código de Napoleão, o Hugo das Choses vues e Balzac que escreve muito bem, desculpe que lho diga.
André Fraigneau: Para si, Balzac escreve bem?
Cocteau: Ah, sim! Ele diz o que quer dizer. O estilo é isso. O mau estilo é Flaubert, o das pessoas que fazem poses. Devemos procurar ser exactos como os algarismos e, custe o que custar, dizer o que queremos dizer; acertar no alvo sem as poses do atirador presunçoso.
Flaubert é o atirador presunçoso. Há no seu túmulo este aviso: Continuo convosco. E quarenta e oito anos antes tinha escrito no poema «Discurso do Grande Sono»:
Uso uma tinta que é o sangue azul de um cisne, 
E sempre que é preciso ele morre para estar mais vivo. 
[Aníbal Fernandes]

Casa de Incesto

Casa de Incesto
Anaïs Nin

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-8833-73-0 | EAN 9789898833730

Edição: Abril de 2022
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 144

Anaïs Nin: «A minha primeira visão da terra foi uma água sem transparência. Sou da raça de homens e mulheres que vêem todas as coisas através desta cortina de mar, e os meus olhos são cor de água.» 

O seu nome. Naquele registo de Neuilly-sur-Seine e numa página de Fevereiro de 1903 consta que o seu pai, um pianista cubano, e a sua mãe vagamente cantora com uma complicada ascendência de dinamarqueses, cubanos e franceses, lhe deram um nome de linha inteira; e vemo-nos incitados a percorrer num esforço de nove palavras, não menos, as que lhe chamam Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell. Tudo o que veio a parecer-lhe — mesmo num tempo de alargados nomes que eram aviso de bons nascimentos — excessivo; e que aos vinte e nove anos de idade, quando teve de designar-se como escritora, fê-la chegar na sua folgada sucessão de títulos à simplificação que a resumia num Anaïs Nin agradável na música e que também soaria, num mais atento mundo de leitores, como Ana is (é) NIN, «a Ana é NIN», ou seja, marcada pelo I «eu» entalado entre idênticos e inter-negativos opostos — entendam-se aqui o sexo, os desejos e a vida. […] 
Aos trinta e três anos de idade, Anaïs ainda não era autora publicada de nenhum dos seus romances; o seu nome nas letras podia apenas reivindicar a autoria de um ensaio sobre Lawrence e de um poema em prosa, Casa de Incesto, que parecia dever tudo aos franceses do surrealismo. Diz-nos o seu Diário: umas trinta páginas de prosa poética, escrita de uma forma totalmente imaginativa, uma explosão lírica. […]
Stuart Gilbert, o erudito inglês, o «imbatível» tradutor da prosa de Cocteau para a sua língua, foi entre todos o mais expressivo e o que mais alegria deu a Anaïs Nin: «É evidente que o autor de Casa de Incesto teria, numa época mais recuada, terminado a sua carreira na fogueira — na boa companhia, seria inútil dizê-lo, de Joana d’Arc. Porque há qualquer coisa de inquietante na sua clarividência. É como se ela tivesse bebido uma poção ou descoberto um sortilégio que lhe desse acesso a esse mundo subterrâneo que à entrada tem escrito este aviso: “Vós, que aqui entrais, abandonai toda a consciência!” É preciso coragem para alguém se lançar nesta busca, e além de coragem, perspicácia e um delicado sentido de equilíbrio e o abandono de si.Todas estas qualidades, e com elas uma habilidade pouco comum a manejar as palavras e os ritmos, são evidentes na obra de Anaïs Nin.» 
[Aníbal Fernandes]