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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

«Triângulo», por João Sarmento

João Sarmento, sacerdote jesuíta e responsável pela Galeria Brotéria, apresentou recentemente
 Persistência da Obra II — Arte e Religião, uma edição Documenta.

«Triângulo» é o título da exposição que ocupará os espaços do centro Brotéria de 22 de Abril a 25 de Maio de 2021. Para a preparação da mesma, os artistas receberam três textos: o texto da galeria Brotéria, e textos das curadoras, Carolina Quintela e Eva Oddo. A exposição é organizada pela Catarina Silva e contará com os trabalhos de Carla Castiajo, Catarina Silva, David Correia Gonçalves, Eduarda Rosa, Francisca Carvalho, Horácio Frutuoso, Hugo Bernardo, Pedro Sequeira, Pedro Tropa, Vasco Futscher.


Em 1967, Bruce Nauman desenhou uma espiral em néon, no interior da qual podemos ler as letras azuis que dizem: The true artist helps the world by revealing mystic truths. O conteúdo da mística é a própria natureza do mistério, o assombro, o espanto, o indizível. Contudo, também o acto de revelar é parte integrante do funcionamento da mística, do sagrado e do oculto. A afirmação do néon de Nauman demonstra, portanto, uma espécie de metodologia do fazer artístico como um aprofundamento em infinito, como uma espiral de claridade.

Independentemente do que possa significar ser um verdadeiro artista, podemos reconhecer que existe uma nostalgia demiúrgica no fazer das práticas artísticas. Persiste, sob a ideia de artista, uma sombra dos actos de culto: há uma proximidade entre a produção do mundo da arte e a construção atemporal de símbolos. De algum modo, nas palavras do Mircea Eliade, por «mais avançada que estivesse em determinada época a dessacralização do cosmos, os ofícios conservam ainda o seu carácter ritual.»[1] Por isso, a transformação das matérias-primas, as substâncias moldadas desde os seus princípios vitais, foram manipuladas, pela artesania, na construção dos artefactos, às mãos de alquimistas, xamãs, sacerdotisas e sacerdotes. Neste sentido, parece que se misturavam mais completamente à vida complexa da matéria os seus mistérios invisíveis. Assim, física e metafísica orbitavam na dinâmica do trabalho e do ritual.

Mircea Eliade lembrava que «o sagrado é uma parte da estrutura da consciência e não um estádio na evolução da consciência. Ou seja, não houve uma época em que as coisas eram mais espirituais do que hoje.»[2] Mesmo intuindo uma dessacralização do mundo e da cultura contemporânea — onde os ritos se privatizaram num crescente subjectivismo — persistem ainda hoje múltiplas dimensões não óbvias, latências da experiência do mistério.

Sem ritos, desfalecemos. O ritual pretende atribuir gestos, palavras, elementos que catalisem esse lugar não imediatamente lógico — científico e linguístico. O ritual trata de organizar, dar forma e tempo àquilo que não é apodítico. No fundo, o melhor ritual será aquele que nos fará progredir na pergunta, no inevitável espaço obscurecido do mistério. A ideia da ritualidade em arte será tanto mais significativa quanto mais revelar, trazendo à clarividência o não-saber. É neste lugar que se encontram as práticas que sondam ritualmente os limites da linguagem e dos símbolos, ressignificando-os. Prescrevem modos de relação entre coisas ou seres que aumentam o inesperado, a surpresa, as possibilidades.

Os princípios da geometria foram considerados ao longo dos séculos, em diferentes culturas, como uma metodologia para atingir os elementos da mística, as formas puras; como alvo de uma confluência extraordinária de sistemas simbólicos. A geometria condensa, sintetiza, torna analíticos os modos de representação de um significado. Exemplo disso, o triângulo. Do oriente ao ocidente, reúne grandes valores retóricos, resultando numa forma com um enorme sincretismo. O triângulo está patente em diversas correntes de misticismo, da alquimia babilónica, da cultura egípcia e judaico-cristã. O triângulo está obviamente associado às tríades, às representações dos elementos naturais, à ideia de perfeição e mesmo à ideia da visão plena, do visionismo. Triângulo são três lados infinitos; é, muitas vezes, uma porta que não deixa mais de se abrir — essa porta de Clarice Lispector. Neste sentido, albergamo-nos sob esta forma, a fim de dar a ver as verdades místicas que ocupam cada um dos artistas e das suas práticas.

[Galeria Brotéria]
 
  

[1] Mircea Eliade, Herreros y Alquimistas, Madrid, Alianza Editorial, 9.ª ed., p. 130.

[2] Cit. in Bill Viola, David A. Ross, Peter Sellars, Bill Viola, Nova Iorque, Whitney Museum of American Art, 1998, p. 143.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

«Separação infinita — continuação de cena», por Rodrigo Silva

 Rodrigo Silva, professor na ESAD – Caldas da Rainha, apresentou recentemente
Persistência da Obra I — Arte e Política, uma edição Documenta

(O Tomás pediu-me então que dissesse algumas palavras. Agradeço-lhe, agora aqui em público, muito esse convite, também reparando o dano de não ter podido na altura estar presente no colóquio e cumprimento-vos a todos, agradeço-vos desde já a escuta. Escrevi, para esta ocasião, algumas frases que se foram estendo e que vos gostava de ler.)

«As mãos da gruta Chauvet produzem toda uma outra lição de trevas, porque é aí que o homem reencontra a sua noite, cria a sua claridade e desdobra a sua capacidade nascente de manter com o mundo uma relação constituinte e separada. [...] Nas grutas, trata-se da economia da separação dos vivos com o primeiro sítio que lhes deu a vida, separação que faz aceder o infans à palavra.»
Marie-José Mondzain
 
«Um encontro não é senão o começo da separação.»
Provérbio Japonês
 
«O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.»
Clarice Lispector
 
 
 
1. Nunca soubemos o que foram os começos. Achámo-nos sempre já começados, avançados num tempo sem princípio nem fim, herdeiros involuntários de múltiplas histórias e tempos entrelaçados, cruzados, inapelavelmente compósitos, no meio do diverso e do múltiplo. Estamos sempre a começar e a recomeçar, a procurar novos começos, mas a origem esteve sempre já perdida, mesmo quando a sonhámos como dada para sempre num tempo primeiro, mitificado, num outrora claro e distinto. Mas das origens resta-nos uma bruma, fascinante e indistinta, que julgamos sempre ainda poder vir a reencontrar em certos gestos arriscados, imagens (entre)vistas, alguns fragmentos apagados, algumas palavras perdidas. Não as palavras da tribo, mas as palavras do abismo, do murmúrio, do segredo.
 
2. Emergimos, tacteando, do inseparado e do indistinto. Como em tudo, na expressão das formas vivas e nas coisas do espírito, o movimento vai do simples ao diferenciado, do unido a si para o uno diferindo de si, declinando-se em inúmeras especificidades, singularizações, metamorfoses incontáveis. Esse movimento parece ser também o movimento das culturas e das civilizações constituídas: sinais ténues, indícios terrestres, que testemunham da emergência do novo e de um começo, que nos permitem projectar um surgimento primeiro e inteiro, como se assistíssemos ao nascimento do inaudito. Do simples para o diferenciado: terá sido assim a emergência de cada uma das actividades humanas, as que testemunham da vida do espírito. Gestos simples e inteiros, lançados de uma obscuridade nativa, que se vão mostrando e reconhecendo com novos nomes e tonalidades, identificados e decididos na sua separação e divisão. Assim emergem os modos do fazer e do saber que dão forma ao colectivo e ao viver-em-conjunto: política, arte, religião, sagrado, nomes gregos e latinos, não o esqueçamos nunca, nomes ausentes na língua chinesa e do sânscrito, nomes inidentificáveis nas múltiplas línguas ameríndias e nos povos autóctones, a quem chamamos também «povos primeiros». «Arte», «Política», «Religião» são os velhos nomes migrantes de Atenas e Jerusalém, na princesa Europa, jovem idosa, atravessada por cicatrizes, divisões, separações múltiplas. «Arte», «Política» são os nomes da separação infinita dos gestos simples e inteiros do começo inseparado, com que julgamos reconhecer os gestos do fazer e do saber: os gestos da separação interminável daquilo que nasceu junto e unido, emergindo do inseparado e do indistinto.
 
3. Se a arte e a política são nomes gregos e latinos é porque são esses os nomes mais próprios da «nossa história», das separações internas e intermináveis que a nossa história não cessa de disjuntar e desunir. Mesmo se, sabemo-lo, arte e política hoje são os nomes, urbi et orbi, que se tornaram parte do mundo globalizado da geopolítica e da circulação imparável das mercadorias, do tecno-mundo e das suas ciberesferas. Dizer «a nossa história», é dizer também a história imperialista, colonizadora do Ocidente, dos seus projectos e projecções, que tantas vezes nós Ocidentais e Europeus tomamos como a história-mundo de um planeta que afinal é feito de tantas histórias e outras tantas modernidades, tantas alter-histórias e humanidades-outras, tantas artes, tantas políticas, quantos os lugares, quantas línguas para os falarem. Essa história que se pensou consciente de si e como movimento da autoconsciência da humanidade, que obliterou os plurais das histórias, que se quis centrípeta e se imaginou hegemónica como se tudo convergisse para o centro hipnótico das suas narrativas e categorias, essa história, é aquela que disjuntou aquilo que emergiu junto, puro surgimento indistinto. Quero por isso dizer que esta conjunção do que está disjunto, este face a face de dois distintos — e que em alguns destes textos se afirma como essencial separar — é uma operação interminável: a da separação infinita, daquilo que não cessa de se separar, como duas coisas que emergem distintas do inseparado.
 
4. A nossa história é a história das conjunções mortíferas desta disjunção inacabada, da separação infinita do que surgiu inseparado. Quer dizer: sempre que se deu a indistinção, i.e., a inseparação fusional, a instrumentalização dos meios de uma para os fins da outra (os meios da arte para os fins da política ou os meios da política para os fins da arte), ambas perderam a força que emerge da separação, do uno diferindo de si, daquilo que distingue e que diferenciando faz emergir. Ora o que não cessa de se separar infinitamente e de se distinguir interminavelmente, o que emergiu junto e inseparado, irremediavelmente estará ligado, inextricavelmente entrelaçado, mesmo se nós persistimos na sua distinção. Sim, insistimos, insiste-se nestes textos: il faut, é preciso, separar, estatuir claramente que a arte e a política não podem esquecer de manter a sua separação, apartadas, cada uma com a sua parte, mesmo se essa parte seja incerta e indeterminável, ou até, aberta — pura abertura, esvaziada para um vazio que possa acolher a nossa — a sua da arte ou da política, idem idem — indeterminação nativa. Estes textos afirmam: é preciso separar o distinto, é preciso não persistir em confundir, os meios de uma e os fins da outra e vice-versa. Esse é o exercício imunizante ao qual estamos vinculados como uma responsabilidade histórica: não descurar, não cair uma vez mais na negligência obscena e feroz que consente os pequenos fascismos que guardam a hibernação dos grandes demónios. Os anos 30 estão ainda diante de nós, como escreveu Gerard Granel. E, neste caso, em mais do que um sentido: como recidiva, como ressurgimento, como escreveu o filósofo Michael Foessel num livro recente, mas também como eclosão de sinais do inquietante, sob fundo uma ameaça silenciosa, das alterações do clima e dos ecossistemas. Temos hoje outra preparação para os reconhecer, eles estão aí, nos écrans diariamente, mas contra eles não estamos imunizados, não há vacina possível, para o vírus dos extremismos.
 
5. Temos de imunizar a arte da política e a política da arte — talvez porque o seu múnus, aquilo que passa em comum entre elas, o lote comum que as atravessa de parte a parte, seja justamente aquilo que abre a possibilidade de separar e de distinguir, de singularizar e de partilhar, de assinalar a nossa comum irredutibilidade: distintos e diferentes emergindo do inseparado. Mas o que imunizar quer dizer, hoje nos dias que correm? Sabemo-lo verdadeiramente? Como podemos estar imunizados daquilo que é a nossa condição comum e a nossa fragilidade partilhada, se a nossa condição se revela inextricavelmente com a da inseparabilidade e da interdependência constitutiva, antes de mais na grande rede de conexões e de transmutações que é o imenso reino do vivente? Fizemos talvez sempre e mais uma vez ainda a obra da separação: natureza e cultura, arte e política, arte e religião, política e religião, e dentro destas incontáveis separações e divisões que se replicaram fracturando-se em tantas oposições e dualismos. Separação infinita do que emergiu inseparado: mas não temos hoje, ainda e mais uma vez, a obra do inseparado por fazer? Não escutámos tantas vezes, agora ainda mais uma vez, os apelos da conexão e da ligação, não a das ligações dos cabos e das fibras do digital, mas a das ligações anteriores: a das ligações interrompidas e das conexões caídas, aquelas que hoje queremos restabelecer e retomar, repondo a inseparação nativa?
 
Talvez a pergunta sobre saber se a arte é política só possa ser encetada se primeiro se formular esta: o que surgiu junto será disjuntável? O que nasce uno e inteiro será alguma vez separável ou permanecerá para sempre ligado, inextricavelmente ligado?
 
6. Arriscaria dizer (e isto é, talvez, uma tese em contraponto à substância deste livro): só precisamos de separar o que não é separável, i.e., aquilo que não acabou de começar a sua separação infinita e a sua disjunção interminável, mesmo que o seu começo seja isso mesmo: a separação que fez emergir, que distingue, que assinala, dois gestos, duas acções, dois pensamentos que se instituem diferentes um do outro, um face ao outro, como dois modos de fazer mundo ou de enunciar um nós, de arriscar um comum ou cirscunscrever a vinda de uma comunidade tida ou prometida, aquém ou além de todas as fundações. Dois gestos gémeos, «gémeos não idênticos» como escreve o Tomás, a propósito da separação arte/religião. Mas não é da natureza da gemelidade permanecer inextricavelmente ligado mesmo quando há uma individuação que aparta e distingue dois caminhos, duas formas de ser e de existir?
 
7. Sabemo-lo: as coisas da arte e as da política são inteiramente distintas. Separadas e separáveis. Mutuamente irredutíveis, «precedências desajustadas», escreve a Silvina Rodrigues Lopes. Certo. Dois lugares que não se podem confundir quanto à sua exigência de verdade e de justiça, quanto aos seus protocolos de legitimação e modos de actuação, quanto aos seus limites (históricos, sociais) e formas de manifestação, quanto às suas cauções e genealogias, quanto às coisas que se aprendem e ensinam — se é que possível aprendê-las e ensiná-las — para poder professar uma e outra. Certo. Não acabaríamos de enumerar o que as separa e distingue. Mas sabemos quanto é inumerável e incessante o que as aproxima — basta que façamos todos um exercício de memória íntima (mas também colectiva): quantas vezes não é a «arte» — a poesia, o teatro, o cinema, a literatura — mais política que o que hoje desfila nos écrans como sendo «a política»; quantas vezes, o que as «artes» fazem sentir e pensar não é o afecto e a emoção mais intensamente política que podemos sentir (mesmo se sabemos, claro, como os afectos e as emoções estão hoje profundamente manipulados para as grandes maquinações da cólera e da expiação, colectiva ; quantas vezes o que nos reúne e que nos convoca a estar enfim juntos, não é o diapasão da obra, secreta ou confidencial (ou celebrada numa comunidade de amantes), que escande o ritmo e o espaçamento, o peso e a medida, de uma ressonância desconhecida, que nos comove ou anima. Quantas vezes diante daquilo em que partilhamos uma inspiração ou uma aspiração comum, daquilo que enleva ou que acende o movimento de desejo de futuro, de por vir, essa mesma que parece agora tão ensombrada, tão incerta, claudicante e derradeira.
 
8. À pergunta se a arte é política, estes textos respondem a várias vozes, inequivocamente: não. Ora, a essa pergunta, é possível dar outra resposta: tantas vezes, quantas vezes, incontáveis vezes, ela não foi e é o que de mais político — arquipolítico, escrevia Philippe Lacou-Labarthe com todo o peso solene que ele, em particular, sabia dar à escolha de certas palavras — sim, o que de mais político nos partilhou e inspirou. E acrescento ainda: são e serão hoje escandalosamente e tragicamente insuficientes os meios e os modos para responder, para assumir a responsabilidade, para responder à confiscação do político por todos os poderes que o confiscam, que o instrumentalizam e que o capturaram — a apropriação da política pela lógica do espectáculo e do sensacionalismo, a submissão do espaço público e do jornalismo à agenda hegemónica das narrativas neoliberais, à entrega da política à competição funesta dos bufões histriónicos e do grotesco populista na luta pela conquista do poder e dos lugares da dominação. Mas à encenação estética e audiovisual da política não responde, talvez, uma politização da arte: não responde uma arte feita com os meios da política para os fins da política, mas uma arte feita com os meios da arte para os fins da arte. Aqueles que guardam memória do Inseparado dos gestos primeiros e inteiros, aqueles que guardam a memória do que abre o comum, da abertura ao espaço do encontro e do reconhecimento, da exigência de justiça, da reparação do dano da iniquidade, do espaço livre do encontro de iguais, da justa repartição dos Bens Comuns, do cuidado da casa comum, como diz o Papa Francisco (e saúdo os nossos amigos cristãos católicos, esperando que sejam indefectíveis aliados deste papa), primeiro entre os primeiros a afirmar esse comum nativo, esse comum sem nome, essa a mais alta pobreza comum, de que fala il poverello, anterior a qualquer fraternidade e a qualquer pátria, esse comum que nada poderia confiscar e cuja abertura nativa teremos sempre de pôr a salvo das apropriações mortíferas, dos açambarcamentos e dos monopólios que hoje tomaram o nome da arte e o nome política.
 
9. Dizer que a separação infinita é uma separação que é interminável porque procede do inseparável é dizer: não sabemos talvez ainda o que política quer dizer, não sabemos o que é aquilo de que a arte é o nome. E teremos de persistir em continuar nesse não-saber: não porque não queiramos o saber, mas porque o não-saber (da arte, da política) é aquilo que nos preserva e nos torna indemnes à apropriação, à injunção e à prescrição, àquilo que nos fecha e encerra nas apropriações e representações que disso fazemos, àquilo que nos confina. Arte e política são por isso os nomes e lugares do inapropriável: daquilo que resiste — i.e. — que persiste contra a confiscação e a assimilação ao reconhecível e ao monetizável, ao algorítmico e ao calculável na extracção da mais-valia comportamental (expressão da Soshana Zuboff, agora muito lida) e do adestramento generalizado, à moeda de troca e ao equivalente geral, onde se sustenta a industrialização do sensível pelos media e pelo entretenimento, que tudo cobrem como uma insidiosa sombra ofuscante que nem um vírus mortal apagaria, sabemo-lo. Por isso, à pergunta sobre se a arte é política, é preciso contrapor a pergunta sobre se é necessário que seja política. E teremos ainda e logo de seguida, como na maiêutica platónica ou no método de inquérito heideggeriano, aquilo que é perguntado naquilo que perguntamos: é necessário que política seja política, se política for aquilo em que ela se converteu — no reino — ou melhor, no Império, como sublinha sempre Marie-José Mondzain — do falso e da dissimulação, na competição pelo desmantelamento do Estado e da Coisa Pública face à impotência dos seus escassos e supostos Guardiões? E, logo de seguida, teríamos de perguntar: é necessário que a «arte» seja artística, se o artístico hoje — como mostra o magnífico texto do Federico por exemplo — se converteu na descaracterização e na desconfiguração mesma do que arte já pôde querer dizer como operação da separação e da abertura, i.e., do sagrado? O que é uma arte na época em que a arte se integrou — confinou — voluntariamente e alegremente no reino do mercado e do mercantil, o reino das celebridades e do lifestyle, da competição pela visibilidade e pelo sucesso, aliando-se ao grotesco, heroicizando o informe, erguendo o abjecto como um resto decaído da beleza, erguendo o anómico como um sublime paródico, ao niilismo mesmo? O preço disso — o do cinismo e a indiferença absoluto do mercado e do dinheiro — ainda só agora o começámos a pagar como se vê na indigência aflitiva a que foram votados os artistas e as suas artes quando dependem do mercado.
 
10. Portanto: face a uma arte artística e a uma política política, convertida à politiquice e ao politiqueiro, palavras feias e usuradas à falta aqui de um melhor termo porque justamente essa confiscação não tem conceito mas apenas uma imensa acumulação catastrófica de evidências, é justo pugnar por uma afirmação: vamos, juntos, em busca de uma arte enfim política para que ela nos posso abrir o espaço de uma política enfim livre da política (ainda diria uma «religião livre do religioso» como Nancy, num dos seus livros, pode escrever em eco o dístico de mestre Eckhart, «um deus enfim livre de deus»). Quero dizer: apelemos, juntos, na nossa separação infinita e na nossa disjunção interminável, a uma arte que apele ao que na arte antecede a política porque é ela que abre o espaço, a escuta, a espera, a atenção, àquilo que na política antecede a arte — a antecedência do Inseparado, i.e., da união primeira — mística, talvez, Tomás — daquilo que abre o comum: o viver-junto, a nossa comum interdependência, aquilo a que poderíamos chamar a nossa inseparabilidade constitutiva, ou a que poderíamos dar o nome de, a nossa inseparabilidade nativa.
 
11. Nascemos de um outro, ou melhor, de dois outros, singulares plurais como escreveu uma vez o Jean-Luc Nancy, no título de um dos seus mais belos livros. E como sabemos hoje essa inseparabilidade não só a nossa inseparabilidade entre nós, a inseparabilidade humana: é a inseparabilidade anterior, a inseparabilidade de onde nascemos com que hoje nos confrontamos, sem escapatória possível: a inseparabilidade dos humanos de todas as entidades vivas, o grande todo de onde nunca acabaremos de começar a nossa separação infinita, porque justamente somos hoje, à força de medo e mortalidade, lembrados que não somos separáveis do grande fluxo metamórfico da vida.
 
12. Elas, Arte e Política, são inseparáveis, mesmo quando em separação infinita. Porque provêm ambas do que as antecede mutuamente: ambas provêm do Inseparado de onde provimos, desse comum inapropriável dos mortais que está hoje sob múltiplas confiscações, tantas que nem sabemos bem por onde começar as vastas operações de desconfiscação, ou melhor, talvez pudéssemos dizer, de desconfinamento, que teremos de empreender.
 
13. Não poderíamos e não poderemos perder de vista todas as reservas e objecções sobre a confusão instrumental da arte com a política, no tempo do hipercapitalismo que celebra a apoteose do indistinto e das amálgamas, do «tudo vale, tudo se equivale», porque tudo se pode converter em produto e em bens e serviços transacionáveis. Mas isso não nos pode fazer perder de vista que o que provém do Inseparado é inseparável. Sempre lidará com uma diferenciação constitutivamente interminável que não pode conhecer acabamento nem plenitude. Talvez tivéssemos de assumir e mobilizar a nossa melhor energia, atenção e desejo, no fundo, para a esperança e a véspera de novas núpcias: de um encontro amoroso onde os separados inseparáveis, preservassem o que neles é distinto mas que o assumissem que sem fazer obra comum eles partilham de um mesmo comum nativo. Sim, afirmo aqui, e não é um provocação, apenas uma aspiração íntima, que será do amor da arte pela política que pode nascer uma nova unidade das nossas emoções e dos nossos gestos, iluminados por esse amor que gera emoções em direcção da justiça, da igualdade, do reconhecimento da nossa comum fragilidade e da protecção mútua que nos temos de oferecer reciprocamente, como os amantes do amor se protegem separados apesar de unidos, nos tempos frios e sombrios (estou a lembrar, claro, no livro magnífico do Blanchot sobre a comunidade, onde justamente se trata disto mesmo: da inseparabilidade do distinto, dar arte e da política). Mas como unir aquilo que o tempo inapelavelmente separou? Haverá um Deus, esse de cujos oficiantes dizem que o tempo não pode separar o que o Deus uniu, mas será que haverá um dia um Deus que tornará distinto o inseparável, i.e., que Deus que distinguirá o inseparável de uma arte e de uma política anteriores a qualquer comunidade dada? Diria mesmo, piscando o olho aos nossos amigos da Cristãos Católicos aqui presentes: é de uma outra aliança que esperamos ainda o anúncio e a promessa. Mas talvez este seja apenas mais um exercício de teologia negativa, esse vício impune.
 
14. Arte e política não são a mesma coisa mas são a coisa mesma: o lugar da precedência ou da antecedência, daquilo que cede lugar à abertura do humano, à nossa comum humanidade e que é anterior a todas as artes, religiões e políticas. Encontrar esse lugar vazio, esse lugar em espera ou reserva, esse espaço aberto, esse espaço enfim livre para um encontro, para o lugar da partilha dos distintos. Então aí nesse lugar caem os nomes, não são precisos nomes: arte, política terão sido apenas na memória os nomes transitórios dos gestos intransitivos e imemoriais com que o humano se fez começo livre, encontro de outros e reconhecimento de si. Teologia negativa, certamente, teorias da conspiração espiritual, pior ainda, e por isso detenho-me aqui.
 
15. Resta, enfim, nesta apresentação apresentar o livro. Direi apenas: o Manuel Rosa — aqui ajudado pelo André Maranha — faz os livros mais bonitos que se publicam em Portugal e estes são os mais bonitos de todos. Este tem 280 páginas e doze textos magníficos, todos diferentes mesmo se 6 deles são muito parecidos com outros 6. E que é uma vantagem comercial extraordinária: é que nesta nova edição são mesmo dois livros em duas línguas totalmente diferentes (eu confirmei as palavras são todas diferentes escritas noutra língua, um tal de «francês», textos que parece que são gémeos verdadeiros apesar de falsos), dois pelo preço de apenas um. Ora aí está uma sugestão que deixo ao Manuel Rosa para a cinta do livro: «promoção» — leia o exactamente mesmo livro duas vezes em duas línguas totalmente diferentes, pelo preço de apenas um.
 
(Agradeço novamente ao Tomás o convite que me endereçou para dizer umas palavras e agradeço-vos infinitamente a paciência e a persistência em me escutarem. Obrigado.)
Palavras lidas, na ocasião.
 
 

Rodrigo Silva é licenciado em Filosofia (1998) pela FCSH-UNL, com uma tese sobre Imagem e História em Walter Benjamin e doutorado em Comunicação e Cultura Contemporânea (2007) pela FCSH-UNL, com uma investigação sobre O pensamento do espaço na filosofia contemporânea.
É professor coordenador na Escola Superior de Arte e Design de Caldas da Rainha, onde lecciona desde 1998 na área da teoria da arte, da estética e da filosofia contemporânea. Entre 2010 e 2014 foi subdirector dessa escola e posteriormente director, entre 2014 e 2016. Desde Junho de 2017 é o presidente do Conselho Científico da ESAD.CR.
Tem publicado em diversas publicações académicas, onde tem escrito sobre filosofia contemporânea, artes visuais, teatro e literatura e trabalhado sobre autores como Maurice Blanchot, Jean-Luc Nancy, Jacques Derrida, Georges Didi-Huberman, Jacques Rancière, Valère Novarina, Pascal Quignard, entre outros. Editou e organizou o livro colectivo A república por vir – arte, política e pensamento para o século XXI (Fundação Gulbenkian, 2011), com ensaios de Georges Didi-Huberman, Jacques Rancière, Marie-José Mondzain e Bernard Stiegler.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Persistência da Obra I — Arte e Política


Persistência da Obra I — Arte e Política 
Persistance de l’oeuvre I — Art et politique 

Boyan Manchev, Silvina Rodrigues Lopes, 

Jean-Luc Nancy, Federico Ferrari, Tomás Maia, 

Isabel Sabino 


Organização de Tomás Maia 

ISBN 978-989-9006-63-8 | EAN 9789899006638 

Edição: Dezembro de 2020 
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros 
Formato: 17 × 21 cm (brochado) 
Número de páginas: 280 

Com o apoio do CIEBA 

Edição bilingue: português-francês

«Talvez a arte seja apenas isso — a declaração do nosso
 nascimento. Sempre suspenso sobre um abismo.»

Aqui mesmo, nove anos depois, persisto: a questão da persistência é a questão moderna da arte. Quer isto dizer que o nome «persistência» continua a prestar-se para abordar o que nos está a acontecer desde o advento da modernidade. 
Pois «moderno» é o pensamento do resto (da arte) que se separa da política e da religião — e que, ao separar-se, mostra a arte a si mesma, ou seja, mostra-nos a totalidade da arte. Se a arte existe desde a Pré-história ou, segundo uma outra história, desde os Gregos, o facto é que um tal resto que comunica com toda a arte só se revelou abertamente na era moderna. Daí a extraordinária e abundante experimentação sobre o limite da arte (ou da representação) que, pelo menos desde o primeiro Romantismo, atravessou todos os modos de expressão ou géneros artísticos. A persistência diz isso mesmo em todas as letras: o que atravessa ( per-) a história é o resto, e o que insiste é o todo da arte — a integralidade das formas que voltam até nós a partir de um tal resto. Se isto for compreendido, não haverá necessidade de forjar qualquer pós-modernidade ou, inversamente, sustentar um regresso nostálgico aos tempos pré-modernos. 
[…] 
Por ocasião da presente edição deste primeiro volume de Persistência da Obra, dedicado à relação entre arte e política (volume que se publica pela primeira vez em bilingue, aquando da publicação do segundo volume), proponho um texto inédito — «Igualdade da arte» — que procura apresentar uma tese na sequência da «Introdução» anteriormente escrita (inflectindo, como se poderá notar, o teor desta). Foram igualmente introduzidas pequenas correcções em todo o volume, bem como, no frontispício, uma reprodução de uma obra de Claudio Parmiggiani: um ovo (em mármore branco) encravado entre duas rochas altas no meio de uma floresta. A graça de uma tal peça parece condensar a fragilidade de qualquer criação: das mais estritas condições materiais surge, brotando ou caindo, a promessa de um novo ser. Talvez a arte seja apenas isso — a declaração do nosso nascimento. Sempre suspenso sobre um abismo. 
[Tomás Maia]

Persistência da Obra II — Arte e Religião


Persistência da Obra II
— Arte e Religião 
Persistance de l’oeuvre II — Art et religion 

Boyan Manchev, Alfredo Teixeira, Federico Ferrari, 

Jean-Luc Nancy, Tomás Maia, Paulo Pires do Vale 


Organização de Tomás Maia 

ISBN 978-989-9006-64-5 | EAN 9789899006645 

Edição: Dezembro de 2020 
Preço: 20,76 euros | PVP: 22 euros 
Formato: 17 × 21 cm (brochado) 
Número de páginas: 368 

Com o apoio do CIEBA e do CITER 

Edição bilingue: português-francês

«Proponho hoje esboçar um outro gesto: distinguir arte, política e religião,
 começando por desatar os nós mais apertados de uma tal encruzilhada. 
É a única maneira de proceder, parece-me, para que a obra enfim se liberte.»

A persistência também se faz na e através da diferença — das formas, dos tons e dos estilos. Para todos os participantes, bastou-nos um acordo profundo, ainda que por vezes tácito, sobre a necessidade ou mesmo a urgência de pensar a persistência da arte. Com efeito, poderia mesmo dizer-se que os dois encontros (sobre arte e política, primeiro, e sobre arte e religião, depois) procuram desenhar aquilo a que se poderia chamar a encruzilhada moderna da arte, mostrando a impossibilidade, o impasse ou mesmo o desastre aos quais conduziram as combinações ou as fusões variadas entre estas três vias (arte, política e religião). E sendo a obra (ou a sua ideia), de cada vez, o operador de uma aliança estético-política e/ou estético-religiosa, compreende-se que já se tenha podido responder a esse desastre com a injunção da «inoperância» (désoeuvrement). Todavia, tal nunca implicou que a ideia de obra, confinada exclusivamente ao campo artístico, devesse alguma vez ser abandonada. 
Tal é a razão pela qual proponho hoje esboçar um outro gesto: distinguir arte, política e religião, começando por desatar os nós mais apertados de uma tal encruzilhada. É a única maneira de proceder, parece-me, para que a obra enfim se liberte. 

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Não haverá, pois, um terceiro encontro em torno do par «política e religião» (ainda que, em larga medida, seja esse par — ou essa aliança — a determinar catastroficamente o nosso destino colectivo, e há longa data). O projecto da «persistência» — que finda com este segundo volume — sempre e somente existiu sob o signo da obra. Se subtrairmos a «obra» a esse outro horizonte comum, então talvez comecemos a desaparelhar a política e a religião. Assim, também procurei assinalar que tanto a religião quanto a política — mas sobretudo a política (designando assim o nosso cuidado de libertação partilhada) — permanecem inteiramente por repensar sob outras categorias.
[Tomás Maia]