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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Mário Cesariny [Lisboa, 9-VIII-1923 – 26-XI-2006]

Mário Cesariny e Manuel António Pina

                                                                         Pois no que vi
                                                                         não ver é que há
                                                                         e eu estou ali
                                                                         não estando lá.


        Mário Cesariny, Pena Capital

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

«Reler e pensar a poética de Manuel António Pina», por Maria João Cantinho



Nesta tarefa de alto risco mergulha Rita Basílio, ao abordar a obra poética de Manuel António Pina, oferecendo aos seus leitores um livro que resulta da edição da sua tese de doutoramento, prefaciado pelo filósofo Sousa Dias. Guiada pela proposta de «ler uma pedagogia do literário em Todas as Palavras, de Manuel António Pina, procura aceder aos temas nucleares que, de acordo com a autora, se apresentam na sua poesia, como os da morte, da infância, da língua e da memória. No entanto, a ensaísta revela um conhecimento aprofundado de toda a sua obra, procurando iluminar a sua tese a partir de contaminações de outros textos, em particular o ensaio de MAP, «Ler e Escrever» [1], texto que é tomado como «testemunha da sua própria reflexão sobre o processo de criação» (p. 25), e donde a autora retira essencialmente as premissas para a sua tese da «pedagogia do literário». Do que é que se fala afinal quando se fala de literatura, é justamente a questão que conduz Rita Basílio  —  e nos conduz pela sua mão segura  —  nesta travessia pelo universo poético de MAP.


Ciente de que ao poeta não interessam as grandes correntes literárias, nem os seus conceitos e técnicas maiores, a autora tenta, a partir dos dispositivos e instrumentos analíticos de que dispõe, sulcar outros caminhos, sobretudo a partir do conceito deleuziano de «literatura menor», aludindo aqui, em particular, a uma poética que se faz de forma «extravagante» (p. 15), no sentido em que se demarcou (à época do seu surgimento) e se demarca daquilo a que Deleuze se referiu como uma «axiomática dominante» (a poesia dos anos 70), isto é, «face a alguns lugares literários — excessivamente territorializados pela crítica nacional» (p. 15). Serve-lhe então o conceito deleuziano para estabelecer desde logo uma leitura crítica que procura desembaraçar a poética do autor das suas equívocas leituras. É no primeiro capítulo, intitulado «Uma Entrada pelo Lado de Fora», que aborda as reacções e leituras críticas sobre a sua poesia, em particular no período entre 1974 e 1989. Justifica essa passagem do seu ensaio pela necessidade de compreender a «extravagância» de MAP e o modo como poucos foram os críticos que se revelaram capazes de sair da sua visão familiar e acolher «a inesperada perspectiva de forasteiro que MAP dava desde logo a conhecer.» (p. 15). A sua proposta de releitura parte também da refutação de algumas leituras, como, por exemplo, a de Inês Fonseca Santos, autora do primeiro estudo sistemático sobre o autor, intitulado A Poesia de Manuel António Pina. O Encontro do Escritor com o seu Silêncio, ou ainda de críticos que estiveram ligados à recepção da sua poesia. A integração da obra de MAP no quadro da pós-modernidade, como o fazem alguns, é insuficiente para categorizar a produção poética de MAP, revelando-se, neste sentido, redutora, naquilo que a própria categorização arrasta consigo.


Se a escrita poética era, para MAP, uma experiência que se revia numa «espécie de desejo de falar», de que ele próprio falava, em «Ler e Escrever» (p.39), corroborando uma injunção de T.S.Eliot (p. 268), Rita Basílio quer dar conta do que é esse «falar» que, na óptica do poeta, resulta numa leitura activa ou gesto poiético que é «solicitado a dar resposta» ao que não é, ou que não se deixa formular, esse «monstruoso vazio» que o assombra, em busca da sua expressão ou de uma qualquer forma na língua. Se aludimos aqui a uma procura, a uma tentativa de se transformar, pelo poema, numa presentificação do indizível, então essa é também a experiência do «Testemunho», que a autora reconhece na sua obra Todas as Palavras. Todavia, essa é também a experiência de uma «aprendizagem do incerto», para parafrasear a expressão de Silvina Rodrigues Lopes, referindo-se Rita Basílio a uma aprendizagem da passagem, que encontra na alegoria um modo de expressão privilegiado, como o justifica de forma extensa no capítulo IV, que dedica à alegoria, convocando para este encontro a distinção benjaminiana entre símbolo e alegoria.

Não é apenas a experiência da fragmentação que se encontra aqui presente, mas essencialmente aquilo que a autora caracteriza como o «drama da escrita de MAP» (p. 99), que «começa precisamente por ser o drama de um excesso que exibe uma falta: o excesso de fala, o excesso de significação (pela recorrência constante à citação), o excesso de memória, de anterioridade e, sobretudo, o excesso de consciência da impossibilidade de esquecer tudo isto» (Idem). Duplo e simultâneo, dilacerado acto de memória e de esquecimento, a poesia de MAP conforma essa experiência da falta, a do próprio rasto. É justamente nessa poética que se inscreve o gesto, chamemos-lhe assim, da pedagogia do literário, como leitura activa, leitura por escrito de tudo o que é, foi e será lido no e pelo poema.

Mais do que gesto, a recorrência constante à citação, em MAP, é um acto de leitura. Não é apenas o reconhecimento das marcas que Borges deixou na sua poética que se faz visível, como no extraordinário poema «Emet» (, em que MAP nos diz que a Literatura «é uma arte/escura de ladrões que roubam a ladrões», mas é também esse enigmático processo alegórico que aqui se apresenta, como recomposição/reconfiguração do poema a partir de citações, tal como o colecionador de Walter Benjamin dispõe os seus objectos avulsos, «roubados» ou extraídos, numa nova ordem de significado. Por outro lado, o espaço do poema é também o «insondável lugar que os fantasmas habitam» (p. 275). E do que falará a literatura senão desse espaço fantasmático, a que o poeta, atento às vozes dos mortos, se obriga à escuta? E doravante, certamente, não será possível ler e compreender a obra de Manuel António Pina sem este estudo referencial, atento e rigoroso que lança novas pistas de investigação, que ampliam muito o que até então havia sido feito.

[1] In Revista Portuguesa de Psicanálise, nº 18, Março de 1999.

Texto publicado no JL, com pequenas alterações/correcções.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

“Cada livro é uma pedagogia destinada a formar o seu leitor”* I Maria João Cantinho entrevista Rita Basílio



Rita Basílio nasceu em Leiria, em 1972. É Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Nova de Lisboa e doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea, pela mesma Universidade. Actualmente é investigadora de pós-doutoramento pela FCT, com um projecto intitulado “Por uma Pedagogia Crítica e Criativa”, em torno da obra infanto-juvenil de Manuel António Pina. Autora, entre outros, dos ensaios Manuel António Pina — Uma Pedagogia do Literário (Documenta, 2017) e Mário de Sá-Carneiro − Um Instante de Suspensão (Vendaval, 2008). Tem publicados dois livros para crianças: A Bela Desaparecida (Porto Editora, 2007 —  Prémio Literário Hans Christian Andersen, da Cidade Figueira da Foz) e O Lápis Azul (Textiverso, 2008).



Acaba de lançar um ensaio sobre a obra sobre Todas as Palavras de Manuel António Pina, intitulado Manuel António Pina, uma Pedagogia do Literário. Qual a razão da sua escolha?

Escrevi um ensaio sobre Todas as Palavras de Manuel António Pina porque por vezes acontece (aconteceu-me) não estarmos preparados para começar pelo que “escolhemos”. Dentro da obra de MAP, eu tinha escolhido reflectir sobre a sua escrita dita “para crianças”. Levei dois anos (enquanto lia, paralelamente a sua poesia) a perceber que não me cabia a mim “escolher” por onde começar, mas à obra. Mantive o título do primeiro ensaio falhado porque fortaleci a convicção (sublinhada desde o início por Arnaldo Saraiva, por exemplo) de que não há uma diferença poética de fundo entre os textos em verso e os textos em prosa do autor, seja qual for a forma como os decidamos catalogar.


Significa isso que o autor resiste a uma catalogação tradicional?


Estou convencida que a Obra resiste (intransige mesmo, ou é irredutível) a qualquer catalogação tradicional (ou outra). MAP não se opôs (não são essas as suas preocupações) à distribuição da sua escrita por “géneros” —  lírico, narrativo, dramático… ou por “subgéneros”, ou seja o que for –, mas não deixou de expressar, com acutilância, o que pensava sobre a tirania das “catalogações” e sobre as consequências críticas  —  para a leitura de uma obra (falando, no caso, a propósito da subvalorização da literatura infantil)  —  que delas derivam : “Trata-se de algo mais ridículo e perigoso: a hierarquia dos géneros (já não bastavam os géneros!) Trata-se da militarização da literatura: a epopeia é o general, a quadra popular o soldado raso… É ridículo!”


Parte da ideia deleuziana de literatura «menor» para entrar na obra do poeta. Porquê?


A primeira “razão”, digamos assim, foi-me solicitada precisamente pela Literatura infantil. O hábito de se considerarem “menores”, em sentido comum, os textos vulgarmente catalogados como “infantis”, ou “para crianças”, advém fundamentalmente das formas de uso de tais textos; subestimamo-los por um preconceito inconcebível: o de os considerarmos “destinados” a crianças, como se este “destino” não fosse, afinal, a mais alta e imprevisível promessa de futuro.

O conceito de “Literatura Menor”, no sentido em que é proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari, remete para um particular uso da língua que não só não visa a adequação aos preceitos e valores consignados como “maiores” pelas instituições políticas e literárias dominantes ‒ questões de autoria, questões de géneros, questões históricas, socio-ideológicas, etc. ‒ como resiste a qualquer institucionalização, desconstruindo, de dentro, os seus modelos, estratégias de poder e discursos legitimadores. É num uso menor da língua que o “poder” é, intransigentemente, posto em questão e em causa em favor de uma aproximação ao “impoder”  —  ao que é sem legitimação institucionalizável, ao que é marginal, ou imperceptível, ao que é imprevisível e singular  —  numa palavra: ao menor. Há, inapelavelmente, uma dimensão política em toda a Literatura Menor, a própria língua é irredutível e insubordinável aos ditames dos discursos dominantes. Foi isso que senti, desde as primeiras leituras, que acontecia na obra de MAP. Trata-se da invenção de uma língua dentro da língua ‒ da aprendizagem de um novo idioma, daí a “pedagogia”. Uma Literatura Menor, prescindindo, por condição e definição, dos modelos, conceitos e valores oficiais, solicita a invenção da uma outra forma de inteligibilidade ‒ é da leitura que tal escrita devém. Numa das entrevistas que deu, MAP é peremptório neste ponto: “A literatura é feita também (sublinha-se também) pelos leitores que a lêem”.
Não consegui (ainda?) aprender em que língua falam os livros “para crianças” deste poeta, e não há garantia alguma de que isto possa vir a acontecer. As obras falam, para além do que dizem  —  “É o infalável que fala”  —  diz MAP; toda a obra é um “infalável que fala”. Enquanto eu só conseguir ouvir os ecos dos meus próprios lugares comuns, enquanto só ouvirmos o que estamos habituados a dizer, não aprendemos nada, nada nos muda, mais vale ficar calado.


O título do seu livro, Uma Pedagogia do Literário, é irónico?


Numa das suas últimas entrevistas, intitulada (ironicamente?) Aprender finalmente a viver, Jacques Derrida diz: “Cada livro é uma pedagogia destinada a formar o seu leitor”.
As palavras, sabemo-lo bem, mudam de sentido quando mudam de lugar, talvez sobretudo porque mudam o sentido do lugar. Este título estava destinado, como referi atrás, a um ensaio sobre essa face da obra de MAP a que chamamos “para crianças”, e o sentido que então lhe dava era mais expectável, digamos assim, a “pedagogia” remetia para o sentido usual do termo: orientação da criança para a aprendizagem (no caso) da literatura ou de isto (nos termos do autor) que se convencionou designar como “literário”.
Quando a repito, como subtítulo, na leitura de Todas as Palavras, a expressão, sendo a mesma, já não é a mesma, ou melhor: é e não é a mesma, para sermos fieis à construção do pensamento de MAP e à compossibilidade dos opostos a que nos dá acesso. A pergunta, todavia, impõe-se: é o livro Todas as Palavras que agencia a sua própria “pedagogia” (no sentido para que remete a citação de Derrida, por exemplo), ou é o “literário” o agente pedagógico que orienta e guia o Poeta ao longo do processo escritural-existencial da sua própria aprendizagem de leitor de todas as palavras (e de todas as lembranças)?
Creio que, neste sentido, o título é e não é irónico. Não me lembraria de o olhar sob a perspectiva dessa linha de fuga, só a sua pergunta me poderia fazer chegar aqui. O extremo mais incisivo da ironia é aquele em que a indecidibilidade se torna intolerável, o momento em que só posso responder: “não sei”. Este “não saber” nunca é estéril, é a “impossibilidade” que nos faz pensar: “Ao poema tudo é possível e nada é impossível”. É entre o “tudo” que é possível e o “nada” que é impossível que a criação acontece. Há uma ironia de base em toda a escrita de MAP, a que se joga na compossibilidade, no Poema, do “tudo” e do “nada”, do “sim” e do “não”, do “erro” e do “acerto”  —  se os dualismos se dissolvem na indecidibilidade, somos solicitados a pensar para lá (aquém ou além) deles. A “pedagogia do literário” é ensinamento ou aprendizagem? Ou é ensinamento porque aprendizagem? Ou, ironicamente, é um modo de tornar manifesto que nunca sabemos realmente o que aprendemos, que é sempre um “Outro” que (nos) ensina?


Pareceu-me ler (talvez esteja enganada) na sua leitura algo que encontra a sua afinidade com um conceito de despossessão ou de esvaziamento. A aprendizagem passa sobretudo por esse processo de desconstrução do poema e do texto, como uma arte do devir que recusa o sistema e o fechamento. Concorda?


Concordo, sim, há, na leitura que proponho, uma afinidade com as palavras que refere e com as experiências para que remetem. E a palavra “afinidade” interessa-me particularmente nesta resposta. Em química, por exemplo, chama-se “afinidade” à tendência intrínseca que leva cada substância a reagir (e há união nesta reacção) com outra substância. Em sentido afectivo, sabemo-lo, a palavra “afinidade” significa atracção por semelhança, sintonia ou simpatia (outra palavra muito profícua para falar da obra de MAP). Esta afinidade com o conceito de “despossessão ou de esvaziamento”, que sublinha na minha leitura, provém desse encontro entre o leitor e o texto: “quem lê, lê-se”, diz o poeta que, numa entrevista, diz também que vê o escritor que reconhece na sua escrita como “um leitor lendo-se a ler”. É como “leitor” que o poeta de Todas as Palavras começa por indagar o “excesso” de “possessões” que o afectam e a que reage; MAP indaga a própria questão da “posse” que se joga entre o conceito de “possuir” e a experiência de se sentir “possuído”: “Mas a casa/ a existência, não são coisas que li?” ou, noutro poema: “Já li tudo, já fiz tudo (quem?)”. O conceito de “despossessão” tem assim, em MAP, um sentido bífido que aponta, por um lado para um excesso  —  de palavras e de memórias, por exemplo  —  que (o) possui e de que precisa de se libertar e para uma perda (um desaparecimento) de alguma coisa que esse excesso, ao possui-lo, o fez esquecer (“eu quem?”).
A aprendizagem passa sobretudo por um processo de desconstrução, sim, no sentido proposto por Derrida: intransigência na releitura agenciada pelas perguntas que nos afectam. MAP di-lo assim: “E a pergunta / afligiu-me tanto por dentro e por / fora da cabeça que tive que voltar a ler / toda a poesia desde o princípio do mundo.” A “desconstrução” é uma pedagogia do pensamento que acho muito interessante perspectivar, enquanto arte de ler e de escrever, (e usando as suas palavras), como “uma arte do devir que recusa o sistema e o fechamento”. Há uma poética da “desconstrução” em MAP, neste sentido, palavra que tem afinidade profunda com o sentido poético-filosófico do conceito de “desaprendizagem” de Caeiro, por exemplo.


Cito-a: «Como uma espécie de «Billy the Kid» da poesia portuguesa, MAP entra no panorama literário dos anos 70 como alguém que se estranha, que é estranho e é estranhado, porquanto escapa à ordem (à língua) comum e dominante». Fala desse «estranhamento», relativamente à obra de MAP, na década de 70 e na dificuldade da crítica aquando da sua recepção. Estranhamento que não é apenas «político», como já referiu, mas também pelo facto de não se enquadrar nos cânones e paradigmas da sua época. E hoje?


Hoje já é um pouco tarde para isso. Os teóricos do “pós-moderno” (conceito que evitei sintonizar com a poética de MAP) já o disseram de múltiplas maneiras. Falam para a “crítica”, sobretudo, estes pensadores. Eu sei que me arrisco ao fazer esta referência a um conceito que, de certo modo, se esvaziou de sentido: o que entendemos, nos dias de hoje, por “crítica literária”, por exemplo? Há uma solicitação muito premente nesta pergunta, a mesma que leva MAP a interrogar-se “porque escrevo?” — “porquê a poesia, / e não outra coisa qualquer: / a filosofia, o futebol, alguma mulher?”. Se, enquanto leitores, mergulharmos a fundo nesta questão seremos solicitados a perguntar também: porque escrevo “isto” e não outra coisa qualquer? E esta pergunta determina tudo o que possamos vir a fazer ou a pensar. Quando Lyotard fala do “fim das grandes narrativas”, quando torna manifesta a descrença nas metanarrativas legitimadoras de tudo o que incluem, põe (entre tudo o mais) o conceito de “crítica” (nos termos do uso que convencionarmos dar-lhe) em questão. Ora, se todo o “crítico” é um leitor, se (e restrinjo o âmbito da reflexão à escrita de MAP) todo o leitor (quando se pretende tornar manifesto enquanto tal) é um escritor, esta questão da “descrença” afecta a escrita e, necessariamente, a leitura dela. MAP foi, desde sempre um leitor crítico e um leitor do que chamamos “crítica”, as questões que os teóricos da literatura, da filosofia, até da ciência e da religião problematizavam eram já parte integrante da problematização da sua própria experiência de leitura e de escrita. MAP nunca escreveu “contra” o panorama literário dos anos 70, o seu interesse por “isto” a que chamamos “literatura” é que estava demasiado distante das preocupações “maiores” focadas na “literatura” enquanto “Literatura” (questões de “cânones e paradigmas”, por exemplo, como refere na pergunta). Em MAP, “isto” é uma questão que o escritor tem consigo mesmo. É o que falta que fala —  uma outra coisa ainda — essa que se estranha e que é sempre estranha — que solicita o poeta, que o leva a indagar, indagando-se. Arrisco dizer que, talvez, um dos problemas que nos afecta a todos (escritores e leitores) seja o facto de termos deixado de “estranhar” seja o que for, se nada nos é estranho, nada nos surpreende, inquieta ou solicita. A descrença radicalizada leva à apatia e à redução de tudo ao mesmo; talvez passe por aqui o que a Literatura (independentemente do que designarmos por “isto”) nos continua a ensinar: a importância, para a nossa vida, da “suspensão da descrença”. Ser-nos-á possível ainda?
Continuando a fugir ao âmbito da pergunta (peço desculpa por isso), queria dizer ainda isto: a literatura (dita) para crianças de MAP é uma pedagogia desta desaprendizagem da descrença, criação de uma nova possibilidade de “estranhar” o mundo, a língua, o eu, o pensamento, a emoção  — estranhar quer dizer não dar por adquirido, por já sabido, por acabado. Gostaria de vir a conseguir argumentar isto em que acredito: a Literatura para crianças é para os adultos!


Um dos capítulos de que mais gostei foi aquele em que trata da alegoria. Por várias razões podemos considerar que a poesia de MAP assentava sobre um procedimento alegórico, não num sentido tradicional, mas benjaminiano. De onde vem esse saber lutuoso de MAP, que é convocado na sua poética?


Poderia começar a minha resposta com estes versos de MAP: “Ouvir-me-emos /  —  não é a morte o que as palavras procuram? /sob tanta terra?”
Concordo que há “um saber lutuoso” que atravessa todas as palavras de MAP, ainda que este “saber” seja, por sua vez, atravessado por um outro  —  chamemos-lhe “irónico”  —  que impede a morte de coincidir consigo mesma no luto. Começar uma Obra com o verso — “Os tempos não vão bons para nós, os mortos” —  é bem um modo de tornar manifesta a consciência da morte, sem que esta coincida (ainda que sob ameaça) com a afirmação negativa de um fim.
Diz Bejamin que «a alegoria […] não é uma retórica ilustrativa através da imagem, mas expressão, como a linguagem, e também a escrita» (Benjamin, 1925: 176). Benjamin é explícito na diferença que estabelece entre a alegoria, a linguagem e a escrita: ser “como” não é ser “o mesmo”, há um desajuste na aproximação comparativa: a alegoria é mais e é menos do que a linguagem, do que a escrita, é irredutível à própria forma  —  arriscaria designá-la como “forma informe”, para convocar a profícua expressão proposta por Rosa Maria Martelo a propósito da Poesia.
Os versos do segundo poema de Todas as Palavras, por exemplo, expressam elucidativamente essa dissonância sem conflito que faz da alegoria a expressão privilegiada do intotalizável e, consequentemente, do ilimitável: “Já não é possível dizer mais nada/mas também não é possível ficar calado. / Eis o verdadeiro rosto do poema. /Assim seja feito: a mais e a menos.” Ao mesmo tempo que se afirma a perda, a morte de uma possibilidade, afirma-se a impossibilidade do fechamento nesse impossível, é dessa fenda que devém a linha de fuga que abre ao “verdadeiro rosto do poema” —  o que é feito devém da fissura ou das margens da ruína do “todo”: é, por isso, instável, improgramável, imponderável  —  é um fazer (poesis) que devém por excesso e por subtração. A expressão alegórica é a narrativa (tantas palavras, tantas lembranças!) dessa falta que fala aquém ou além do que é ou pode ser dito. Talvez não seja totalmente descabido aproximar a experiência da expressão, a que Benjamin chama “alegoria”, do “infalável” que, segundo MAP, “fala” em todas as palavras: “É o infalável que fala”, um “infalável” que, por excesso e subtração carece de de-finição (impossibilidade de lhe determinar um fim que o feche em forma de conceito), é sempre expressão narrativa de um Outro (de uma outra coisa), essa que devem da imponderabilidade do que é “a mais e a menos”.
Neste sentido, a alegoria, em MAP, torna manifesto o “saber lutoso” implicado na perda, ao mesmo tempo que ilumina o desajuste da própria experiência da morte diferida, observada e mediada pelo Outro. No poema «A morte de Mao», isto é dito assim: “Aquele que morreu não o saberá nunca. / A morte é propriedade dos vivos, /aquele que morreu já não vive nem está morto.” É nessa irredimível fenda ou fissura que o olhar do alegorista se abre como expressão da descoincidência, da não-totalidade que faz da necessidade do luto uma via de aprendizagem da perda, e  —  sabemo-lo  —  só deseja aprender aquele que se recusa a sucumbir.
O luto como terapia, não como mortificação. “A literatura é uma saúde”, como diz Deleuze.


* Expressão de Derrida

Revista Caliban, 3 de Junho de 2017 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Manuel António Pina – Uma pedagogia do literário I Rita Basílio


Manuel António Pina – Uma pedagogia do literário

ISBN: 978-989-8834-29-4

Edição: Março de 2017

Preço: 22,64 euros | PVP: 24 euros
Formato: 14,5x20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 344



Este não é apenas um texto entre outros publicados e por publicar, pretéritos e futuros, sobre a obra poética de Manuel António Pina. O ensaio de Rita Basílio é o livro que faltava, que era urgente escrever, sobre essa obra […] Com um rigor analítico expressivo da paixão pelo objecto de análise, Rita Basílio restitui-nos em toda a sua complexidade a grandeza desta poesia ao mesmo tempo tão simples e sempre tão bela, desta voz «pós-pessoana» (Eduardo Lourenço) exterior às correntes e genealogias poéticas modernas. O presente ensaio, longe de se arrogar a última palavra sobre a poesia de Manuel António Pina, explicitamente pretende suscitar outras percepções, outras leituras teóricas dessa obra. Mas ele perfila-se desde já como a exigente fasquia com que tais leituras terão doravante de medir-se. [Sousa Dias]

Parto da hipótese que me põe à prova: a de ler uma pedagogia do literário em Todas as Palavras de Manuel António Pina. O autor não se interessa pelas grandes teorias do saber, pelas grandes correntes literárias, pelos conceitos e técnicas maiores, interessam-lhe as relações que, nos e pelos textos, se estabelecem com a língua e com a memória, com a morte e com a infância, com o mundo e com o silêncio. É o menor (esclarecer-me-ei teoricamente com Deleuze) o domínio epistemológico da aprendizagem do literário que esta obra solicita.
É sempre a meio de um lugar aberto por um talvez, um como se, que as hipóteses se ligam à possibilidade de experimentar saber para além – ou para lá – do que é sabido.
Ensaio, neste estudo, alguns modos de dar resposta à solicitação que em Todas as Palavras é aprendizagem de um pensamento sobre a própria literatura, sobretudo enquanto processo que agencia publicamente um não-saber, «um vazio privado» que, por isso mesmo, «há-de querer facultar-se», solicitando acesso. […] [Rita Basílio]

Rita Basílio nasceu em Leiria em 1972. Investigadora. Publicou, entre outros, o livro Mário de Sá Carneiro – Um Instante de Suspensão (2008). Trabalha actualmente sobre a literatura para crianças de Manuel António Pina.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo I Manuel António Pina



Dito em Voz Alta – Entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo
Manuel António Pina

Organização de Sousa Dias

ISBN: 978-989-8834-27-0

Edição: Junho de 2016

Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm [brochado]
Número de páginas: 224


A literatura nunca deixou de ser, na minha escrita, possível, mas a palavra literária (a palavra poética ter-se-á esgotado excessivamente a convocar o ser e o mundo (a ser ser e mundo) e terá, a certa altura, caído em si, percebendo que talvez se tivesse negligenciado como instância, também, e mais modestamente, de nomeação do ser e do mundo, e experimentando então «saudades da prosa». Mas tenho, de facto, consciência de que, desde Cuidados Intensivos (ou, talvez antes, desde Farewell Happy Fields), existe na minha escrita uma espécie de reconciliação com a literatura (com a poesia), que passa tanto pela aceitação dos seus processos como da sua memória.
Um dos últimos poemas que escrevi fala das «minhas últimas palavras», aquelas que, «por cansaço, por inércia, por acaso», foram ficando, e com quem, agora, «como velhos amantes sem desejo» desfio memórias. [Manuel António Pina]

Manuel António Pina [1943, Sabugal-2012, Porto] formado em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1971, exerceu inicialmente a advocacia e foi jornalista e cronista no Jornal de Notícias até ao seu falecimento. Autor de textos para a infância e juventude e de uma obra poética das mais originais da sua geração, recebeu inúmeros prémios, entre os quais podemos destacar o Prémio Literário da Casa da Imprensa, em 1978; o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens e a Menção do Júri do Prémio Europeu Pier Paolo Vergerio da Universidade de Pádua, em 1988; o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava e o Grande Prémio de Poesia da APE/CTT, em 2005; e o Prémio Camões, em 2011.

sábado, 18 de maio de 2013

Manuel Clemente



Manuel Clemente (Torres Vedras, 16-VII-1948), o novo Patriarca de Lisboa, aqui com Manoel de Oliveira, Manuel António Pina e Manuel Rosa numa sessão de lançamento de um dos seus livros editados pela Assírio & Alvim (Porto, Palácio da Bolsa, 14-XII-2010). 

Bispo do Porto desde 2007, é licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, licenciado em Teologia e doutorado em Teologia Histórica pela Universidade Católica Portuguesa, onde , desde 1975, passou a leccionar História da Igreja. 

Na Pedra Angular (distribuição Documenta) estão disponíveis os livros É Este o Tempo — A experiência da missão e Um Só Propósito - Homilias e Escritos Pastorais. [fotos: Luís Guerra]

Entre várias distinções, destaca-se o Prémio Pessoa 2009. Recordemos alguns excertos de uma entrevista ao Expresso:

«Inquieto, disponível para o debate, D. Manuel Clemente, Prémio Pessoa 2009, contraria a imagem do Bispo fechado na redoma. Frequenta as livrarias, circula de metro pela cidade e cultiva o prazer de estar com os outros .
Cansado, com a voz a denunciar a iminência de um resfriado, D. Manuel Clemente recebe-nos numa tarde de domingo, no final de uma visita pastoral de três dias. Dali a algumas horas vai partir para Torres Vedras, sua terra natal. Pelo meio, ainda tem tempo para falar de Portugal como um país crítico, das questões de Deus e da Igreja e do impacto da crise social na sua diocese.

Pode ser feliz uma sociedade onde não há emprego? 
Não, não pode. Na nossa concepção cristã, o trabalho não é algo exterior à pessoa. 
Não é um simples meio ou expediente de sobrevivência. A realização de uma sociedade feliz é a realização de uma sociedade com trabalho. Não tenho dúvidas nenhumas de que a infelicidade que muita gente sente na sociedade portuguesa passa muito pelas dificuldades na obtenção de trabalho.

[…]

Há algum devir histórico nesta espécie de casamento sem divórcio entre Portugal, os portugueses e a crise? 
É uma pergunta bem posta, porque abre um filão. Portugal é um país crítico. Não tem nenhuma razão de auto-suficiência e, no entanto, é o país com fronteiras definidas mais antigo da Europa. Mas nunca teve possibilidade de se sustentar sozinho. 
As nossas crises cerealíferas na Idade Média são endémicas. Nunca teve possibilidades, até humanas, quando foi da expansão ultramarina, de garantir uma imensidão como aquela por onde se espraiou. Não tinha possibilidade, no século XVII, de garantir, só por si, a sua independência. Depois do ouro do Brasil, o país fica destroçado. Demorou 50 anos a recompor-se, quando grande parte da Europa já estava mais à frente. Mesmo no século XX tivemos situações de pobreza muito difíceis de ultrapassar em todos os campos. Portugal, como estudo de caso, é uma coisa apaixonante, porque é um país que não tinha nenhuma razão para subsistir e subsiste. Os portugueses subsistem apesar de Portugal.

[…]

Sendo uma pessoa que muito se questiona, debate-se com alguma pergunta para a qual gostaria de encontrar resposta? 
Sim. Gostaria de perceber a relação da religião, e concretamente do cristianismo, com dois sentimentos básicos e dificilmente conjugáveis, na Humanidade e na Igreja, que são a segurança e a liberdade. Vou chegando a algumas conclusões, mas sobretudo concluo que é muito difícil.» 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Onde estás agora / Oh meu amigo?



ONDE ESTÁS AGORA?
                                           ao MAP

  
Onde estás agora
Oh meu amigo?
Nem dentro
Nem fora
Nem muito longe
Nem muito perto
Talvez nos primeiros
Raios da aurora
Talvez no deserto
No mais incerto
E improvável
Lugar

Onde estás agora
Oh meu amigo
Que não te oiço?
Talvez no fim
Da estrada
Envolto em poeira
Numa cadeira
De baloiço
Em frente ao grande
Tudo
Ou ao grande
Nada

Jorge Sousa Braga