Mostrar mensagens com a etiqueta José Afonso Furtado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Afonso Furtado. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Livro de José Afonso Furtado é uma das «7 (sete) boas sugestões de leitura para este Outono»



«Contaminações. Minas Abandonadas, de José Afonso Furtado

O autor deste Contaminações (Documenta/Sistema Solar, 192 págs., 29 euros), José Afonso Furtado, confessa-se logo a abrir: “Durante quinze anos, desde 1994, não fui de férias, fui para as minas, como se vai para as termas ou como se vai à terra. Não era obrigação ou encomenda, não tinha prazos nem propósito. Quando fui forçado a parar, fiquei com milhares de negativos, com um ligeiro conhecimento do universo mineiro e com vários dados colaterais.” Durante esses anos, sem compromissos, o fotógrafo (que na altura dirigia a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian) visitou então “áreas mineiras degradadas” do Norte e do Sul do País, com o objetivo de registar paisagens lunares onde não se vê vivalma, estruturas ao abandono, ruínas desoladas, edifícios-fantasma… Entre as minas retratadas, estão as de Argozelo (Vimioso), São Domingos (Mértola), Lousal (Grândola), Rio de Frades (Arouca), Vila Cova (Vila Real), Borralha (Montalegre), Panasqueira (Covilhã e Fundão), Ribeira (Bragança) e Caveira (Mértola). Uma parte dessas imagens dos tempos pré-lítio integra agora este livro cujas fotografias (189, no total) tanto têm de inquietantes quanto de sedutoras. Como escreve a historiadora Maria do Carmo Serén, “neste tempo de saturação do olhar, do ‘já visto’, só mesmo os jogos da linguagem da fotografia nos podem surpreender.” S.B.L.»

Luís Ricardo Duarte, «7 (sete) boas sugestões de leitura para este outono», Visão Sete, 28 de Outubro de 2019.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

«Afonso Furtado: desolação e dissolução» I Vasco Rosa


Com a paisagem continental portuguesa em acelerada inquirição fotográfica — indo o geógrafo Álvaro Domingues à frente, seguido por Duarte Belo, mas também por Pedro Letria (Terra Formada, 1999), praias fluviais beirãs por Tito Morais, periferias urbanas por Paulo Catrica, urbanidades por André Cepeda, além dos trabalhos de Luísa Ferreira, Augusto Alves da Silva, Valter Vinagre, José Manuel Rodrigues e Pedro Lobo, entre outros —, José Afonso Furtado decidiu sair por uns instantes do ostracismo rabugento que o distingue e mostrar em livro — sem exposição que lhe anteceda, como sempre fizera desde Hospital (Caldas da Rainha, 1985-86) — um portfólio das suas antigas deambulações de quinze anos por minas abandonadas, um sortido de 21 lugares inóspitos de extrema ruína, desolação e dissolução que rasgam como chagas abertas o corpo ibérico do país, e desse modo chamar a nossa atenção para essa realidade brutal porém oculta pela cortina da indulgência e complacência habituais e pela sua própria recôndita geografia.

Não sei se, atendendo a Abril e Agosto de 2018 de que datam os escritos incluídos neste livro, a decisão deste campanha lhe surgiu com as imagens muito mediatizadas dos grandes incêndios de Julho de 2017 (quando a verdadeira face dum território em grave perigo foi exposta à outrance por todos os meios e insistentemente; e importa lembrar que o fotógrafo é do distrito de Leiria, dizimado como nunca antes) ou se terá sido a catadupa de anúncios de projectos de mineração — “o ciclo do lítio” (p. viii) —, de consequências ambientais ainda por avaliar, mas de efeitos paisagísticos seguramente devastadores, como os casos aqui registados elucidam —, seja como for esta iniciativa de resgate por José Afonso Furtado é bem-vinda e certeiramente actual, tendo sido acolhida por um editor experiente capaz de produzir um foto-livro em condições de excelência que este muito bom fotógrafo nunca tivera em três décadas e meia, refém que foi da limitada capacidade e competência de galerias municipais (Vale do Mondego, 1993; Linha de Costa, 1996; Estarreja, 1998; A Ocupação do Espaço, 2004), fundações (No Vale de Massarelos, 2001) e editores ou galeristas não especializados (Das Áfricas, 1991; Os Quatro Rios do Paraíso, 1994; Vale do Ave, 2002). Com recurso à tecnologia tritone e à mais-valia da Gráfica Maiadouro, a qualidade da impressão de Contaminações parece das melhores que se pode obter. E o formato maior (30 x 24 cm) dá às imagens toda a pormenorização que elas precisam e também merecem: o inverso do que sucedera em 2005, na edição do autor de Canada do Inferno (16 x 13 cm; design de Andrew Howard), o último livro deste fotógrafo.

A Furtado não interessa o humano mas a Paisagem e a sua representação, tema maior da Fotografia desde os seus primórdios. Não há, nunca houve retratos nem pessoas nos seus trabalhos. Tudo é desértico e enquadrado à distância, com zelos excepcionais de composição formal e de luminosidade favorável à graduação tonal das imagens a preto e branco. Em ruínas — que nunca lhe faltam (“ruínas sem nostalgia”, chamou-lhes certa vez Maria do Carmo Serén) —, não busca o destroço de presença humana concreta, rural ou industrial, que ajude a imaginar uma narrativa do ali vivido em tempos idos, como exemplarmente feito por Daniel Blaufuks em Fábrica (2013), por exemplo. Nada disso. Nem sequer “o cenário vazio e a sensação de que alguém saiu de cena”, que Teresa Siza refere a propósito das Periferias de Paulo Catrica. Não. Aqui o fotógrafo compraz-se no jogo infindável — no filão, para me ajustar ao motivo — das composições de volume, luz e sombra que enquanto andarilho persistente e obsessivo lhe vão aparecendo pela frente, num discurso tal que somos levados a pensar que tudo o que faz se destina a pretender ser visto e discutido no círculo restrito dos grandes sábios da história da velha fotografia como imagem.

O livro não é, por conseguinte, uma série de breves “ensaios fotográficos” sobre as minas abandonadas que lhe dão título, uma após outra estudadas na sua especificidade (há sequências de cinco, seis, sete, o máximo de dez fotografias; em Regoufe, Arouca), mas um deambular entrecortado entre elas. Os planos são todos de vistas largas, assaz abrangentes. A sua organização é estritamente visual (ou imagética, em linguagem de eruditos). Um completo despojamento informativo atira o esclarecimento dos respectivos lugares para o fim (pp. 190-91), e para maior desnorte do leitor num índice que é diacrónico mas ganharia em ser geográfico ou desdobrado em geográfico. Nos álbuns de finais dos anos 1990 Linhas de Costa e Estarreja, não era assim: legendas em rodapé ou na página ao lado identificavam de imediato os lugares; e realmente não vejo vantagem nenhuma em impor o actual desconforto, nem que ele possa ter sido uma opção de design que contrarie a vontade do artista. Quem quiser saber mais sobre onde e o quê, que se dê ao trabalho de andar constantemente para a frente e para trás, e vice-versa, vezes sem conta. Sequer há um mapa — sensato e útil, já agora… — que nos dê a distribuição territorial das duas dezena de locais fotografados, de Montalegre a Aljustrel e Mértola, do Vimioso à Panasqueira, de Vila Viçosa a Castelo de Paiva, e etc.

O exercício é, sobretudo, uma renovada declaração de alinhamento com a corrente “New Topographics”, que o título Contaminações explicita à perfeição. A pegada humana abre feridas na paisagem natural, e mostrar tais cicatrizes de uma maneira pungente embora fortemente estilizada tornou-se o desígnio de longínquos herdeiros dos grandes pioneiros da fotografia norte-americana. Lagoas que brilham pela química de metais emergentes, estruturas e maquinismos metálicos quebrados de erosão, edificações sem telhados, pirâmides de escórias, de tudo um pouco num abandono sobre abandono na longevidade destes sítios mineiros exauridos, a que ninguém foi dar depois um módico de ordem e conserto (para já não falar de perímetros de segurança), dão a este portefólio a verdade nua e crua da tremenda dissolução que grassa por este país contentinho e mediatizado afora, às vésperas de se lançar noutro disparate ambiental.

Bernardo Pinto de Almeida disse algures que José Afonso Furtado “fotografa como quem escreve”. Posso garantir-vos que, na verdade, fotografa muito melhor do que escreve…


Vasco Rosa, Observador, 9-IX-2019

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Contaminações — Minas Abandonadas (Fotografias 1994-2009) I José Afonso Furtado


Contaminações — Minas Abandonadas 
(Fotografias 1994-2009)
José Afonso Furtado


Nota prévia de José Afonso Furtado
Texto de Maria do Carmo Serén


ISBN 978-989-8902-85-6 | EAN 9789898902856

Edição: Junho de 2019
Preço: 27,36 euros | PVP: 29 euros
Formato: 24 x 30 cm (brochado)
Número de páginas: 212 (impressão tritone)





Maria do Carmo Serén: «Quando as imagens são feitas em solidão, pensadas e sentidas, um livro pode ser como um encantamento, trazendo consigo palavras mágicas e sortilégios.»


Agora já não vou às minas. Durante quinze anos, desde 1994, não fui de férias, fui para as minas, como se vai para as termas ou como se vai à terra. Não era obrigação ou encomenda, não tinha prazos nem propósito. Quando fui forçado a parar, fiquei com milhares de negativos, com um ligeiro conhecimento do universo mineiro e com vários danos colaterais. […]
Repare-se: são «áreas abandonadas», «desactivadas», localizadas em «zonas», o que permite integrar cortas, canais, escombreiras, safrões, taludes, lavarias, gaiolas, malacates, chaminés, células e tanques de cementação, oficinas, armazéns diversos, habitações para mineiros e outros equipamentos… Mas, por atavismo, não trabalhadores e, ainda menos, em laboração.
[José Afonso Furtado]


Este olhar de José Afonso Furtado sobre um país mineiro, que fomos e não fomos e que aqui se mostra de Norte a Sul como um painel datado e decaído, de história milenária, não constitui, é certo, um tema específico de espaços mineiros.
O que José Afonso Furtado fotografou, entre 1994 e 2009, foram paisagens, criadas e sugeridas pelo abandono e pelo espanto. Não minas, mas esses espaços abandonados, entre os quais estes vinte e um aqui mostrados, ainda sem alteração de carácter memorial ou saneamento. É o abandono num espaço lunar de esgotamento que atrai o imaginário do fotógrafo, e aí o estético desafia o ético.
[Maria do Carmo Serén]



José Afonso Furtado nasceu em Alcobaça, em 1953.
É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Durante largos anos exerceu a sua actividade profissional em organismos governamentais na área da Cultura, tendo sido presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura (1987-1991). Posteriormente assumiu o cargo de director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian (1992-2012).
Publicou várias obras nas áreas do livro e leitura, bibliotecas e novas tecnologias, quer em Portugal quer no estrangeiro, designadamente A Edição de Livros e a Gestão Estratégica (Booktailors, 2009), com tradução na Argentina.
Foi docente em várias instituições do ensino superior, nomeadamente no Curso de Pós-Graduação em Edição – Livros e Novos Suportes Digitais da Universidade Católica Portuguesa. É membro da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027.
Paralelamente, desenvolveu diversas actividades no âmbito da Fotografia decorrentes da sua formação profissionalizante no Instituto Português de Fotografia (1981-1984), onde foi posteriormente docente de História da Fotografia.
Expõe desde 1984. Exposições individuais (selecção): «Das Áfricas», Ministério das Finanças / Galeria Cómicos, Lisboa,1991; «Linha de Costa», Museu da Água, Lisboa, 1996; «Imagens do Vale do Ave», Encontros de Imagem de Braga, 2001; «Paisagem Fim de Século» (com Alberto Picco), Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, 2002; «A Ocupação do Espaço. Fotografias 1998-2000», Galeria Municipal de Arte de Almada, 2004; «Canada do Inferno», Galeria Diferença, Lisboa, 2005. Exposições colectivas (selecção): «Buques en el Muelle / Billetes de Andén», Projecto Lusitânia, Madrid, 1992; «Vale do Mondego» (com Debbie Fleming Caffery e Albano Silva Pereira), 13ºs Encontros Fotográficos de Coimbra, 1992; «Tajo Tejo - Doce objetivos fotográficos», Sala Júlio González, Madrid, 1998; «Rondom Porto», Kunsthal, Rotterdam, 2000; «Luz do Sul – Mês da Fotografia», Palácio D. Manuel, Évora, 2004; «Uma Extensão do Olhar. Entre a fotografia e a imagem fotográfica. Obras da colecção da fundação PLMJ», Centro de Artes Visuais, Coimbra, 2005; «A Fotografia no Douro: Arqueologia e Modernidade / Photography in Douro: Archeology and Modernity», Royal College of Arts, London, 2006; «Por Estes Lugares Adentro», m|i|mo, Leiria, 2012.
Publicou, entre outros catálogos e livros fotográficos: Das Áfricas (com Maria Velho da Costa), Difusão Cultural, 1991; Os Quatro Rios do Paraíso (com Clara Pinto Correia e Cristina Castel-Branco), D. Quixote, 1994; Linha de Costa (prefácio de Bernardo Pinto de Almeida), Contemporânea Editora, 1996; Canada do Inferno (introdução de Maria do Carmo Serén), Edição do Autor, 2005; Contaminações — Minas Abandonadas (Fotografias 1994-2009), Documenta, 2019.
Para além de diversas colecções particulares, está representado nas colecções do Instituto Camões (Ministério dos Negócios Estrangeiros), do Centro de Estudos de Fotografia de Coimbra, da Fundação Belmiro de Azevedo, da Fundação PLMJ, da Colecção Nacional de Fotografia do Ministério da Cultura, do Musée de L'Élysée, Lausanne e do Département des Estampes et de la Photographie da Bibliothèque Nationale de France.
Traduziu On Photography, de Susan Sontag (Ensaios sobre Fotografia, Quetzal, 2012).