terça-feira, 11 de junho de 2013

«O olho que é máquina»

  

Este novo livro de Margarida Medeiros dá expressão ao interesse da autora pela relação que as imagens dos fotógrafos possuem com a utilização científica e popular da fotografia. Não é uma obra sobre fotógrafos no sentido mais corrente e autoral, mas sobre a sedução feita pela promessa de rigor e verdade que a invenção da fotografia transportou. Como diz Medeiros, este livro é uma espécie de arqueologia da relação entre as fantasias geradas pela fotografia e a sua utilização nas práticas científicas, clínicas e criminais. E é uma arqueologia no sentido em que tenta colocar a descoberto não as anedotas e peripécias geradas pela ambição de fabricar uma imagem da verdade do mundo e dos seus acontecimentos, mas no de mostrar o entusiasmo gerado pelas imagens técnicas enquanto potenciação dos poderes humanos de fixar, memorizar, guardar.


A história desenvolvida pelo livro de Medeiros diz respeito à tentativa de se fotografar com os próprios olhos. A hipótese é que se é certo que o aparelho fotográfico tem uma constituição semelhante à fisionomia do olho humano, então o olho também pode gerar o mesmo tipo de imagens e acontecimentos. Entre os séculos XVIII e XIX, para mostrar a fertilidade deste pensamento, surgiu, como diz a autora, uma "amálgama de boatos e experiências científicas que visavam, a torto e a direito, retirar uma imagem, ou o seu resto, dos olhos de um morto" (p. 11) Se é certo que o território desta fantasia, como lhe chama Medeiros, é composto pelo delírio, também lá estão os grandes avanços feitos pela optografia. Escreve Medeiros: "A máquina fotográfica foi inventada tendo como horizonte metafórico e paradigma epistémico o mecanismo óptico de visão do olho: inversão da imagem como resultado da reflexão luminosa, perspectiva, reinversão da imagem [...]. Com a fábula da optografia, o caso inverte-se: o olho funciona agora como a placa sensível de uma câmara. Assim, parece estar aqui em jogo uma tentativa de transferência recíproca entre os poderes do corpo e os poderes configurados na máquina, uma fusão indiferenciadora que denota a fragilização das fronteiras entre interior e exterior, morte e vida, animado e inanimado, que configuram o homem moderno." (p. 70)

E esta condição de moderno significa descobrir a posição instável que o homem ocupa no mundo: um sujeito problemático, com uma percepção precária, frágil, limitada, enganadora, e um corpo que não garante objectividade, mas é lugar de enganos. A partir daqui pode dizer-se que o interesse gerado pela fotografia e pelos seus mecanismos misteriosos e ocultos é mais do que um interesse por um dispositivo produtor de imagens: corresponde a uma profunda "modificação da concepção do sujeito e da sua relação com a visão." (p. 16) Um fascínio por uma ampliação da visão que permitiria ultrapassar os limites físicos do contacto humano com o mundo e, logo, revolucionar a epistemologia vigente.

Conseguir a imagem dos olhos de um morto não é mais do que mostrar que o contacto humano com o mundo gera um conhecimento verdadeiro e não é lugar de fantasmas e imagens fabricadas. Um exemplo: "Kühne [cientista alemão do século XVIII] tratou de conseguir que lhe fosse entregue o cadáver de um homem condenado à guilhotina, no instante imediato a ter sido decapitado. Preparou um quarto com pouca luz, filtrada a vermelho e amarelo, para que, quando chegassem os olhos do homem, a rodopsina não branqueasse imediatamente. Dez minutos depois de o homem ter sido decapitado, Kühne obteve a retina inteira do olho esquerdo, e pôde mostrar a vários colega um "optograma" muito nítido desenhado na superfície da retina." (p.39)

E ao fascínio da epistemologia oitocentista com as imagens associa-se a criminologia. Uma notícia publicada em 1895 no The Amateur Photographer, e amplamente comentada por Medeiros, dá conta não só da possibilidade de um olho poder "fotografar", mas de que essa imagem sirva como prova de um crime: "Um espantoso desenvolvimento ocorreu no caso Sherman. Foi descoberta uma fotografia do assassino. Ambos os olhos de Mrs Sherman parecem conter imagens do homem que a assassinou." (p. 72) O texto é longo e descreve a par e passo as discussões e as descobertas espantosas feitas por uma câmara Kodak nos olhos da mulher assassinada: "Passado o momento de espanto com tal descoberta, foi feito um cuidadoso exame que revelou claramente a forma humana, com um pé atrás do outro e um joelho meio flectido, como se estivesse para subir um degrau." (p. 73)

Para além da comicidade e da alguma ingenuidade relativamente às modalidades da representação técnica, estas experiências materializam a ambição e a expectativa de "um "grau zero" da mediação entre o sujeito e o mundo; a ideia consubstancia um realismo que não implica apenas um certo tipo de automatismo (corporal): a imagem acontece, gera-se de forma imediata no olho, por simples contacto visual, e aí ficaria retida. Assim, o próprio corpo se constitui como dispositivo de contacto e de subsequente produção de imagens, resolvendo, aparentemente, o problema da separação entre o sujeito e o mundo." (p. 111)

As experiências aqui analisadas apresentam um genuíno esforço de combater o desvio inerente a todas as imagens do mundo e a luta por um registo fiel, exacto, sem desvio, do que acontece. E este é um contexto que dá profundidade às discussões sobre a imagem fotográfica, longe das preferências estéticas e das ideias de composição e de arte. O fôlego é epistémico e a sua relevância está na utilização do dispositivo fotográfico como dispositivo de auto-conhecimento. O texto de Margarida Medeiros dá um contributo importante para esta compreensão. 

Nuno Cresp
o, «Ípsilon»/Público, 31-V-2013

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