Este novo livro de Margarida Medeiros dá expressão ao
interesse da autora pela relação que as imagens dos fotógrafos possuem com a
utilização científica e popular da fotografia. Não é uma obra sobre fotógrafos
no sentido mais corrente e autoral, mas sobre a sedução feita pela promessa de
rigor e verdade que a invenção da fotografia transportou. Como diz Medeiros,
este livro é uma espécie de arqueologia da relação entre as fantasias geradas
pela fotografia e a sua utilização nas práticas científicas, clínicas e
criminais. E é uma arqueologia no sentido em que tenta colocar a descoberto não
as anedotas e peripécias geradas pela ambição de fabricar uma imagem da verdade
do mundo e dos seus acontecimentos, mas no de mostrar o entusiasmo gerado pelas
imagens técnicas enquanto potenciação dos poderes humanos de fixar, memorizar,
guardar.

A história desenvolvida pelo livro de Medeiros diz respeito
à tentativa de se fotografar com os próprios olhos. A hipótese é que se é certo
que o aparelho fotográfico tem uma constituição semelhante à fisionomia do olho
humano, então o olho também pode gerar o mesmo tipo de imagens e
acontecimentos. Entre os séculos XVIII e XIX, para mostrar a fertilidade deste
pensamento, surgiu, como diz a autora, uma "amálgama de boatos e
experiências científicas que visavam, a torto e a direito, retirar uma imagem,
ou o seu resto, dos olhos de um morto" (p. 11) Se é certo que o território
desta fantasia, como lhe chama Medeiros, é composto pelo delírio, também lá
estão os grandes avanços feitos pela optografia. Escreve Medeiros: "A
máquina fotográfica foi inventada tendo como horizonte metafórico e paradigma
epistémico o mecanismo óptico de visão do olho: inversão da imagem como
resultado da reflexão luminosa, perspectiva, reinversão da imagem [...]. Com a
fábula da optografia, o caso inverte-se: o olho funciona agora como a placa
sensível de uma câmara. Assim, parece estar aqui em jogo uma tentativa de
transferência recíproca entre os poderes do corpo e os poderes configurados na
máquina, uma fusão indiferenciadora que denota a fragilização das fronteiras
entre interior e exterior, morte e vida, animado e inanimado, que configuram o homem
moderno." (p. 70)
E esta condição de moderno significa descobrir a posição
instável que o homem ocupa no mundo: um sujeito problemático, com uma percepção
precária, frágil, limitada, enganadora, e um corpo que não garante
objectividade, mas é lugar de enganos. A partir daqui pode dizer-se que o
interesse gerado pela fotografia e pelos seus mecanismos misteriosos e ocultos
é mais do que um interesse por um dispositivo produtor de imagens: corresponde
a uma profunda "modificação da concepção do sujeito e da sua relação com a
visão." (p. 16) Um fascínio por uma ampliação da visão que permitiria
ultrapassar os limites físicos do contacto humano com o mundo e, logo,
revolucionar a epistemologia vigente.
Conseguir a imagem dos olhos de um morto não é mais do que
mostrar que o contacto humano com o mundo gera um conhecimento verdadeiro e não
é lugar de fantasmas e imagens fabricadas. Um exemplo: "Kühne [cientista
alemão do século XVIII] tratou de conseguir que lhe fosse entregue o cadáver de
um homem condenado à guilhotina, no instante imediato a ter sido decapitado.
Preparou um quarto com pouca luz, filtrada a vermelho e amarelo, para que,
quando chegassem os olhos do homem, a rodopsina não branqueasse imediatamente.
Dez minutos depois de o homem ter sido decapitado, Kühne obteve a retina
inteira do olho esquerdo, e pôde mostrar a vários colega um
"optograma" muito nítido desenhado na superfície da retina."
(p.39)
E ao fascínio da epistemologia oitocentista com as imagens
associa-se a criminologia. Uma notícia publicada em 1895 no The Amateur
Photographer, e amplamente comentada por Medeiros, dá conta não só da
possibilidade de um olho poder "fotografar", mas de que essa imagem
sirva como prova de um crime: "Um espantoso desenvolvimento ocorreu no
caso Sherman. Foi descoberta uma fotografia do assassino. Ambos os olhos de Mrs
Sherman parecem conter imagens do homem que a assassinou." (p. 72) O texto
é longo e descreve a par e passo as discussões e as descobertas espantosas
feitas por uma câmara Kodak nos olhos da mulher assassinada: "Passado o
momento de espanto com tal descoberta, foi feito um cuidadoso exame que revelou
claramente a forma humana, com um pé atrás do outro e um joelho meio flectido,
como se estivesse para subir um degrau." (p. 73)
Para além da comicidade e da alguma ingenuidade
relativamente às modalidades da representação técnica, estas experiências
materializam a ambição e a expectativa de "um "grau zero" da
mediação entre o sujeito e o mundo; a ideia consubstancia um realismo que não
implica apenas um certo tipo de automatismo (corporal): a imagem acontece,
gera-se de forma imediata no olho, por simples contacto visual, e aí ficaria
retida. Assim, o próprio corpo se constitui como dispositivo de contacto e de
subsequente produção de imagens, resolvendo, aparentemente, o problema da
separação entre o sujeito e o mundo." (p. 111)
As experiências aqui analisadas apresentam um genuíno
esforço de combater o desvio inerente a todas as imagens do mundo e a luta por
um registo fiel, exacto, sem desvio, do que acontece. E este é um contexto que
dá profundidade às discussões sobre a imagem fotográfica, longe das
preferências estéticas e das ideias de composição e de arte. O fôlego é
epistémico e a sua relevância está na utilização do dispositivo fotográfico
como dispositivo de auto-conhecimento. O texto de Margarida Medeiros dá um
contributo importante para esta compreensão.
Nuno Crespo, «Ípsilon»/Público, 31-V-2013