sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Bruno Schulz, «um dos nomes centrais da literatura europeia do século XX.»


«Histórias de um imaginário desmesurado e perturbador, que mergulha no inconsciente para o vasculhar à procura de memórias perdidas e sonhos.

Num entardecer de Novembro do ano de 1942, o judeu polaco Bruno Schulz (n. 1893), pintor, artista gráfico, escritor e crítico literário, foi alvejado com duas balas na cabeça por um oficial da Gestapo numa rua do gueto da sua cidade natal, Drohobycz (hoje é parte da Ucrânia).
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Mais do que um romance, ou do que uma simples colectânea de contos, As Lojas de Canela (agora reeditado com tradução revista) é um vívido ciclo de histórias onde se percebe um sentido unificador, com personagens e temas recorrentes. Na sua versão inicial,estes textos foram cartas escritas a um amigo a quem Schulz queria dar conta, de maneira bastante original, da sua vida, da dos seus conterrâneos, da sua "solidão profunda" e da sua cidade; a conselho de uma amiga escritora, essas cartas acabaram por ser reescritas e publicadas em 1934.
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A cidade de Schulz, com a sua Praça do Mercado (vazia "como o deserto bíblico varrida por rajadas quentes"), é o centro de todas as narrativas. Sob essa cidade, em que tudo parece estar prestes a dissolver-se, apercebemo-nos de que se esconde um outro mundo, de que tudo o que se passa nas suas ruas e fachadas faz parte da cuidada coreografia de uma dança que parece acontecer sempre atrás das cortinas do palco. Há uma aparência de ordem sobre o caos da existência.
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Aquando das primeiras traduções de Schulz, não faltaram os que se precipitaram a anunciar a descoberta de um novo Kafka.
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Mas as diferenças são grandes, como nota Aníbal Fernandes na introdução, pois ao asceticismo de Kafka opõe-se a sensualidade de Schulz (neste aspecto, e os seus desenhos confirmam-no, a sexualidade é dirigida para o masoquismo - de notar o número de mulheres que empunham um chicote); também o estilo depurado de Kafka se opõe ao exuberante barroco de Schulz. De qualquer dos modos, a sua brilhante singularidade literária faz dele um dos nomes centrais da literatura europeia do século XX.»

José Riço Direitinho, Excertos de «A sombra do pai», «Ipsilon» / Público, 25 de Janeiro de 2013, onde pode ser lido na íntegra.
 

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