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sábado, 17 de junho de 2023

Desejo e Destino — Conversa em torno do Desenho com Cristina Robalo

Desejo e Destino — Conversa em torno do Desenho com Cristina Robalo
Manuel Rodrigues, Cristina Robalo


ISBN 978-989-568-086-3 | EAN 9789895680863

Edição: Março de 2023
Preço: 16,03 euros | PVP: 17 euros
Formato: 14,5 × 20,5 cm (brochado)
Número de páginas: 176 (a cores)
Com o apoio da Fundação Carmona e Costa e da DGArte


Manuel Rodrigues: «O desenho é mais um modo de ler, talvez por isso o sinto próximo da escrita, mais do que da pintura, por exemplo.»

 



Em seis encontros, num total de dezasseis horas de gravações, as conversas tiveram lugar em Santiago de Rio de Moinhos, numa casa de traça alentejana, rodeada pelo ar quente e fresco do campo. Tratou-se de um compacto de várias horas de conversa concentradas em somente três dias. Conversávamos de manhã até à hora do almoço — momento de pausa que servia para alinhavar os passos seguintes — e regressávamos ao escritório para continuar até ao anoitecer. A gravação destas conversas era preciosa, uma vez que pessoalmente não se iriam repetir. Os temas e as questões foram alinhavados, contudo as histórias sobrepõem-se sempre à trama inicial: o primeiro desenho desfaz-se para se refazer noutro. Por outro lado, levava comigo a configuração de um desenho e, sem dúvida, que também levava o mote de Petrarca. O que ainda não sabia é que seria ele a fazer-se desenho: previamente ao que já conhecia — o saber teórico a favor do ensino e o tema, alicerce da nossa amizade, do desejo. No desenlace deste desenho, e à semelhança do processo de criação, o ‘durante’ é visível, respectivamente, através das múltiplas aparências da criação, da «figura do criador», da ligação entre imagem e semelhança. Esta linha que atravessa o espaço prévio até ao ‘durante’ foi imperativa de traçar, mas importa o ‘depois’, aquele que é realmente o território de Manuel Rodrigues: sem deixar cair na totalidade a teoria, mas aproximando-se cada vez mais de uma prática de desfazer a língua para a (re)fazer ao tom do seu desejo, do seu destino, e, sobretudo, caçar-lhe a forma que, mesmo não se vendo, é desenho. Portanto, o que está aqui em causa é o tempo que demora a agarrar o poeta com que se sonha.

A minha atenção e intenção foi não perder matéria alguma, na passagem da gravação à transcrição, com o objectivo de construir uma narrativa, desenhar um elenco e traçar um destino para o mote: um processo de descoberta que se assemelha àquilo que já se conhece e, no entanto, ao fazer-se, se desconhece na sua configuração final. As difíceis tarefas de selecção, de organização e de edição encontram sempre grande demora na acção de cortar. Cortar para que a leitura possa ser absorvida de um modo compreensível e de continuação. Deste modo, numa tentativa de ser fiel à oralidade (que nem sempre se pode cumprir), ao acompanhar o seu caminho, seguir o seu destino e desvendar o seu desejo que aí permanece, descobri em Desejo e Destino uma figura que se transforma, larga a sua pele, no desenho da poesia.

[Cristina Robalo]

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Sobre «Palavras Aladas», por José Tolentino Mendonça


O QUE TORNA MUITAS VEZES INESQUECÍVEL O VERÃO É A FORMA COMO ASSOCIA CONVERSAS E CAMINHOS
 
Nesta estação sabe bem uma conversa com vagar, sem propósito imediato e que se alongue como uma viagem por dentro do tempo. São assim as conversas que os atalhos do verão permitem ou as que, por exemplo através da leitura, podemos escutar a outros. Li recentemente a esplêndida conversa que Maria Filomena Molder manteve com Cristina Robalo e que a Editora Documenta publicou com o título “Palavras Aladas”. A expressão “palavras aladas” é uma daquelas fórmulas a que Homero recorre com frequência na sua poesia, quase sempre para introduzir o discurso direto, típico das conversas. E palavras aladas porquê? Porque numa conversa as palavras têm asas, saem da boca e voam com a fantasia dos pássaros, com a veemência veloz das flechas, expandem-se e fluem no aberto como auriflamas ou pairam mesmo se pobremente, intercalam-se, interrogam-se, esclarecem-se, revelam no enxame do som novas possibilidades. Como diz Filomena Molder, são aladas porque “vão pelo ar até aquele que está ao pé de mim” e porque são mais preciosas do que a subestima que frequentemente lhes dedicámos. É belo o modo perentório que a filósofa assume: “Nunca serei das pessoas que acham que as palavras valem menos do que quer que seja. Não, não!
 
Nunca serei dessas pessoas.” Uma conversa é também uma oportunidade para reborar ou redescobrir o valor das palavras, sem o qual a vida é menos. Precisamos, porventura até mais do que estamos dispostos a reconhecer, de acostar as nossas palavras às dos outros, de dar tempo à hospitalidade mútua que é a audição, de enraizar essa forma de companhia.
 
Recordo especialmente as palavras que Maria Filomena Molder dedica à sua arte, a filosofia (“a filosofia implica um comércio profundo com a vida... é um esforço de ver mais claro... é um gesto contemplativo...”), evocando mestres importantes no seu percurso, como Giorgio Colli ou Fernando Gil. Aquelas com que descreve as imagens construídas por algum motivo na infância e que depois nos habitam a vida inteira (“As imagens da infância jorram, são inevitáveis, são o nosso alimento... Provavelmente, das mais profundas não temos notícia, alimentam a nossa vida e nós ainda não chegámos a elas”). Ou as que utiliza para explicar o grande, escondido e inescusável confronto que mantemos com a morte (“Olhe, Cristina, acho que não há nada criativo, em nenhum povo, que não seja uma forma de enfrentar a morte, de lutar contra ela, de a banir”). Mas as palavras que me fizeram, terminada a leitura da sua conversa, entabular outras ainda são as que lhe servem para falar dos pés. Os gregos antigos sabiam que a mesma condição alada podia unir palavras e pés (pense-se na figura de Hermes). E o que torna muitas vezes inesquecível o verão é a forma como associa conversas e caminhos.
 
Molder cita o que leu no livro de Osip Mandelstam “Conversas sobre Dante”. Para Mandelstam, em Dante Alighieri poesia e filosofia estão sempre a caminho, palmilham tudo a pé.
 
PRECISAMOS, PORVENTURA ATÉ MAIS DO QUE ESTAMOS DISPOSTOS A RECONHECER, DE ACOSTAR AS NOSSAS PALAVRAS ÀS DOS OUTROS, DE DAR TEMPO À HOSPITALIDADE MÚTUA QUE É A AUDIÇÃO, DE ENRAIZAR ESSA FORMA DE COMPANHIA 
 
Por isso, “o Inferno e ainda mais o Purgatório celebram a caminhada humana, a medida e o ritmo dos passos, o pé e a sua forma”. Uma das obras mais curiosas publicadas no âmbito do VII centenário da morte de Dante (celebrado em 2021) é a assinada por Giulio Ferroni, mais de mil páginas para nomear os lugares e as errâncias que compõem a geografia da “Divina Comédia”. Não admira que Filomena Molder parta daqui para defender que “o pé é uma medida da vida” e que “nesse aspeto vivemos numa época de perda imensa, nós que já não sabemos quase nada dos nossos pés”. Em cada verão, porém, estamos como que a tempo de remediar esta perda.


 [José Tolentino Mendonça]

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Palavras Aladas – Maria Filomena Molder conversa em torno do desenho com Cristina Robalo

Palavras Aladas – Maria Filomena Molder conversa em torno do desenho com Cristina Robalo
Maria Filomena Molder, Cristina Robalo


ISBN 978-989-568-016-0 | EAN 9789895680160 

Edição: Junho de 2022 
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros 
Formato: 14,50 × 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 184 (a cores) 

Com o apoio da Fundação Carmona e Costa e da DGArtes


Cristina Robalo: «Conversas em torno do desenho» nasceu do desejo de compreender, nas mais variadas traduções e desmultiplicações, o Desenho. Ao dar voz a artistas e teóricos/pensadores — seguindo e traçando o caminho realizado por cada convidado a participar —, este projecto tem como objectivo criar uma colecção que revele não a representação do desenho como obra, projecto ou estudo, mas o Desenho da obra e de si. 



De onde vêm as imagens? 
Vêm dos nossos olhos, dos nossos ouvidos, da nossa boca, das nossas mãos, do nosso nariz, dos sentidos em acção, não os sentidos descritos anatomicamente, vêm dos aromas, o tal vento de Eduardo Chillida, o espaço e o tempo: «Não é o vento um espaço de tempo e aromas?». 

Quais são as imagens do cheiro? 
O cheiro é um sistema de convocatórias. Nós não temos imagens diferidas, representáveis, do cheiro. Isso é muito importante! Como é que nós transmitimos o aroma do vento? Sentindo o vento e aquilo que o vento arrasta. E o tempo tem a ver com isso. Portanto, quando se fala do aroma do vento, para quem quer compreender a imagem, tem de evocar e, no melhor dos casos, voltar a sentir essa experiência. Por outro lado, o aroma vem das mãos, de todos os ofícios, da relação amorosa e da guerra, mas a caça não é um ofício! 

O que é a caça? 
Como diz Benjamin, a caça é uma imagem da vida (a primeira, em rigor), com particular potência para a compreensão da relação entre vestígio e aura. Ouça-se a maravilhosa cantata de Béla Bartók (Cantata Profana. Os Veados Mágicos, obra para orquestra, duplo coro misto, tenor e barítono, de 1930). Em Semear na Neve (Relógio D’Água, 1999), no capítulo «Aura e vestígio», faço uma análise dessa Cantata e estabeleço um vínculo com os conceitos benjaminianos. É uma história sobre nove irmãos a quem o pai não tinha ensinado nenhum ofício. Eles só sabiam caçar e um dia sofrem uma metamorfose irreversível, transformando-se em nove veados mágicos. Mais tarde, quando os homens começam a trabalhar a terra e a tecer ou a moldar um vaso, a vida passa a ser vista através desses actos oficinais.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Pela Bruma Dentro I Pedro A.H. Paixão, Cristina Robalo


Pela Bruma Dentro — 
Conversa com Cristina Robalo em torno do desenho
Pedro A.H. Paixão, Cristina Robalo

ISBN 978-989-8902-98-6 | EAN 9789898902986

Edição: Outubro de 2019
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado)
Número de páginas: 80


Para terminar, gostaria de saber se tens uma ideia do que seria a tua vida sem o desenho?
Seria certamente uma existência sem assombro, como a de uma criança a quem tudo se dá e de tudo se protege, mas em quem a fantasia, que de tudo livra e com a qual ela tudo pode e tudo produz, não daria sinais de vida.

Durante uma década, Pedro A.H. Paixão criou um amplo corpo de desenho em que usou apenas a cor escarlate. Esse trabalho foi a base deste livro, que percorre algumas das etapas desse período e toca, retrospectivamente, em matérias complementares do seu percurso, tal como as tarefas do estudante, estudioso, docente, videógrafo e editor. Desenvolvida entre Junho de 2015 e Outubro de 2016, esta entrevista em forma de conversa, conduzida por Cristina Robalo, gira em torno do «desenho» e de questões que atravessam não apenas as inquietações e interesses do artista, mas aspectos fundamentais da sua teoria e prática.

Pedro A.H. Paixão (1971) é artista plástico, investigador e editor. Nasceu em Lobito, Angola, e tem vivido entre Lisboa, Chicago, Veneza, Porto e Milão. Tem um mestrado em Belas-Artes e um doutoramento em Filosofia. É membro do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. O seu trabalho artístico é representado pela Galeria 111, em Lisboa. Fundou e dirige o projecto editorial «disciplina sem nome» para a editora Documenta, com o apoio da Fundação Carmona e Costa. Vive em Milão.

Cristina Robalo (1969) concluiu a tese no âmbito do doutoramento em Arte Contemporânea pelo Colégio das Artes na Universidade de Coimbra. É mestre em Estética pela Universidade Nova de Lisboa. A sua investigação contempla a relação entre fazer e pensar, em directo diálogo com o desenho. Formada em Artes Plásticas e Desenho pelo Ar.Co, expõe desde 2002.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

PEDRO A.H. PAIXÃO PELA BRUMA DENTRO [convite]

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Durante uma década, Pedro A.H. Paixão (Angola, 1971) criou um amplo corpo de desenho em que usou apenas a cor escarlate. Esse trabalho foi a base deste livro, que percorre algumas das etapas desse período e toca, retrospectivamente, em matérias complementares do seu percurso, tal como as tarefas do estudioso, docente, videógrafo e editor. Esta entrevista em forma de conversa, conduzida por Cristina Robalo, gira em torno do «desenho» e de questões que atravessam não apenas as inquietações e interesses do artista, mas aspectos fundamentais da sua teoria e prática.