sexta-feira, 10 de julho de 2020

João Lopes recomenda…



Crítico João Lopes recomenda
Descasco as Imagens e Entrego-as na Boca — Lições António Reis
Nas suas palavras [clicar na imagem e ver e ouvir a partir dos 2 minutos e 47 segundos],
«um pequeno grande acontecimento relacionado com o cinema português».

[ mais informação sobre este livro ]

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Das Excentricidades do Cardeal Pirelli I Ronald Firbank



Das Excentricidades do Cardeal Pirelli 
Ronald Firbank 

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes 

ISBN 978-989-8833-47-1 | EAN 9789898833471 

Edição: Abril de 2020 
Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros 
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 112



A sua literatura cheia de meninos de coro, freiras lésbicas, padres travestidos, santos de canonização duvidosa, não dispensa uma forte lucidez sobre as técnicas da escrita. É exímio a urdir intrigas.



Em 1907, num país cheio de arrogância anglicana, decidiu converter-se ao catolicismo. A pompa do Vaticano e a sua religião de báculos e púrpuras, cheia de ornamentados rituais e símbolos, convinham-lhe ao gosto pelo espectáculo e à forma vistosa como gostaria de relacionar-se com Deus. Numa das suas viagens à Itália tudo fez para ser aceite entre os jovens da guarda nobile do papa; mas a sua entrevista de admissão «assustou» os seleccionadores: Ronald tinha ênfases, tons e gestos com um género de exuberância que punha de pé atrás os que tutelavam o bom nome e a tranquilidade dos corredores do Vaticano. Foi um golpe difícil de suportar. A Igreja de Roma não quis saber de mim, vou portanto troçar dela. (A consequência mais evidente deste estado de espírito virá a ser o livro Das Excentricidades do Cardeal Pirelli.)
[…] 
Este romance póstumo, por muitos considerado a obra de Firbank mais lograda e retido na gaveta porque esbarrava, ao que parece, numa falta de coragem (sua ou do seu editor) para o entregar ao público, é um carnaval de risos cruéis e melancólicos encenado por um católico «ressabiado» que inventa a Clemenza de uma Andaluzia a fazer lembrar-nos a de Sevilha, Granada, Córdoba… com nomes de personagens que oscilam entre as que nos são familiares em Espanha e Portugal, mas também outros que escapam a esta mais cerrada identificação geográfica. Nesta ficção que faz o seu jogo numa indeterminada Espanha sulista e com um catolicismo enfeitado por saudades pagãs, vamos confrontar-nos com uma Igreja tresvariada nos seus oficiantes e nos seus fiéis, e espreitar por um buraco de fechadura reconhecíveis verdades mas que foram aqui, num tempo que enchia a literatura com rajadas anticlericais, como que deformadas por um implacável espelho de feira.
Ronald Firbank viveu até ao dia 21 de Maio de 1926. […] Meses depois, o seu editor Grant Richards tirou da gaveta o desde há muito retido Das Excentricidades do Cardeal Pirelli, e publicou-o.»
[Aníbal Fernandes]

Formas Que se Tornam Outras I Júlio Pomar


Formas Que se Tornam Outras
Júlio Pomar

Textos de Sara Antónia Matos, Pedro Faro, António Fernando Cascais, Liliana Coutinho e 
Maria Velho da Costa

Design de Paula Prates

ISBN 978-989-9006-14-0 | EAN 9789899006140

Edição: Dezembro de 2019
Preço: 23,58 euros | PVP: 25 euros
Formato: 17 x 21 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 248 (a cores)

Com o Atelier-Museu Júlio Pomar
Edição bilingue: português-inglês



O Atelier-Museu Júlio Pomar, na exposição «Formas que se tornam outras» de Júlio Pomar, procurou repensar uma das dimensões mais incontornáveis da vida, tantas vezes capturada por preconceitos e obscurantismos: o corpo e o erotismo. 


Fazer arte a partir de corpos. Fazer arte com corpos. Fazer da arte corpo. Do movimento do corpo sobre outro corpo produzir mais corpo e desse gerar uma forma de arte. O corpo está sempre a evoluir: o corpo da arte, da política, do trabalho.
O corpo da sexualidade, do amor, da amizade. O corpo da luta. O corpo preso. O corpo livre. Pomar trabalhou todos estes corpos e outros não nomeados (sobretudo os de difícil fixação, em transformação) – os quais se procurou sinalizar nas diversas partes da exposição, dando a perceber que o corpo e a sua indefinição inata esteve sempre subjacente ao longo do seu percurso e produção artísticos.
Aquele desenho a lápis sobre papel de carta, um estudo sem título, não datado, provavelmente da altura em que Júlio Pomar teve atelier na Praça da Alegria, em Lisboa, é um desenho de uma flor. Provavelmente não haverá elemento mais erótico do que uma flor, que abre e fecha como o corpo humano, dá-se e protege-se, liberta e recolhe, é inseminada e reproduz, como o macho e a fêmea, concentrando em si a beleza e a fluidez que o conceito de erotismo envolve. Como, aliás, refere Emanuele Coccia no livro A Vida das Plantas. Uma Metafísica da Mistura [Documenta, 2019], a flor é, por excelência, «o instrumento activo da mistura: qualquer encontro e toda a união com outros indivíduos se fazem por meio dela». Assim, nesta exposição, a flor, um ser séssil, serve como ponto de partida para abordar uma série de conceitos que se tornaram fundamentais nas experiências de Júlio Pomar em torno do Erotismo, nomeadamente a ideia de devir contínuo, de transformação, de fusão e de metamorfose, indissociabilidade entre penetrado e penetrante — aspecto plasmado nos desenhos Étreinte [Abraço], da série de 1979, realizados para ilustrar o livro Corpo Verde, de Maria Velho da Costa, com quem Júlio Pomar trabalhou e de quem se publicam textos neste catálogo.
[Sara Antónia Matos e Pedro Faro]


Encontro às Cegas I Pedro Gomes



Encontro às Cegas
Pedro Gomes

Textos de Emília Ferreira e Hugo Dinis
Design de Vera Velez

ISBN 978-989-9006-30-0 | EAN 9789899006300

Edição: Março de 2020
Preço: 16,04 euros | PVP: 17 euros
Formato: 16,5 x 20 cm (brochado)
Número de páginas: 152 (a cores)

Com o MNAC – Museu do Chiado
Edição bilingue: português-inglês




Pedro Gomes: «O desenho em si não é o meu ponto de partida […]. É o meu ponto de chegada.»



O desenho é, tradicionalmente, a disciplina racional associada ao conceito, à estrutura. E, contudo, tem igualmente uma alma experimental e aventureira – iconoclasta até – e emotiva. Um certo ADN de resistência ao claro e definido e uma vontade de ir mais longe, de inventar e de investigar por dentro de si mesmo. No seu trabalho, o artista Pedro Gomes segue, com determinação, esse caminho, como se percebe na exposição Encontro às Cegas, que apresenta no MNAC.
Como um cirurgião que, de bisturi em punho, abre uma fina e precisa linha na pele do paciente para espreitar o corpo e o que ele guarda, Pedro Gomes parte da superfície, do que pensamos conhecer tão bem a ponto de já não vermos, para nos revelar aspetos insuspeitos. Fá-lo com igual determinação na incisão, como no uso do fogo ou da rigorosa geometria, como também no caminho do registo mais fugaz e indeterminado do tempo, nos seus vestígios e sombras, no apagamento e no vazio. E fá-lo dedicadamente, há quase um quarto de século, como esta exposição tão eloquentemente demonstra, nas duas séries inéditas de desenhos, realizadas em 2019 e 2020, a que se juntam séries e obras isoladas, criadas desde 1996.
[Emília Ferreira]


Apesar de o tempo não andar para trás, nem os acontecimentos do passado servirem de oráculos do futuro, a determinação da importância de diversos fatores, pormenores, ou sinais que as obras de arte consigo carregam, pode revelar que só mais tarde, num determinado momento, sem que isso seja procurado ou premeditado, esses fatores apareçam e tragam consigo uma história, uma emoção, ou simplesmente uma pequena anotação, que faz toda a diferença. Talvez neste sentido, a persistência e perseverança encontradas nas obras de arte de Pedro Gomes ao longo do tempo sejam o que desperta para outras imagens visíveis ou, o mesmo é dizer, para outro mundo.
[Hugo Dinis]

O Desligamento do Mundo e a Questão do Humano I André Barata


O Desligamento do Mundo e a Questão do Humano
André Barata

ISBN 978-989-9006-35-5 | EAN 9789899006355

Edição: Maio de 2020
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado)
Número de páginas: 176 (com imagens a p/b)




A sobrevivência deixou de ser meio para a vida  e passou a ser o fim mesmo da vida.  Isto não foi possível sem um desligamento da sobrevivência face ao mundo e que faz do mundo apenas um meio da sobrevivência. 



Este livro fala sobre o desligamento do mundo, de que somos causa e de que seremos efeito derradeiro se não pararmos para o questionar. O tempo desligou-se dos acontecimentos para os poder medir, impassível. A verdade desligou-se da realidade para poder ser usada sem embaraço. E as emoções migraram para o circo online desligado da vida concreta cada vez mais despovoada de sentir. 
Desligamo-nos do mundo como se fugíssemos da sua materialidade, e assim é o próprio mundo que se desliga, deslassando a sua substância. Dela extraímos formas que são meros «espectros» ou «recursos». Nós próprios também nos desligamos, tornados espectros ou recursos, correndo para a desmaterialização dos corpos e dos espíritos, sem nos apercebermos de que só somos humanamente, sendo parte do estofo do mundo. 


O artifício da sobrevivência | O processo de desligamento | O mundo, a Terra e a nossa desmaterialização | As máquinas e o seu futuro connosco | O provável primeiro desligamento: a desanimalização | Os limites do humano significam os limites das Humanidades | A matéria do religar | A vida temporal comum | Tempo, dominação e violência política | O colapso das metáforas ou o fim do humano | Frankensteins do tempo e o ciclo de Prometeu.

Descasco as Imagens e Entrego-as na Boca — Lições António Reis I José Bogalheiro e Manuel Guerra (ed.)


Descasco as Imagens e Entrego-as na Boca
– Lições António Reis
José Bogalheiro, Maria Filomena Molder, Nuno Júdice, Manuel Guerra, Fátima Ribeiro, Maria Patrão

Edição de José Bogalheiro e Manuel Guerra 

ISBN 978-989-9006-05-8 | EAN 9789899006058

Edição: Maio de 2020
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 208 (com imagens a p/b)




… Eu já sou uma Continuação dos Outros
— como Outros serão uma Continuação de mim…
[António Reis]



Durante grande parte da sua vida, o cineasta e poeta António Reis (1927-1991) foi professor na «Escola de Cinema». Em Outubro de 2018, o Departamento de Cinema da Escola Superior de Teatro e Cinema organizou a homenagem «Lições António Reis». Esta edição, revista e aumentada relativamente aos textos apresentados nessa ocasião, é composta de três partes distintas, mas interligadas: «Lições António Reis», «Homenagem», «Continuação». Certos de que na procura do ouro não há motivo para largar a picareta, fomos buscar a versos seus – «Descasco as imagens / e entrego-as na boca» – o título deste livro.



Descasco as imagens
e entrego-as na boca

como quem sabe
o corpo
mais importante
que a roupa

[António Reis, Poemas Quotidianos]




Nota introdutória

Causas que seguem os efeitos ou ameixas doiradas com orvalho
— Sobre Jaime de António Reis

NUNO JÚDICE
Uma poesia próxima da vida

Da atenção ardente

Uma torrente chamada vida

António Reis, nosso mestre

Meia-luz

Escrita em Movimento — Apontamentos críticos sobre filmes I Sérgio Dias Branco



Escrita em Movimento — Apontamentos críticos sobre filmes
Sérgio Dias Branco


ISBN 978-989-9006-32-4 | EAN 9789899006324

Edição: Maio de 2020
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 176




O firme e ousado exercício da liberdade, na crítica como na vida, não pode ser desligado das convicções sobre a arte cinematográfica, o seu valor humanista, o seu entrecruzamento estético e ético, e a sua imaginação de novas percepções.


Aqui se juntam, essencialmente, artigos publicados em revistas, jornais, e num sítio electrónico. Apesar das diferenças entre estas publicações e das diferentes relações que estabeleci com elas desde o início, houve um aspecto que permaneceu igual na minha escrita para cada uma delas: pude escrever livremente, sem imposições, sem sequer pedidos, em todos os casos. Mas o firme e ousado exercício da liberdade, na crítica como na vida, não pode ser desligado das convicções sobre a arte cinematográfica, o seu valor humanista, o seu entrecruzamento estético e ético, e a sua imaginação de novas percepções. O resto das análises críticas aqui contidas seguem essa linha e têm origem em comentários que preparei para a apresentação ou discussão pública de filmes ou que escrevi quando o tempo e a vontade se conjugaram. Têm diversos tamanhos, mas podem ser todas classificadas como curtas, não ultrapassando as quatro páginas. Contas feitas por alto, esta colectânea condensa 20 anos de apontamentos críticos sobre filmes. Com a expressão apontamentos críticos pretendo sinalizar que sempre os considerei como mesclas de notas críticas sobre algumas obras de cinema às quais procurei dar alguma coerência, mas que podem ser refeitas, complementadas, desenvolvidas. Nalguns casos, foram. Têm uma marca de abertura em vez de fechamento, desta forma reflectindo o carácter inacabado das conversas em torno dos filmes. Neste sentido, esta escrita em movimento responde ao movimento próprio do cinema.


Sérgio Dias Branco é Professor Auxiliar Convidado de Estudos Fílmicos na Universidade de Coimbra, onde coordena os Estudos Fílmicos e da Imagem e dirige o Mestrado em Estudos Artísticos. Integra o Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e o grupo de análise fílmica da Universidade de Oxford, «The Magnifying Class». Leccionou na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade de Kent, onde lhe foi atribuído o grau de doutor em Estudos Fílmicos. Publicou na Documenta, em 2016, Por Dentro das Imagens — Obras de Cinema. Ideias do Cinema.

Espelhos do Film Noir I Jeffrey Childs (ed.)


Espelhos do Film Noir
Fernando Guerreiro, Guillaume Bourgois, Jeffrey Childs, José Bértolo, José Duarte, Luís Mendonça, Ricardo Vieira Lisboa, Sérgio Dias Branco

Edição de Jeffrey Childs

ISBN 978-989-9006-15-7 | EAN 9789899006157 

Edição: Dezembro de 2019 
Preço: 13,21 euros | PVP: 14 euros 
Formato: 16 x 22 cm (brochado, com badanas) 
Número de páginas: 160 (com imagens a p/b)



O film noir, mais do que qualquer outro género ou modo cinematográfico, reinventa o questionamento ontológico da superfície e da cultura da (produção da) imagem.


Todos os ensaios reunidos neste livro procuram, cada um à sua maneira e em diálogo com os objectos fílmicos considerados mais relevantes para o efeito, abordar o film noir não apenas como um modo possível de filmar o mundo, mascomo uma tentativa de compreender a natureza visível do mundo, uma visibilidade à qual os (relativamente) novos meios cinematográficos conseguiram acrescentar movimento. A preocupação com a visibilidade do mundo (e o que este revela e esconde) não é uma invenção do film noir, como alguns dos ensaios neste volume fazem questão de referir, mas o film noir, mais do que qualquer outro género ou modo cinematográfico, reinventa o questionamento ontológico da superfície e da cultura da (produção da) imagem. Esta vocação cinematográfica explica o destaque dado por este volume à figura do espelho, mas esta figura rapidamente se expande para incluir outros objectos que, no texto fílmico, se comportam como espelhos — sombras, janelas, quadros, ecrãs, câmaras, olhos –, assim como padrões ou efeitos figurais associados com espelhos —duplos, repetições, ângulos, inversões, amputações.


Autofilmografias: filmar a escrita e escrever o filme em Ray, Lang e Negulesco

Blonde is the ultimate noir: The Lady from Shanghai (A Dama de Xangai, Orson Welles, 1947)

Angel Face: lições de mise en scène

Anamorfose no film noir

Marienbad como photo-roman noir

«Não é o reflexo da realidade, é a realidade do reflexo»: alguns protagonistas do cinema de Irving Lerner olham-se ao espelho

Mulheres especulares: género e desdobramento no neo-noir de Brian De Palma

«It’s like there was never anything here but jungle»: o mundo (neo) noir de True Detective

À Sombra do Invisível — Fragmentos de um crer sapiencial I João Paulo Costa


À Sombra do Invisível — Fragmentos de um crer sapiencial

João Paulo Costa

ISBN 978-989-9006-16-4 | EAN 9789899006164

Edição: Junho de 2020
Preço: 17,92 euros | PVP: 19 euros
Formato: 14,5  x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 288




Pensamos a Escritura em diálogo com o nosso tempo e com as múltiplas gramáticas existenciais para dizer o humano comum e a sua possível relação com o Transcendente.


A sombra dá à luz a forma capilar das coisas, a sua epifania ou desvelação, pela qual algo se nos manifesta e aparece no modo e no tempo próprios, «em carne e osso». É o invisível como dobragem do visível que nos faz ver mais do que aquilo que vemos num primeiro golpe de vista, que intui na inspecção do olhar o toque tímbrico da verdade que se manifesta e como se mostra à nossa fé perceptivo-afectiva. Ao longo deste percurso heurístico à sombra do Invisível, evocaremos mais do que demonstraremos, não por simples efeito de estilo literário, mas porque é esse o nosso próprio modo de ser. Pensamos a Escritura em diálogo com o nosso tempo e com as múltiplas gramáticas existenciais para dizer o humano comum e a sua possível relação com o Transcendente. Como humanos que somos, buscamos sempre a experiência inaudita do mistério que nos habita poeticamente. Este ensaio encaminha-se, ainda que só por ora tenuemente, para uma hermenêutica sapiencial e apofática da realidade, que abarca muitas das gramáticas artísticas e pensantes do nosso tempo. Que imagem melhor do que a da sombra para nos adentrar nesse mistério da invisibilidade, na presença da Ausência? A sombra guarda em si a presença inconsútil do mistério, a presença de uma ausência e a ausência de uma presença. O desejo é o motor de toda a procura espiritual ou intelectual, pois, como escrevia o filósofo Paul Ricoeur, «é o desejo do desejo que se apodera do conhecer, do querer, do fazer e do ser».


João Paulo Brito da Costa nasceu em 1985. Presbítero da Arquidiocese de Braga, frequentou a Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) e é doutorando de Filosofia na Universidade de Coimbra e no Instituto Católico de Paris. É membro activo da recente International Network for Philosophy of Religion, fundada por Emmanuel Falque, Richard Kearney, Stefano Bancalari e Kevin Hart. Publicou o livro Indícios — À escuta dos traços de Deus (editora UCP, 2016).

Matchundadi: Género, Performance e Violência Política na Guiné-Bissau I Joacine Katar Moreira



Matchundadi: Género, Performance e Violência Política na Guiné-Bissau
Joacine Katar Moreira

Prefácio de Pedro Vasconcelos
Design de Horácio Frutuoso

ISBN 978-989-9006-31-7 | EAN 9789899006317

Edição: Abril de 2020
Preço: 15,09 euros | PVP: 16 euros
Formato: 17 x  24 cm (brochado)
Número de páginas: 216


Com o Teatro Praga (colecção «Sequência»)




«A cultura di matchundadi tem sido o motor da vida política guineense e sem a exacerbação e a institucionalização desta forma de masculinidade hegemónica, o sumo que tem regado a política guineense desapareceria. Entre tramas, traições, mortes, destituições, eleições, nomeações, transições políticas e golpes de Estado.» 
[Joacine Katar Moreira]


Indispensável. Numa palavra seria esta a qualificação do livro de Joacine Katar Moreira que aqui se apresenta. E indispensável por múltiplas razões: porque permitirá à leitora e ao leitor aprender tanto como aprendi eu sobre a história contemporânea da Guiné-Bissau; porque desenvolve uma análise fina e sofisticada de como essa história foi e é, também, organizada por um dos processos primordiais de todas as sociedades humanas — o género; porque aponta claramente um dos elementos centrais, até aqui oculto de toda e qualquer análise sobre a realidade guineense, geradores da instabilidade e violência dos processos sociopolíticos da Guiné-Bissau — as formas de (hiper)masculinidade hegemónica que monopolizam a competição pelo poder estatal.
[Pedro Vasconcelos]


A cultura di matchundadi, hipermasculina, move-se dentro das estruturas do Estado, procurando fazer da matchundadi endémica uma matchundadi sistémica. Ou seja, procura institucionalizar um modus operandi e uma visão do mundo na qual impera a lei do mais forte, do mais poderoso e sobretudo do mais violento, ao mesmo tempo que esta hipermasculinidade traduz as características associadas aos homens e às masculinidades, tais como a redistribuição dos recursos, a protecção (e enriquecimento) do seu clã e a ameaça permanente aos adversários políticos. Assim, a cultura di matchundadi é altamente performativa mas com consequências que colidem com o ambiente democrático e a paz social, pois vive do mimetismo político e assenta no confronto constante, na demonstração de força de uns sobre outros.
[Joacine Katar Moreira]



Joacine Katar Moreira é deputada portuguesa, feminista negra interseccional e activista anti-racista. 
Nasceu na Guiné-Bissau em 1982, no seio de uma família guineense e cabo-verdiana, tendo imigrado para Portugal com 8 anos de idade. 
É licenciada em História Moderna e Contemporânea, mestre em Estudos do Desenvolvimento e doutorada em Estudos Africanos pelo ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa. As suas áreas de estudo e de intervenção são os Estudos do Desenvolvimento, Estudos de Género, violência, política e movimentos sociais. 
Mentora e fundadora do INMUNE — Instituto da Mulher Negra em Portugal, criado em 2018 para lutar contra a invisibilização e o silenciamento da mulher negra na sociedade portuguesa, tem participado activamente no debate público sobre o Colonialismo e a Escravatura em Portugal, fazendo parte de diversos grupos de trabalho e de reflexão nacionais e internacionais.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

«Intervalos entre a pré-história e o pós-apocalipse», por Diogo Martins


[…]

A poesia dos grandes bárbaros

Uma e outra experiências – o alvor da humanidade e o seu declínio – continuam longe de esgotar as reservas criativas da ficção, da mais laboriosa à mais foleira, tenha esta a forma que tomar: pirotecnia no cinema, fantasia distópica na literatura, saturação dos corpos na dança contemporânea. Para este efeito, e a título de exemplo, considere-se dois livros de um mesmo autor: A Guerra do Fogo (1909) e A Morte da Terra (1910), do francês de origem belga J.-H. Rosny Aîné, pseudónimo de Joseph Henri Honoré Boex (1856-1940). Um dos fundadores da ficção científica moderna, a par de Júlio Verne e H. G. Wells, Rosny Aîné entreteceu enredos fabulosos sobre o devir da humanidade, a partir do naturalismo de Zola e do entusiasmo com que lia as teses evolucionistas de Darwin e Lamarck. Acossado por essa “paixão poética pelas ciências”, segundo o próprio, alguns dos seus contemporâneos apelidá-lo-iam de “poeta da Pré-História”, o neto veria nele o “poeta do Cosmos”, e hoje está incluído no gabinete de curiosidades literárias que é a editora Sistema Solar, com tradução de Aníbal Fernandes.

A Guerra do Fogo dá um pulo à pré-história, quando o domínio das chamas determinava quem é que, entre as diversas tribos nómadas, detinha verdadeiramente poder. Logo a abrir, recuando-se oitenta mil anos no tempo (pelo menos, segundo os cálculos feitos pelo argumento da adaptação cinematográfica, em 1981, pelo cineasta Jean-Jacques Annaud), é na presença da horda dos “ulhamres” que se assiste à temível calamidade: “o Fogo tinha morrido”. E essa morte justifica a primeira contextualização patusca sobre os hábitos de vida desta horda primeva, as suas estratégias defensivas e imperativos alimentares, colocando no centro de todos os rituais a força misteriosa do Fogo: “O seu poderoso rosto afastava o leão negro e o leão amarelo, o urso das cavernas e o urso cinzento, o mamute, o tigre e o leopardo; os seus dentes vermelhos protegiam o homem contra o vasto mundo. Toda a alegria habitava perto dele. Tirava das carnes um cheiro apetitoso, endurecia a ponta dos chuços, fazia estalar a pedra dura […]. Era o Pai, o Guardião, o Salvador, no entanto mais bravio, mais terrível do que os mamutes quando fugia da gaiola e devorava as árvores” (p. 21).



Se há quem tome a ficção literária como exótico escapismo, esta saga em busca de lume vivo corrobora as expectativas, com o seu arsenal de enredos e intervenientes ariscos, “flor de uma vida com energia e veemência que imperfeitamente imaginamos” (p. 25). O guerreiro Naoh, “filho do Leopardo” e “emanação da raça”, tem como missão roubar o Fogo a uma horda inimiga, obtendo como recompensa, caso triunfe na demanda, uma das mulheres protegidas pelo ancião da tribo. Típica engrenagem romanesca, variação do épico de viagens. Uma acção matizada, com princípio, meio e fim, por encontros e situações incríveis: savanas com mamutes, tigres devorando megáceros, espécies proto-humanas em distintos estádios de evolução, como os “anões-vermelhos” e os “homens-de-pêlo-azul”. Há ainda espaço para rasgos contemplativos diante do ímpeto das águas ou da Lua subindo na noite, nos quais o olhar dos nómadas abdica inocentemente da função utilitária dos sentidos e se entrega à disposição desinteressada e reabilitante do espírito – o pressentimento dessa “trágica emoção”, segundo o narrador, “de onde nasceria, séculos e séculos mais tarde, a poesia dos grandes bárbaros” (p. 43). O direito ao prazer, no fundo, tanto mais genuíno quanto menor a consciência dele.

E se acaso o romance começa pouco a pouco a frustrar, tal é a obediência que presta aos constrangimentos tácitos do género, há no entanto súbitas irrupções do texto que põem a língua de fora às convenções da narrativa, mimando a primitividade dos seus heróis pré-históricos como autênticas festas da língua, com longas listas de exuberância vocabular. Como se àquele mundo de eras extintas se exigisse uma linguagem – ou um estilo – capaz de capturar, não tanto a verosimilhança provável do homo faber, mas o élan do impensável, a alegria furiosa de ver tudo o que existe pela primeiríssima vez, de um tempo ainda não pensável enquanto tempo e, por isso, eternamente durável, enquanto durar o prazer de enumerar pedras, plantas e bichos ao ritmo dos impulsos do corpo. Espécie de infinito, de alegria imanente à vida e à língua-pele que a capta:

“Gafanhotos vermelhos, pirilampos de rubi, carbúnculo ou topázio agonizavam na brisa; asas escarlates davam estalos quando se dilatavam; uma fumarola repentina erguia-se em espiral e achatava-se à luz da lua; havia chamas enroscadas como víboras, palpitantes como ondas, imprecisas como nuvens” (p. 102); “Por todo o lado pululava uma miúda população de lebres, coelhos, arganazes, ratazanas, doninhas e leirões… sapos, rãs, lagartos, víboras e cobras… vermes, larvas, lagartas… gafanhotos, formigas, carochas… gorgulhos, libélulas e nematóceros… zângãos e vespas, abelhas, vespões e moscas… vanessas, borboletas-caveira, piérides, nóctuas, grilos, pirilampos, besouros, baratas…” (p. 113).

E assim decorre “a juventude de um mundo que não voltará a existir. Tudo é vasto, tudo é novo…” (p. 224).


Ruínas humanas

Se queres encontrar o fogo, procura-o nas cinzas.
Provérbio assídico

Essa juventude auspiciosa, insciente quanto à natureza rudimentar dos seus anelos e costumes, é arrasada pelo cenário de holocausto nuclear que Rosny Aîné apresentaria no ano seguinte, 1910, com a publicação da novela A Morte da Terra. Se A Guerra do Fogo seduz pela vertigem das listas e das exibições lexicais, já A Morte da Terra, consideravelmente menor no número de páginas, parece escusar-se a descrições exaustivas ou a enredos rebuscados e, em lugar disso, detém-se com a circunstância que lhe serve de título: o acontecimento inequivocamente apocalíptico, o fim de todos os fins para a nossa espécie. A “derradeira idade”, a “era radioactiva”. Depois de todo o progresso técnico-científico ter sido responsável pelo dispêndio brutal dos recursos naturais, pela devassa do nicho sócio-ecológico, não resta mais da humanidade senão uns simples despojos, acantonados em pequenas ilhas. À volta, a crescer imparável, a imensa desolação do deserto.

Se no romance anterior o elemento do Fogo granjeava a dignidade edificante da maiúscula, símbolo maior das primeiras comunidades proto-humanas, em A Morte da Terra é à Água que se dirigem todos os apelos desesperados: severos abalos sísmicos ao longo dos últimos séculos têm sido responsáveis pela abertura de fissuras abissais nas planícies terrestres, o que, por arrasto, acabam por fender as reservas de água disponíveis. Extintas as variedades de fauna e flora, à excepção de umas certas aves cuja resiliência adaptativa lhes proporcionou uma racionalidade quase humana, “[a] terra deserta parecia mordida por uma prodigiosa charrua; conforme se iam aproximando, o oásis mostrava casas desmoronadas, a área deslocada, as colheitas quase afundadas, miseráveis formigas humanas a fervilharem no meio dos escombros…” (p. 47).

Como sublinha Aníbal Fernandes no seu prefácio, a imaginação corajosa de Rosny Aîné passa por descrever, em primeiro lugar, a consumação de um estado de calamidade: tudo correu irreversivelmente mal à biodiversidade do planeta, e nenhum deus ex machina é remotamente convocável para inverter a progressiva decadência. O ser humano assume-se, finalmente, como “o prodigioso destruidor da vida” (p. 131) – uma auspiciosa perífrase do que hoje se denomina como Antropoceno, o termo proposto em 2000 por Paul Crutzen, cientista holandês galardoado com o Nobel da Química, para designar a nova era geológica em que as acções humanas produzem efeitos devastadores no ambiente, superando as forças naturais.

Mais: n’A Morte da Terra não há qualquer excepcionalidade do humano em relação às restantes espécies, nenhum humanismo salvífico em nome do qual se possa reclamar um direito inalienável à vida, o desejo último de vingança por termos sido narcisicamente feridos (Vesalius, Copérnico, Darwin e Freud, esses conhecidos agentes desestabilizadores do humano enquanto falso centro do universo). Tanto que, como se depreende das últimas páginas, os últimos homens acabam por dar a vez, ao nível das hierarquias entre espécies, a umas estranhas mutações minerais que se alimentam de sangue humano.

Repare-se, ademais, que o visionarismo de A Morte da Terra é ainda mais surpreendente se pensarmos que o livro foi publicado quatro anos antes da Primeira Guerra Mundial, essa primeira constatação colectiva de que o humanismo civilizacional constitui, na verdade, um projecto falível e que “o abismo da História nos afecta a todos” (Paul Valéry, citado por Peter Sloterdijk em O Sol e a Morte, 2007, com o que diz ser “uma das duas ou três frases que definem o século em termos absolutos”, p. 92).

Resta esperar que a morte seja suave. Ainda que um vigilante, de nome Targ, tente convencer-se de ser a excepção, “a palpitar com os vastos desejos que durante cem mil séculos tinham feito viver a humanidade” (p. 88). Rebelando-se contra a “resignação lúgubre” dos demais, é com Targ que o leitor estreita uma inquietante solidariedade: afinal, Targ não é apenas um corpo a definhar, mas a vaga sombra de uma interioridade complexa, agarrando-se com um fervor desesperado aos seus “sonhos […] ridículos” e à “excessiva emotividade”. Prova irredutível, até ver, de que o humano, no mais desastroso dos cenários, é ainda promessa de excessos, de fuga aos eixos, de surpresas. O mundo ainda não acabou para Targ enquanto a sua consciência se tomar a si mesma como medida do mundo – e é a ele que o leitor dá a mão, palmilhando um terreno que se espera ainda extraordinariamente longe dos seus pés, como se a catástrofe mais não fosse que um isco para matizações artísticas e bazófias do imaginário. (Afinal, lê-se ficção científica, e o subgénero literário desprende-se, de súbito, das rasteiras categorizações com que os literatos adubam as horas: mais do que isso, ficção científica produz o efeito de um “ah” de alívio, semeando reticências entre um livro e a vida.)

Seja como for, o deserto cresce. E foi nestes termos que Rosny Aîné imaginou o deserto a crescer-nos pelo lado de dentro:

“De selecção em selecção, a raça adquiriu um espírito de obediência automática, e nesse ponto perfeita, com leis de ora em diante imutáveis. A paixão é rara, o crime nulo. Nasceu uma espécie de religião sem culto, sem rituais: a do temor e do respeito pelo mineral” (pp. 38-9).

“Nada havia, portanto, que agitasse a atonia dos Últimos Homens. Os indivíduos menos emotivos, que nunca tinham amado ninguém e nem a si mesmos se tinham amado, eram os que melhor fugiam ao marasmo. Estavam perfeitamente adaptados às leis milenárias e mostravam uma monótona perseverança, tão estranhos às alegrias como às penas. A inércia dominava-os, e ela mantinha-os defendidos contra a excessiva depressão e o impacto de inesperadas resoluções; eram os produtos perfeitos de uma espécie condenada.” (p. 88).

[…]


[Diogo Martins, Comunidade Cultura e Arte, 17 de Maio de 2010]



sábado, 18 de abril de 2020

Nossa Senhora dos Ratos I Rachilde


Nossa Senhora dos Ratos
Rachilde

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

ISBN 978-989-8833-44-0 | EAN 9789898833440

Edição: Março de 2020
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 176



Ninguém subiu até ao mosteiro… Porque não deve tocar-se em nada nas casas malditas de onde até os ratos fogem, como se elas lhes metessem medo.


Na França, Filipe o Belo cultivou contra eles uma animosidade que chegou até ao irreprimível desejo da sua extinção; desígnio antecedido por outros factos que facilitaram os seus objectivos. Tudo começou porque o papa Bonifácio VIII fez uma bula pontifícia que determinava a supremacia do seu poder católico sobre o poder temporal. Filipe o Belo reagiu contra esta hierarquia; suportou-a mal durante a vigência de Bonifácio e do papa de curto reinado Bento XI, mas conseguiu que o seu papa sucessor, Clemente V, mudasse a sua residência para França. Este papa fora do Vaticano, instalado em Avinhão, foi ameno em relação ao poder temporal do rei. Rei e papa conviveram sob uma tolerância mútua e cooperativa; e decidiram colaborar no que fosse necessário para a extinção daqueles templários com armas já depostas e confortável ociosidade, e para a apropriação das suas riquezas.
Houve um metódico extermínio de templários franceses, depois de julgamentos sumários e autos-da-fé que a ferro e fogo os eliminaram em grande número, incluído nele o seu chefe máximo Jacques de Molay; mas houve, ainda assim, a lograda fuga de muitos para a Península Ibérica e sobretudo para a Escócia, onde se instalaram com outras designações de ordem e onde exerceram a sua vocação bélica (Portugal ficou a dever à sua preciosa colaboração a tomada de Santarém e a de Alcácer do Sal aos Mouros).
É neste contexto de extermínio dos templários franceses que deve compreender-se a história que Rachilde conta no seu romance Nossa Senhora dos Ratos (1931); com monges a esmorecerem numa saudosa melancolia que lhes traz à memória a sua guerra aos «infiéis» usurpadores do túmulo do Cristo, e a lutarem com uma resistência sem armas contra o rei de França e o papa de Avinhão. A terem uma tardia consciência da inutilidade da sua riqueza, a viverem num castelo-convento com estruturas fisicamente aliadas ao superior e implacável desígnio que determinava a sua extinção; a desaparecerem… mortos pelos archeiros do rei ou a escaparem, com hábeis fugas além fronteiras, às torturas e aos castigos de Filipe o Belo.
[Aníbal Fernandes]

Manuel António Pina — Desimaginar o Mundo (ensaios)


Manuel António Pina — Desimaginar o Mundo (ensaios)
Aline Duque Erthal, Danilo Bueno, Eduardo Lourenço, Gustavo Rubim, Joana Matos Frias, Leonardo Gandolfi, Maria João Reynaud, Osvaldo Manuel Silvestre, Paloma Roriz, Paola Poma, Pedro Eiras, Rita Basílio, Silvina Rodrigues Lopes, Tarso de Melo

Organização de Rita Basílio e Sónia Rafael

ISBN 978-989-9006-25-6 | EAN 9789899006256

Edição: Março de 2020
Preço: 14,15 euros | PVP: 15 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 208



Manuel António Pina: «Quem lê, lê-se.»


«Quem lê, lê-se», diz Manuel António Pina, que relembra também que «um texto literário nunca é algo acabado, é antes uma realidade instável e mutante, que está permanentemente a ser feita e refeita pelas leituras que suscita, incluindo as leitura que dele o próprio autor fizer.»
Comemorando o 75.º aniversário do nascimento do Poeta, o livro Manuel António Pina — Desimaginar o Mundo reúne algumas dessas leituras que, cúmplices da realidade dos textos, respondem à sua (con)vocação de inacabamento, garantia vital, e por isso mutante, de permanente abertura a um diálogo infinito.


Manuel António Pina é, entre outras coisas, um romântico anti-romântico. A sua visão não procede da consciência de um espaço fantástico, como a de qualquer Avatar, visado como de pura imaginação. O seu espaço matricial, se paradoxo se consente é o da Morte, com minúscula e não com maiúscula como o de Antero. Também não é o da Morte apavorada e domesticada de Pessoa: o daquilo que não pode ser dito — e ainda menos enfrentado — sem nos retirarmos da existência que nos supomos. É só aquilo que lá está mesmo sem se anunciar.
Em suma, o que nos divide não nos deixa unir a nós mesmos. Agora. Não depois daquilo que chamamos a «nossa morte», o impensável por excelência.
A morte, a sua presença, se assim se pode dizer, no texto e na percepção dela na Poesia de Manuel António Pina, é qualquer coisa que, desde sempre, faz corpo connosco, que embebe o nosso quotidiano ou se torna fantasma no quarto desconhecido onde, de repente, acordamos outros. É, sobretudo, aquilo que uma vez percebido não nos deixa dizer eu, sem que dessa nomeação imortalizante se levante essa espécie de fantasma que nunca mais se dissolverá na bruma da vida, que não é a do Outro, mas o outro de nós mesmos.
[Eduardo Lourenço]

The I of the Beeholder I Musa paradisiaca


The I of the Beeholder
Musa paradisiaca

Texto de Filipa Oliveira, com João Carlos Costa e Lotte Allan

ISBN 978-989-9006-26-3 | EAN 9789899006263

Edição: Fevereiro de 2020
Preço: 33,02 euros | PVP: 35 euros
Formato: 22 x 28 cm (encadernado)
Número de páginas: 128 (a cores)

Com a Fundação Carmona e Costa
Edição bilingue: português-inglês



Este projecto nasceu do desafio de definir o papel do desenho na prática artística de 
Musa paradisiaca.


Este livro foi publicado por ocasião da exposição «The I of the Beeholder», de Musa paradisiaca, com curadoria de Filipa Oliveira, realizada na Fundação Carmona e Costa entre 25 de Janeiro e 7 de Março de 2020.


Em 2015, Musa paradisíaca [Eduardo Guerra, Miguel Ferrão] recebeu uma carta de João Carlos Costa, um rapaz autista com 19 anos que acreditava que a forma colaborativa de trabalhar, que define Musa paradisíaca, poderia ser um veículo para que a voz dele fosse representada no mundo. A carta ficou guardada uns anos, era um assunto delicado e difícil, mas a relação entre Musa paradisíaca e João Carlos foi crescendo e solidificando. Tinham, de facto, um pensamento que os aproximava: a procura da hipersensibilidade no mundo.
Esta exposição é um momento dessa procura, desse caminho que estão a fazer juntos. O João Carlos era, assim, uma das pessoas com quem eu queria conversar sobre os temas que me pareciam fundamentais reflectir a partir da exposição e do próprio trabalho de Musa paradisíaca. A outra era a actriz Charlotte Allan (Lotte). […]
E começaram a desenhar. Juntos, sempre a quatro mãos, sendo indistinguível o traço de cada. São desenhos que nos transportam para um universo infantil. Parecem doodles ou desenhos de crianças. Parecem um quase nada, são «parvos» como lhes chamam, mas muito sérios. Carregam um peso enorme consigo. Um peso da História, da arte bruta por exemplo, mas o peso de um pensamento intrincado que os sustenta.
Musa paradisiaca nunca poderia fazer desenhos apenas. Toda a sua essência assenta na ideia de pluralidade. Assim, deram estes desenhos a Lotte, para que os traduzisse e os interpretasse. Mais, para que os incorporasse em si mesma.
E foi isso que fez. Em quatro peças de som, Lotte começa por descrevê-los através de um sistema de tentativa e erro: isto parece aquilo, ou podia ser isto… vai devagarinho entrando em cada desenho, ficando mais próxima do seu significado, até que mergulha neles, transformando-se na sua voz. Já não é Lotte quem nos fala, mas o próprio desenho através dela. Como se estivesse temporariamente possuída por cada desenho. Uma versão Poltergeist, mas em que o génio do mal é substituído por desenhos que finalmente encontraram uma voz que falasse por eles.
[Filipa Oliveira]

(Im)permanência I Manuel Botelho

(Im)permanência
Manuel Botelho

Textos de Filipa Oliveira, João Pinharanda e Manuel Botelho

ISBN 978-989-9006-23-2 | EAN 9789899006232

Edição: Janeiro de 2020
Preço: 22,64 euros | PVP: 24 euros
Formato: 30,5 x 21 cm (brochado)
Número de páginas: 128 (a cores)

Com a Câmara Municipal de Almada
Edição bilingue: português-inglês



A morte é, tal como a vida, um leve fumo branco que se esvai na atmosfera.


Este livro foi publicado por ocasião da exposição (Im)permanência, de Manuel Botelho, com curadoria de Filipa Oliveira, encomendada e produzida pela Câmara Municipal de Almada, a qual teve lugar no Convento dos Capuchos, entre 9 de Novembro de 2019 e 26 de Abril de 2020. Esta exposição foi feita em parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga, onde a segunda parte esteve patente entre 28 de Novembro de 2019 e 22 de Março de 2020.


As fotografias, elas também impermanentes, tentam corporificar uma ausência, torná-la presente. Se são testemunho da ruína, são igualmente lugar da materialização de uma presença pura e simples. São, por outro lado, sinal de algo que está para além do material, algo espiritual, algo atemporal. Simbolizam toda a humanidade, em silêncio, cruzando os tempos.
No Convento dos Capuchos de Almada, espaço de silêncio, de meditação e do atemporal, encontraram o lugar perfeito para virem à luz, numa feliz parceria com o Museu Nacional de Arte Antiga, que acolhe um núcleo dedicado ao Mosteiro da Batalha. 
[Filipa Oliveira]


Manuel Botelho afeiçoou-se aos corpos jacentes, às arcas maciças, às tampas amovíveis, à figuração decorativa acessória e simbólica, às arquitecturas que tudo enquadram; afeiçoou-se às sombras, ao pó, às manchas de humidade, ao rendilhado da pedra, às texturas e cores; afeiçoou-se ao tempo; […]. As suas fotografias cumprem, num subjectivo sistema de equivalência das artes, o papel da escultura tumular que registam. […] E, vendo-se morto num tempo passado que nunca poderia ter sido seu, vê-se sobrevivo num futuro que é agora (o desta exposição) e num futuro que já não será seu (aquele em que a perenidade da sua obra acompanhará a perenidade destas esculturas). 
[João Pinharanda]


O meu trabalho baseou-se sempre num questionamento dos motivos por que hoje faço isto e amanhã aquilo, hoje com esta configuração e amanhã com aquela, hoje com os meios próprios da pintura e amanhã com vídeos ou fotografias. Isto porque acredito que a essência da arte é aí que reside. Para mim a arte tem de ser pensamento e interrogação… interrogação constante, mesmo que as respostas tantas vezes nos iludam e se escapem por entre os dedos como a areia da praia. 
[Manuel Botelho]

Desterrado I António Olaio


Desterrado
António Olaio

ISBN 978-989-9006-24-9 | EAN 9789899006249

Edição: Fevereiro de 2020
Preço: 12,26 euros | PVP: 13 euros
Formato: 14,5 x 20,5 cm (brochado)
Número de páginas: 64 (a cores)

Com a Galeria Ala da Frente, Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão
Edição bilingue: português-inglês


Temos a presença da pintura, do vídeo e do desenho, num possível equilíbrio que nos levará a questionar o espaço e a nossa presença nele, assim como a nossa relação com o entendimento da arte. Quem observa quem? Quem fica desterrado? 
[António Gonçalves]


Este livro foi publicado por ocasião da exposição Desterrado, de António Olaio, com curadoria de António Gonçalves, na Galeria Ala da Frente, Vila Nova de Famalicão, de 8 de Fevereiro a 22 de Maio de 2020.


Uma performance apresentada a 20 de Setembro de 2017 no Museu Soares dos Reis no Porto, levou Olaio a estabelecer uma relação com a escultura O Desterrado de Soares dos Reis, onde aparecia de fraque numa oposição à nudez da escultura e num questionar dos territórios e das relações que se estabelecem neste meio com as obras. Na Bienal Anozero’19, em Coimbra (2 Novembro a 29 Dezembro de 2019) veio dar seguimento ao percurso iniciado com a performance no Museu Soares dos Reis com a apresentação de uma instalação intitulada Desterrado: Floating Over my Own Ground onde, num mesmo espaço, uma pintura e um vídeo deixavam-nos numa ambivalência da imagem em movimento com a imagem da pintura que pela sua verticalidade e posição elevada nos adensava a inquietação da nossa presença naquele espaço. Os sentidos procuravam ajustar-se, estávamos a flutuar.
António Olaio tem formação em Pintura, mas o seu trabalho vem-se pautando por uma abrangente exploração de linguagens e territórios criativos. Performance, a música (em 1986 forma e integra os Repórter Estrábico), o vídeo, o desenho, a pintura permitem-lhe uma abrangência de meios onde vai aprofundando reflexões sobre a representação e o seu sentido no objecto de arte. Expor num mesmo espaço diferentes suportes e linguagens é levar o observador a ajustar-se, a encontrar soluções de potencial equilíbrio, em resposta à instigação de desassossego que António Olaio lança. Uma provocação que oscila de linhas ténues e linhas de força bem expressa que nos transferem uma unicidade ao trabalho desenvolvido por Olaio.
Nesta exposição temos a presença da pintura, do vídeo e do desenho, num possível equilíbrio que nos levará a questionar o espaço e a nossa presença nele, assim como a nossa relação com o entendimento da arte. Quem observa quem? Quem fica desterrado? 
[António Gonçalves]

Duas Cartilhas — Entrevista de Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar seguido de Júlio Pomar: O Artista Fala — Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro


Duas Cartilhas — Entrevista de Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar
seguido de
Júlio Pomar: O Artista Fala — Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro
Helena Vaz da Silva, Júlio Pomar, Pedro Faro, Sara Antónia Matos

ISBN 978-989-9006-19-5 | EAN 9789899006195

Edição: Dezembro de 2019

Preço: 11,32 euros | PVP: 12 euros
Formato: 12 x 17 cm (brochado)
Número de páginas: 216

Com o Atelier Museu Júlio Pomar


Considera-se que as duas [entrevistas], realizadas em tempos diferentes, com registos e teores dissemelhantes, constituem em conjunto fontes basilares — quase cartilhas — para o estudo e compreensão da obra deste artista, bem como dos seus processos de trabalho.


A entrevista Júlio Pomar: O artista fala… Conversas com Sara Antónia Matos e Pedro Faro cuja reimpressão integra agora a colecção Cadernos do Atelier-Museu Júlio Pomar, foi na verdade não a sexta, mas a primeira entrevista da colecção a ser realizada. A sua publicação e lançamento ao público, em 2014, num formato diferente deste, deu a compreender um período de trabalho desenvolvido com o artista para a abertura do próprio museu, anunciando alguns dos seus pressupostosde trabalho e da sua linha programática, inclusive. […] A entrevista de Júlio Pomar, que ocorreu no ano e meio que precedeu a abertura do museu, procurou transmitir as preocupações inerentes ao seu trabalho mas também as expectativas que tinha com a abertura e implantação do Atelier-Museu. Hoje, volvidos mais de sete anos de existência do espaço museológico e mais de dois anos da morte do pintor, devido à recorrência com que se volta às suas palavras e se citam partes da entrevista então feita, o Atelier-Museu decidiu reimprimir esta conversa seminal, juntando-lhe outra de grande extensão e abrangência feita por Helena Vaz da Silva. 
[…]
Particularmente para mim, enquanto directora do Atelier-Museu, devo dizer que reeditar estas duas entrevistas, ler e rever palavra a palavra do artista, como que deglutindo-as devagar, incorporando-as, foi um projecto especialmente sensível porque trouxe o pintor — e o amigo! —, falecido em Maio de 2018, outra vez para mais perto, um pouco para mais perto, como se por momentos tivesse sido transportada para cada uma das sessões de convívio proporcionadas pelas gravações da entrevista. Esse recuar no tempo fez-me quase ouvi-lo de novo, como se a sua gargalhada livre ecoasse por detrás do meu ouvido, se isso é possível.
Espera-se que a reedição destas duas «cartilhas», destas duas conversas extensas, traga também essa possibilidade ao leitor, que reconhecerá nas palavras aqui transcritas a natureza e o tom inigualáveis, astutos e absolutamente singulares, da voz e do pensamento de Júlio Pomar. 
[Sara Antónia Matos]

Santa Rita Pintor — Polémicas e Controvérsias I Fernando Rosa Dias (coord.)


Santa Rita Pintor — Polémicas e Controvérsias
Ana Bailão, Carlos Silveira, Fernando Cabral Martins, Fernando Rosa Dias, Guilherme Floro de Santa Rita, João Macdonald, João Mendes Rosa, Luís de Barreiros Tavares, José Leite, Luís Leite, Luís Lyster Franco, Marta Soares, Raquel Henriques da Silva, Sofia Marçal.

Coordenação de Fernando Rosa Dias

ISBN 978-989-9006-20-1 | EAN 9789899006201

Edição: Dezembro de 2019
Preço: 21,70 euros | PVP: 23 euros
Formato: 17 x 24 cm (brochado, com badanas)
Número de páginas: 208 (cadernos a cores)

Com a CIEBA


A redescoberta de Santa Rita não termina aqui.  Mas que este livro seja, no presente, um devido contributo. 


Este livro é o resultado de dois dias de conferências, debates e de uma exposição artística e documental, que decorreram na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, nos dias 3 e 4 de Maio de 2018. O evento pretendeu homenagear  e discutir a polémica figura de Santa Rita Pintor, decorridos cem anos do seu falecimento, a 29 de Abril de 1918. 
O referido evento foi constituído por uma exposição bibliográfica na Biblioteca da Faculdade de Belas-Artes e outra na Academia Nacional de Belas-Artes, com obras e documentação desta instituição e da Faculdade de Belas-Artes 
[…]. 
O propósito deste livro não é o de realizar uma pesquisa específica em  torno da biografia artística de Santa Rita Pintor, mas o de colocar em diálogo vários especialistas que trabalharam a sua obra, segundo focos ou abordagens, em geral e fatalmente problemáticos. Salvaguardados com estes princípios a orientar os textos, houve uma gestão da diversidade de autores e das respectivas abordagens à obra de Santa Rita Pintor, aceitando-se a riqueza dessa multiplicidade de perspectivas. Integrando essa pluralidade, este livro organizou-se em partes que estruturam os textos pelas suas abordagens: uma primeira parte avaliando a recepção e o lugar historiográfico da figura de Santa Rita Pintor; uma segunda parte sobre a sua fase académica e os primeiros anos de Paris; uma terceira em torno da sua fase futurista. Segue-se outra parte com entrevistas e depoimentos de familiares de Santa Rita e uma parte final com uma biografia do artista, acompanhada com iconografia e reproduções de obras e textos. Esta organização dos conteúdos procurou assim acentuar a diversidade dos textos, dos estilos e das interpretações em redor da obra e da figura de Santa Rita Pintor, com a plena consciência de que este é um trabalho sempre inacabado. Quando estávamos nos trabalhos de edição soubemos que foi encontrado um desenho assinado no acervo da ANBA, certamente uma das obras que o artista enviou como bolseiro de Paris em finais de 1910. A redescoberta de Santa Rita não termina aqui. Mas que este livro seja, no presente, um devido contributo. 
[Fernando Rosa Dias]

Rua Conde das Antas 53-B 1070-069 Lisboa I Rui Calçada Bastos


Rua Conde das Antas 53-B 1070-069 Lisboa

Rui Calçada Bastos


Textos de Ana Anacleto e Maria Joana Vilela
Design de João M. Machado

ISBN 978-989-8902-29-0 | EAN 9789898902290

Edição: Março de 2020
Preço: 16,98 euros | PVP: 18 euros
Formato: 16,3 x 24,5 cm (brochado)
Número de páginas: 96 (a cores)

Com a Giefarte
Edição bilingue: português-inglês



Ana Anacleto: «Recuperando e fazendo eco, tanto da tradição da escultura minimalista quanto da apropriação dadaísta de objectos encontrados, o artista constrói momentos de tensão, pondo em evidência as questões que tradicionalmente associamos à relação que temos com a escultura — peso, equilíbrio, matéria, corpo, imobilidade ou dinâmica.»


Tendo tido a possibilidade de observar de perto a obra de Rui Calçada Bastos, o seu modus operandi, as suas decisões e as suas hesitações, o modo surpreendente como incorpora no seu trabalho acasos e encontros fortuitos, o seu fazer, o seu desfazer e o seu refazer, podemos afirmar que numa relação assumida e voluntária com a memória, o artista constrói (no presente) situações plásticas que decorrem de experiências perceptivas anteriores (localizadas no passado) que, por consequência, irão alimentar as experiências perceptivas que virá a ter (no futuro).
Diríamos que assume, como poucos, uma herança do Romantismo que lhe permite abraçar metodologias conceptuais baseadas no sujeito e nas suas experiências, na valorização da subjectividade, das manifestações emocionais e da intuição, enquanto portas de acesso ao mundo.
[Ana Anacleto]


Aqui, cada obra advém desse múltiplo pensar e fazer, carregando a espessura de um processo continuado, lançado no gesto presente e também habitável que se acciona e se expande diante daquele que a observa. É, pois, um projecto de continuidade em si mesmo. E é assim que ele compõe uma exposição altamente imersiva que reclama ao mergulho no espaço e ao comprometimento com as obras, para além da simples contemplação.
[…]
Diante disto, resta-nos esperar ou, se quisermos, voltar a ver. No esforço da compreensão e do fazer artístico encontra-se em suspenso o devir que será um dia obra ou que surgirá, em algum momento, na obra já vista, diante daquele que a vê e que se dispõe a ver uma e outra vez. Os gestos futuros dependerão, no entanto, da direcção que o trabalho tomar e que é, podemos dizer, antecipadamente imprevisível. Disso que vemos e que compõe uma realidade possível, o artista é mão que vai à frente e o seu olhar é também sempre, mas sempre e eternamente transformado por ela.
[Maria Joana Vilela]