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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

«A edição portuguesa do romance publicado em 1925 recupera o título da ópera de Gershwin, cujo libreto é do próprio Heyward.»


«Quando na literatura americana se nomeia um romance de "sulista", não se atira apenas o autor e a sua obra para uma determinada geografia (e para uma época) mas pressupõe também algumas outras características mais reconhecíveis, sendo a quase sempre tumultuosa relação entre as comunidades brancas e negras, e por vezes os seus cruéis conflitos, uma das mais evidentes. [...] como que a preparar o caminho, surgiu um nome, DuBose Heyward (1885-1940), que ficou conhechecido apenas por um romance (apesar de ter escrito outros), Porgy, publicado em 1925 [....] uma década depois da sua publicação, Gershwin comporia a música para uma ópera (com libreto do próprio Heyward) a que chamaria Porgy and Bess. A recente edição portuguesa do livro aproveitou o título dessa ópera, Porgy e Bess (Sistema Solar, trad. Aníbal Fernandes).
[...]
DuBose Heyward escreveu um romance que, não sendo uma obra-prima da literatura sulista, faz o retrato de uma época e de um grupo social com uma linguagem muito própria, que o tradutor Aníbal Fernandes conseguiu verter para português de maneira quase prodigiosa.»

José Riço Direitinho, «Estranhas Sombras», LER, Julho-Agosto, p.78.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

«"Porgy": a penosa história de um negro na Carolina do Sul» (Mário Rufino)

DuBose Heyward, escritor nascido nos Estados Unidos da América (Carolina do Sul), em 1885, é autor de um dos livros mais representativos das condições sociais do Sul, tanto materiais como psicológicas, do período pós-Secessão: «Porgy», editado agora entre nós pela Sistema Solar.


A história do negro Porgy, pedinte de “profissão” e com deficiência física (pernas) na Carolina do Sul, faz com que DuBose Heyward pertença a uma plêiade de autores, com temática pós-Secessão e/ou de características sulistas, como Margaret Mitchell, Erskine Caldwell, Carson McCullers, Truman Capote, Robert Penn Warren, Flannery O´Connor e William Faulkner.

O autor e Dorothy Heyward, sua esposa, adaptaram o livro para um musical intitulado “Porgy and Bess”. Devido ao enorme sucesso da peça encenada por Gershwin, o próprio livro tem vindo a ser traduzido como “Porgy e Bess”.

Aníbal Fernandes, com o seu texto nesta edição da Sistema Solar, fornece importante contextualização para a construção do sentido da obra.

Com um enredo simples, que se concentra no essencial, “Porgy e Bess” é, além de um romance que se apoia nestas duas personagens, um retrato sociológico pós-libertação dos escravos negros nos EUA. DuBose Heyward não resiste à adopção de um certo romantismo e paternalismo, quando analisa as condições psicológicas e sociais dos negros.

A pobreza honrada e a moralidade da microssociedade representada aproximam-se da postura de, por exemplo, Kipling (n. Índia, 1865-1936) em relação à dialéctica colonizador-colonizado/dominador-dominado, que, por sua vez, viria a ser satirizada por Coetzee (n. África do Sul, 1940- ) em “Foe”.

“Porgy”, publicado em 1925, mantém a contemporaneidade e a relevância presente em obras mais recentes como as de Coetzee, de Naipaul ou dos ensaios de Fannon e Said, entre outras obras e autores.       

A construção sintáctica e a utilização lexical nos diálogos da comunidade atribuem ao texto propriedades do realismo.

“fiquei a saber quem você és... um porco danado, vendilhão das droga que dá cabo do lar dos preto feliz.” (pág. 115)

A imagética da comunidade negra é composta por uma complexa coexistência entre o cristianismo e o paganismo. Os seus hábitos são influenciados pela estrutura moral que advém dessa combinação. A canção, laudatória a Deus (Gospel) ou não, é um recurso muito utilizado, seja no lamento ou na alegria. Espelha, também, as condições sociais e evolução histórica da comunidade negra.

«Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Onde tu meteu
os direito que te deram?
No colchão de pau dormi
sem melhor para desejar;
mas veio um branco dizer:
agora és livre; vai trabalhar, vai trabalhar!»
Depois, todos se lhe juntaram em coro
«Ai é mesmo duro ser preto...» (pág. 74/75)

“Porgy e Bess”, extraordinária viagem de 170 páginas pela Carolina do Sul, é habitado por personagens com capacidade para criar empatia com o leitor. Porgy é um personagem belo e invulgar.

Mário Rufino, Diário Digital

quarta-feira, 24 de abril de 2013

«Porgy e Bess», de DuBose Heyward



Porgy e Bess

DuBose Heyward

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN: 978-989-8566-22-5
Edição: Março de 2013
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 14,5×20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 176

Pode dizer-se que DuBose Heyward (1885-1940) se sentiu depois de Porgy realizado. Porque tinha feito a conquista de um lugar entre os que sobressaíam nesse ano nas letras norte-americanas (até Langston Hughes, um escritor negro — o que era relevante neste caso — fazia notar que os seus «olhos “brancos” davam vida às maravilhosas qualidades poéticas dos habitantes da Catfish Row»); porque a sua inaptidão para negócios encontrava num amigo qualidades que a si próprio faltavam, ideais para o êxito da companhia de seguros que o tinha como sócio; porque vivia horas de criador protegidas pela sua esposa Dorothy, sua incondicional apoiante e co-autora em duas obras teatrais inspiradas pelos seus romances.
O êxito de Porgy ficou em grande parte a dever-se a algumas singularidades da sua história e do seu cenário; ao exotismo «caseiro» de bairro negro; aos momentos — de um ritual fúnebre, de um cortejo festivo, de uma floresta, de uma tempestade — onde o autor se exibe com grande eficácia descritiva; a um par amoroso sem graças físicas que se sobreponham à desgraça de membros mal conformados e a uma desfiguradora cicatriz na face; à indiferença pela boa regra do assassino castigado; à recusa em não instalar Porgy e Bess entre os apaixonados trágicos que alimentam a lista dos «imortais do amor».
Porgy e Bess pertencem a um grupo humano humilhado na sua segregação de bairro negro, conformado com a superioridade social do homem branco, e que se defende destas fatalidades com a embriaguez do canto, com uma religiosidade cristã de mãos dadas com a magia, com uma languidez alimentada por calor e sol. Todo o livro vive sob o peso do clima temperamental de Charleston, que condiciona os sentimentos e os actos dos habitantes da Catfish Row. Cena a cena iremos saber se as personagens deste conflito são batidas por calor, chuva ou vento; e a última frase do livro, para um Porgy envelhecido e vencido, invoca a força benfazeja do Sul, a que inunda o seu desgosto com «a ironia de um sol matinal».

Da Apresentação de Aníbal Fernandes