DuBose Heyward, escritor nascido nos Estados Unidos da América
(Carolina do Sul), em 1885, é autor de um dos livros mais
representativos das condições sociais do Sul, tanto materiais como
psicológicas, do período pós-Secessão: «Porgy», editado agora entre nós
pela Sistema Solar.
A história do negro Porgy, pedinte de
“profissão” e com deficiência física (pernas) na Carolina do Sul, faz
com que DuBose Heyward pertença a uma plêiade de autores, com temática
pós-Secessão e/ou de características sulistas, como Margaret Mitchell,
Erskine Caldwell, Carson McCullers, Truman Capote, Robert Penn Warren,
Flannery O´Connor e William Faulkner.
O autor e Dorothy Heyward,
sua esposa, adaptaram o livro para um musical intitulado “Porgy and
Bess”. Devido ao enorme sucesso da peça encenada por Gershwin, o próprio
livro tem vindo a ser traduzido como “Porgy e Bess”.
Aníbal
Fernandes, com o seu texto nesta edição da Sistema Solar, fornece
importante contextualização para a construção do sentido da obra.
Com
um enredo simples, que se concentra no essencial, “Porgy e Bess” é,
além de um romance que se apoia nestas duas personagens, um retrato
sociológico pós-libertação dos escravos negros nos EUA. DuBose Heyward
não resiste à adopção de um certo romantismo e paternalismo, quando
analisa as condições psicológicas e sociais dos negros.
A
pobreza honrada e a moralidade da microssociedade representada
aproximam-se da postura de, por exemplo, Kipling (n. Índia, 1865-1936)
em relação à dialéctica colonizador-colonizado/dominador-dominado, que,
por sua vez, viria a ser satirizada por Coetzee (n. África do Sul, 1940-
) em “Foe”.
“Porgy”, publicado em 1925, mantém a
contemporaneidade e a relevância presente em obras mais recentes como as
de Coetzee, de Naipaul ou dos ensaios de Fannon e Said, entre outras
obras e autores.
A construção sintáctica e a utilização lexical nos diálogos da comunidade atribuem ao texto propriedades do realismo.
“fiquei a saber quem você és... um porco danado, vendilhão das droga que dá cabo do lar dos preto feliz.” (pág. 115)
A
imagética da comunidade negra é composta por uma complexa coexistência
entre o cristianismo e o paganismo. Os seus hábitos são influenciados
pela estrutura moral que advém dessa combinação. A canção, laudatória a
Deus (Gospel) ou não, é um recurso muito utilizado, seja no lamento ou
na alegria. Espelha, também, as condições sociais e evolução histórica
da comunidade negra.
«Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Ai é mesmo duro ser preto
Onde tu meteu
os direito que te deram?
No colchão de pau dormi
sem melhor para desejar;
mas veio um branco dizer:
agora és livre; vai trabalhar, vai trabalhar!»
Depois, todos se lhe juntaram em coro
«Ai é mesmo duro ser preto...» (pág. 74/75)
“Porgy e Bess”, extraordinária viagem de 170 páginas pela
Carolina do Sul, é habitado por personagens com capacidade para criar
empatia com o leitor. Porgy é um personagem belo e invulgar.
Mário Rufino, Diário Digital