segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

«Potência da Imaginação», por Mariana Pinto dos Santos

Sem títuloMariana Castro, 2020

João Pedro Cachopo publicou um livro sobre os tempos que vivemos e que passámos a viver desde Março de 2020. Isto é, é um livro que resulta da pandemia, mas não é exactamente sobre a pandemia. Diferencia-se dos vários textos de filósofos e pensadores contemporâneos que foram publicados entre Março e Junho/Julho, e também dos livros que mais recentemente têm saído, na medida em que procura observar de um ângulo diferente o efeito da pandemia na nossa experiência do mundo. Tira partido da distância temporal face a esses primeiros textos, que foram necessariamente escritos a quente, com as fragilidades que advêm de pensar um acontecimento durante o acontecimento. É um facto que ele ainda dura, mas o seu prolongamento no tempo não deixou de tornar algumas perspectivas iniciais longínquas e não mais válidas, por isso pensá-lo hoje será necessariamente diferente de o ter pensado em Março ou Abril.

Este é um livro pequeno, escrito com enorme clareza, que se lê com prazer. Mas a dimensão e a clareza enganam: as questões são abordadas com complexidade, o diálogo com autores contemporâneos e não contemporâneos é pertinente e elaborado e a sua leitura suscita várias perguntas e reflexões. Também o título é enganador. Como é explicado logo no prólogo, nem os sentidos torcidos são os cinco sentidos sensoriais, nem a remediação digital é remédio, isto é, não serve para colmatar uma falta, não é um mal menor ou um fraco consolo, e não é, seguramente, cura ou compensação face à pandemia.

Os «sentidos» aqui em causa são sentidos que dependem, diz João Pedro Cachopo (JPC), da proximidade e da distância, não físicas, mas imaginadas; são de certa forma, sentidos da vida, ou, como escreve mais adiante no livro, «sentidos que nos ligam ao mundo» (p. 40). A «remediação digital» assenta na designação dos estudos de media, a qual lê o prefixo re- no sentido de replicar, repetir: re-mediação, re-medium. Será, assim, a apresentação de um medium por via de outro medium, a mediação da mediação ou dupla mediação. No caso da remediação digital, é mais ainda: é a confluência de vários media num medium, o digital.

Por outro lado, o significado de «remediar», no sentido de «substituir» ou «reparar» ou «consolar», não é inteiramente abandonado, uma vez que permite a JPC precisar que uma posição de repúdio do digital e uma posição de exaltação do digital, aparentemente antagónicas, partem do mesmo princípio que o digital serve para substituir uma experiência original, ela sim, autêntica.

Assim compreendemos de outra forma quando afirma provocadoramente que o acontecimento não é a pandemia, mas a torção dos sentidos que nos ligam ao mundo, uma torção feita por via da remediação digital. Estes sentidos (que não deixam de implicar os cinco sentidos sensoriais) são, neste livro, também cinco (o autor ressalva que poderiam ser outros, ou muitos mais): o amor, a viagem, o estudo, a comunidade a arte. Todos eles nos implicam em formas de aproximação e distanciamento que se configuram numa experiência diferente para cada um de nós. E essa experiência não deixou de acontecer por causa da pandemia.

Nas páginas dedicadas a esses sentidos, no capítulo que tem precisamente o título «A torção dos sentidos», JPC tem um momento de libertação da escrita e de verdadeiro prazer do texto, seu, que o escreveu, e nosso, que o lemos. São páginas escritas com, arrisco a palavra, a alegria de reimaginar esses sentidos em novas experiências remediadas digitalmente. Creio que apenas no sentido da viagem Cachopo tem dificuldade em deixar de ir, deixar de partir fisicamente (p. 75). Se Xavier de Maistre relatou logo em 1794 como era possível viajar sem sair do lugar, fazendo a viagem à volta do seu quarto sem deixar de experienciar aventuras por via da imaginação, para JPC não basta o quarto, nem o écran, a viagem implica sair de si. É irremediável, diz, continuando o jogo entre os possíveis significados da palavra, o da não sujeição à mediação e o do não haver nada a fazer ou não haver remédio, porque não viajar deixa-nos inconsoláveis.

Destaco as páginas que JPC dedica ao sentido do estudo (p. 79), por nelas abordar o texto de Giorgio Agamben que me pareceu mais discutível dos que escreveu sobre a pandemia (vários traduzidos e publicados na Punkto), no qual o filósofo italiano vaticinou o fim do «estudantado como forma de vida» e não teve pejo em comparar os professores que aceitavam dar aulas online com os colaboracionistas do fascismo nos anos 1930, profetizando ainda que os poucos que se recusassem seriam reconhecidos como os heróis deste tempo (não se confunda este com outro texto do autor bem diferente, «Estudantes» de 2017, em que defendia o estudo na sua condição de não utilidade e consequente possibilidade de experiência e erro, em oposição à investigação, orientada pela lei do mercado e produtividade). Como analisa JPC, é um juízo moral que identifica a tecnologia como mal absoluto (que curiosamente faz equivaler a barbárie) que leva Agamben a fazer uma equivalência inaceitável. 

Acrescento que isso coloca o filósofo numa posição muito discutível de juiz e vigilante moral. Como contraponto, JPC fala do trabalho de Fred Moten e Stefano Harney, que, sem deixarem de criticar o sistema de ensino universitário e seus mecanismos de «profissionalização do pensamento», ressalvam a subversão e a divergência que o estudo na universidade (uma noção alargada de estudo que inclui o intelectual e o não intelectual e que igualiza radicalmente os temas a estudar) pode trazer. Estes autores não dramatizaram o ensino à distância: estão tão cientes dos seus perigos como do abalo na autoridade que pode representar e dispostos a fruir desse abalo. Este exemplo que JPC dá no seu livro a propósito do estudo é, nada mais nada menos, do que a sua própria abordagem da remediação digital e seus efeitos precipitados pela pandemia.

Tal como noutros autores que pensaram a pandemia, seja quais tenham sido os termos em que a abordaram, as transformações que ela precipitou (ou que ameaçou precipitar, porque muitas verificamos que não ocorreram e talvez não venham a ocorrer) já estavam e continuam em curso. A remediação digital é, sem dúvida, uma delas, e foi de resto alvo de abundantes reflexões antes da pandemia. É a torção dos sentidos que, essa sim, diz o autor, é precipitada pela pandemia — é esse, afinal, o acontecimento.

Ao contrário de vários autores pré- e pós-pandemia, JPC evita ou recusa mesmo a atitude fatalista face ao digital (sem tão-pouco embarcar na euforia pelo digital), considerando ao mesmo tempo os seus perigos e efeitos nefastos, como o controlo e a extracção de informação a que estamos sujeitos ao frequentar redes sociais, pesquisar na internet, fazer compras online.
Ou seja, e esta é a tomada de posição fundamental deste livro: não só, como escreve o autor, estamos sujeitos ao acontecimento, como somos sujeitos do acontecimento. JPC recusa fazer o mero diagnóstico de que somos dominados, controlados, esvaziados, explorados pelo digital. Afirma antes a possibilidade de agenciamento dos sujeitos por via da imaginação no contexto digital. A tarefa a que se propõe este livro é a tarefa que entende ser a da filosofia: pensar o presente intempestivamente (ou nietzschianamente), ou «revolver o real», assentando na convicção de que interpretação e transformação do mundo estão interligados.

Respondendo à pergunta «o que pode a filosofia?», JPC diz que esta se distancia e faz perguntas que procuram o melhor ângulo. Dificilmente se terá notado o encontro do melhor ângulo ou mesmo a vontade de fazer perguntas de alguns dos filósofos que JPC refere, como Giorgio Agamben, Slavoj Žižek, Byung Chul-Han. Muitas vezes vimos os filósofos precipitarem-se nas respostas e a desempenhar um papel de oráculos ou videntes, mais do que seria desejável. Porém, o mundo e os filósofos movem-se e supõe-se que os ângulos se vão alterando e ajustando, e a distância para os tomar se vai conquistando. Naqueles primeiros meses era difícil e arriscado tomar posição e os erros eram mais prováveis. Mesmo hoje o são, e o mérito da pergunta de JPC, «o que pode a filosofia?», é o de reservar-lhe um lugar tão modesto quanto imprescindível, e de cercear a tentação oracular.

A partir do seu ângulo, que procura resposta para a pergunta «o que há de revelador e transformador na pandemia?», JPC trava um diálogo com pensadores que marcaram os primeiros meses da propagação da doença pelo mundo e foram amplamente partilhados nas redes sociais e outros canais digitais, como Alain Badiou, Bruno Latour, Judith Butler, David Harvey, além de Byung Chul Han, Žižek, Agamben, Jean-Luc Nancy — vários antologiados no conjunto que ficou conhecido por Sopa de Wuhan, outros que surgiram no blog da Critical Inquiry, reunidos com o título «Posts from the pandemic», vários traduzidos e publicados em português em plataformas digitais. Neste livro surgem também Naomi Klein, Jacques Rancière, Roberto Esposito, José Gil ou André Barata. Essa conversa com pensadores da actualidade que JPC enceta tem o propósito de esboçar um diagnóstico do pensamento que se formou sobre o meio digital na era da pandemia para ele próprio propor outro ângulo de análise. É um diálogo por vezes assumidamente breve ou que, com alguns dos nomes, vai ressurgindo ao longo do livro. Não me debruçarei sobre esse diálogo em si, mas sim sobre o caminho a que ele leva.

Há três momentos do livro em que JPC «actualiza» ou faz analogias entre estudos famosos já clássicos e o momento de remediação digital actual. Falarei desses momentos sem seguir a ordem pela qual aparecem no livro.
 
Apocalípticos remediados

O primeiro é no capítulo 4, «Apocalípticos e remediados» glosa do título de Umberto Eco de 1964 Apocalípticos e Integrados, que já na altura designava desta forma, e simplificando, os pessimistas face à tecnologia e os optimistas em relação à evolução tecnológica. JPC acompanha Eco na conclusão de que todos teremos um pouco de uns e de outros, tanto em 1964, como hoje face à digitalização do mundo. Constata, no entanto, que hoje tanto os apocalípticos como os remediados partem do mesmo pressuposto de que o digital é um substituto de uma experiência autêntica, é um simulacro de uma experiência original. Ora, para JPC, o digital traz outro tipo de experiência tão ou tão pouco autêntica quanto qualquer experiência analógica. Porque a experiência depende sempre, digital ou analógica, da imaginação. Refira-se desde já que esta é, a meu ver, a palavra-chave deste livro, a palavra que o torna não um livro optimista, isso seria outra coisa, mas um livro que quer olhar as possibilidades da alegria na era digital, na era pandémica, na era de emergência dos fascismos e do colapso ambiental, e que faz essa alegria depender da imaginação.
[…]
Punkto, 9 de Fevereiro de 2021

Nota de edição: Este texto é uma versão desenvolvida da apresentação do livro A torção dos sentidos – pandemia e remediação digital, que teve lugar na livraria Snob em Lisboa, no dia 15 de Dezembro de 2020.»]

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