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sábado, 17 de junho de 2023

Viagem ao País dos Tarahumaras

Viagem ao País dos Tarahumaras
Antonin Artaud

Tradução, organização e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-568-078-8 | EAN 9789895680788

Edição: Abril de 2023
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 144



«Um mundo de sinais sagrados, de poesia e teatro em estado puro.»



 

Artaud escreveu textos sobre o México que nunca chegaram a formar o livro que ele pensava intitular Viagem ao País dos Tarahumaras; que já têm sido associados com vários critérios, quanto à sua organização, e vão ser aqui reunidos por ordem cronológica. A sua idoneidade como resultado de uma experiência realmente vivida tem preocupado conscienciosos e desconfiados antropólogos. Sem outra confirmação que não seja a das suas próprias palavras, sentiram-se no direito de perguntar: Ele foi realmente iniciado no ritual do Peiotl? Chegou a estar pessoalmente em lugares considerados de muito difícil acesso, que têm desanimado outros curiosos? Terá assistido às danças dos índios tarahumaras? Ou ter-se-á apenas baseado em textos já existentes sobre a realidade que ele afirma ter presenciado? Quatro anos antes, «Galapagos, les îles du bout du monde» e «L’amour à Changaï» tinham aparecido como reportagens suas na revista Voilà, sabendo-se que Artaud nunca tinha estado em nenhum desses lugares. Mas J.M.G. Le Clézio afirma no seu Le rêve mexicain que não tem sentido levantar-se em Artaud a questão antropológica: «Seria absurdo e inútil conduzir ao nada este encantamento, este apelo de um relato de viagem procurando nele a autenticidade.» Évelyne Grossman, essa, pensa que «Artaud atravessou a Sierra como se atravessasse a morte»; que percorreu «um mundo de sinais sagrados, de poesia e teatro em estado puro.» E o próprio Artaud escreve que fez no México uma «descida para voltar a sair no dia.»

Há no entanto algumas certezas. A do seu irresistível desejo de aventura: «É para mim uma verdadeira aventura e com isso a agradar-me, aliás, dentro dela, uma vez que parto com grande escassez de fundos. Terei a todo o custo de contar com o que irei encontrar lá para viver. E o destino, ao que parece, não poderá deixar de falar.» […] Que no dia 1 de Agosto pediu um prolongamento da sua permanência no México. Que no fim de Agosto partiu em direcção à Sierra Tarahumara, depois de conseguir uma pequena quantia dada pelas Belas Artes do México. Que passou todo o mês de Setembro na região dos Tarahumaras. Que em 7 de Outubro regressou à Cidade do México. Que El Nacional publicou traduções de «A Montanha dos Sinais» e «O País dos Reis Magos». Que em 31 de Outubro embarcou em Vera Cruz no navio Mexique e em 12 de Novembro desembarcava em Saint-Nazaire, em solo francês.

[Aníbal Fernandes]

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Eu, Antonin Artaud


Eu, Antonin Artaud 
Antonin Artaud 

Tradução, selecção e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-8833-32-7 EAN 9789898833327 

Edição: Setembro de 2018 
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros 
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 192 

Reproduções, a cores e a preto e branco,  de retratos e auto-retratos de Antonin Artaud.



Eu, Antonin  Artaud, só quero escrever quando já não tiver mais nada para pensar. — Como alguém que comesse o ventre, os ventos do seu ventre por dentro.




Apresentação Um rosto como este...



ANTES DE RODEZ 
Em 1933, Antonin Artaud...
O Teatro e a Peste 
Em 1781, o italiano Seraffino...
O Teatro de Séraphin 


EM RODEZ
Em 23 de Julho de 1937...
O Surrealismo e o Fim da Era Cristã 
[A Vida e o Ópio] (carta a Henri Parisot)
O período de Rodez...
[As «Quimeras» de Nerval] (carta a Georges le Breton) 


DEPOIS DE RODEZ
Em 23 de Maio de 1946...
Alienação e Magia Negra
Quando Antonin Artaud saiu de Rodez...
Carta a Peter Watson 
Em Janeiro de 1947...
Carta a André Breton 
De 4 a 20 de Julho de 1947...
[O Rosto Humano] 
O Teatro e a Ciência 
Na obra escrita de Artaud...
[O Homem-Árvore] (carta a Pierre Loeb) 
[Os Seres…] 


POST SCRIPTUM Quem sou? / De onde venho? / Eu sou o Antonin Artaud, / e se o disser / como sei dizê-lo, / imediatamente / vereis o meu corpo actual / voar em estilhaços / e refazer / com dez mil aspectos / notórios / um corpo novo / onde não podereis / nunca mais / esquecer-me.


Heliogábalo ou O Anarquista Coroado I Antonin Artaud



Heliogábalo ou O Anarquista Coroado 
Antonin Artaud 

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-8833-33-4 EAN 9789898833334 

Edição: Setembro de 2018 
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros 
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 160




Le Clézio: «Quem não leu Heliogábalo não aflorou o verdadeiro fundo da nossa literatura selvagem.»


Artaud fez-lhe um dia notar [ao editor Denoël] que Heliogábalo, reduzido pela História à crueldade demente, realizava anarquicamente em si a identidade dos contrários e professava uma pederastia religiosa com origem numa luta sem tréguas entre o Masculino e o Feminino; e que apenas foi repugnante «por ter perdido esta noção transcendente e soçobrar no erotismo da criação em acto e sexualizada».
Fascinado com esta ideia, e antegozando o que ela poderia oferecer depois de passar pelas complexidades de uma mente e de um talento literário como o de Antonin Artaud, Denoël propôs-lhe que escrevesse uma biografia desse imperador dominada por esta visão «heterodoxa» que beliscava a caução de reconhecidas competências e em muito afrontaria a opinião de conceituados historiadores.
[...]
Pela visão de Artaud, este jovem imperador de tão curto reinado ocupou-se sobretudo em ser altíssimo exemplo de uma anarquia sexual que realizava a identidade dos contrários, respondia à confusão dos sexos e fazia-os regressar à pureza da androginia primordial. Citemos o próprio Artaud: «Heliogábalo é o homem e a mulher. E a religião do sol é a religião do homem mas que nada pode sem a mulher, o duplo onde ele se reflecte. A religião do UM que se parte em DOIS para actuar. Para SER. A religião da separação inicial do UM. UM e DOIS reunidos no primeiro andrógino. Que é ELE, o homem. E ELE, a mulher. Ao mesmo tempo. Reunidos em UM.»
[...]
Ao polémico Heliogábalo, a passagem dos anos fez a desejável justiça. E não podemos, como prova inequívoca, deixar de lembrar o que a seu respeito disse o irreprimível entusiasmo de J.M.G. Le Clézio: «Ora aqui temos o livro mais violento da literatura contemporânea, quero eu dizer de uma violência bela e regeneradora. […] Quem não leu Heliogábalo não aflorou o verdadeiro fundo da nossa literatura selvagem.»
[Aníbal Fernandes]

Van Gogh o Suicidado da Sociedade I Antonin Artaud


Van Gogh o Suicidado da Sociedade
Antonin Artaud

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-8833-31-0 EAN 9789898833310

Edição: Setembro de 2018
Preço: 10,38 euros | PVP: 11 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 96

Reproduções, a cores, de pinturas de Van Gogh.




A consciência geral da sociedade, como castigo de ele se ter extirpado dela, suicidou-o.


Van Gogh apareceu à venda nas livrarias em 15 de Dezembro de 1947, quase dez meses depois de uma escolha significativa das telas do pintor ter sido exposta no museu da Orangerie, em Paris. A Antonin Artaud — saído de um longo internamento em asilos psiquiátricos, a sofrer a fase terminal de um cancro — só restariam três meses de vida. A conjunção deste factor emocional e uma grande surpresa (a atribuição, que lhe foi feita, do prémio Sainte-Beuve na categoria ensaio) talvez possam explicar a tiragem imediata de quase seis mil exemplares, êxito de público sofrível mas desconhecido até à data com uma obra do autor.
Libertado, enfim, do asilo de Rodez, Artaud mostrava a sombra ressequida do actor que muitos tinham conhecido, cravava a sua faca-fetiche em mesas de cafés que lhe consentiam o espectáculo de uma agressividade inofensiva, exibia na rua grandes tempestades verbais.
[…]
A par deste comportamento, Artaud surpreendia os mais próximos com uma lucidez transtornada, um estado de invectiva perante os «normais» alimentado por convulsões poéticas com fascínio mal conhecido na literatura. É, pois, previsível que a exposição da Orangerie surgisse a amigos seus como oportunidade de assistir à detonação deste Artaud crispado perante o desfile de corvos, céus alucinados, faces auto-reflectidas em tensão de um Van Gogh também ele acusado de loucura.
[…]
Artaud surpreendeu. Saía do seu abismo para habitar verdades mal reconhecidas pelos juízos «normalizantes», a falar de si com o pretexto de outro como ele, suicidado pela hostilidade geral aos que preferem ficar doidos, no sentido em que socialmente o entendemos, a envergonhar uma certa ideia superior de honra humana.
A uma luz selvagem Artaud pintava-se já na morte, com a morte de Van Gogh. Entre os outros e o seu corpo tentava interpor aquela dureza que petrifica a alma mantendo-a móvel, disse ele uma vez, e vazia. E surgiu assim num ponto alto (o mais alto, preferem alguns) da sua ebulição interna.
[Aníbal Fernandes]