quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

«André Barata: “O vírus é um pesadelo para o sistema porque perturba esse ideal do controlo.”», por João Gabriel Ribeiro



 
«Entrevistámos o filósofo português a propósito do seu livro O Desligamento do Mundo e a Questão do Humano, no qual, num confronto directo com a ideia de que estamos cada vez mais ligados em rede, André Barata estabelece uma longa análise crítica do que esta ideia de senso comum representa, propondo que pelo contrário estamos cada vez mais desligados.» 
 
 
«“[A]pesar de uma ressonância profunda (…) convém advertir que este livro foi todo escrito antes da pandemia da Covid-19”. Assim termina o parágrafo de agradecimento do livro O Desligamento do Mundo e a Questão do Humano do filósofo português André Barata, e inicia o artigo da 1.ª edição da Revista do Shifter em que seguimos as pistas deixadas pelo filósofo nesse livro, escrito antes da pandemia, recorde-se, para procurarmos explorar o sentido da pandemia de Sars-CoV-2. Às ideias de André Barata expostas posteriormente numa entrevista por e-mail e outras presentes no seu livro, juntámos outros intervenientes — André Peralta Santos, Médico Especialista em Saúde Pública, Bernardo Gomes, também médico com a mesma especialidade, e João Marecos, advogado e com trabalho na área da desinformação, que nos permitiram um olhar mais especializado sobre aspectos concretos da gestão de um fenómeno desta escala. Seguindo as pistas do livro, falámos sobre a pandemia que lhe sucedera. Falámos, por isso, sobretudo sobre a forma como ela se abate sobre as sociedades, numa entrevista por escrito em que expressões do próprio livro enunciam as questões.
O Desligamento do Mundo e a Questão do Humano, editado pela Documenta no ano de 2020, convida à ilustração da sociedade contemporânea e dos padrões da vida humana segundo a analogia do desligamento. Num confronto directo com a ideia de que estamos cada vez mais ligados em rede, o filósofo André Barata estabelece uma longa análise crítica do que esta ideia de senso comum representa, propondo que, pelo contrário, estamos cada vez mais desligados. “[N]a realidade nunca andámos tão desligados do mundo e de tudo o que nele não está sob o controlo do sistema de produção global”, pode ler-se no princípio do prólogo. O livro, que se divide em 9 capítulos, debruça-se sobre diferentes ângulos da esfera global da vida em sociedade, problematizando-se.

Escrito de um modo simples e numa linguagem acessível, apesar da complexidade das ideias expostas, o livro convida permanentemente a um exercício de questionamento entre o que nos propõe e o que observamos, conduzindo uma reflexão bastante ampla mas nunca dispersa. André Barata estabelece ao longo do livro uma série cruzamentos entre referências mais mundanas, como é exemplo o texto “O skate e o gozo da materialidade” também publicado no Shifter e no Jornal Económico, e referências intelectuais como Hannah Harendt, Byung-Chul Han, Mark Fisher, entre muitos outros, que o tornam simultaneamente complexo e inclusivo.

A entrevista feita em Julho deste ano 2020 foi dividida em duas partes. Uma primeira em que se procurou explorar uma maior relação das ideias com o momento concreto da pandemia, promovendo a reflexão que se materializou no artigo na revista do Shifter, e uma segunda de maior abrangência temática, em que embora o impacto do contexto acabe por se fazer sentir, se procuraram explorar outras nuances. Esta tendência para relação fácil — contagiosa —entre as problemáticas do mundo pré-pandemia e aquelas com que o surto global nos confrontou serve simultaneamente de sustentação para a ideia da crise como catalisador de uma mudança pré-determinada pelo contexto em que ocorre e para validação do conceito de Desligamento proposto pelo filósofo. André Barata propõe a ideia de um desligamento em parte precipitado por uma obsessão pela conexão que assim nos desliga do mundo – no sentido mais próprio da palavra – uma ideia que, por ventura, poderia ser contrariada por um vírus que nos invadiu vindo da natureza, mas cuja persistência de certas formas se fez sentir quer na resposta institucional, quer na resposta social ao problema.
 
Shifter: “A sobrevivência deixou de ser meio para a vida e passou a ser o fim mesmo da vida.” — Um fenómeno como o coronavírus, sendo de origem biológica e sem discriminar quem infecta, pode de algum modo restabelecer a ligação ao mundo ­— ao evocar um elemento natural — ou a própria forma com que encaramos e reagimos ao vírus é já demasiado desligada?
 
André Barata: As duas ideias são verdadeiras. Haveria uma consciência do desligamento do mundo a ganhar quando de repente a realidade de um vírus se impõe. Até Donald Trump já pôs nestes últimos dias uma máscara na cara! O princípio da realidade vai-se impondo. Mas, ao mesmo tempo, tudo é feito para contornar o problema e restabelecer o desligamento. A maneira como estamos a lidar com o vírus é determinada sobretudo pela vontade de restabelecer um normal a que se chama novo, mas em que a novidade é apenas o que o normal tem de acomodar e absorver, neutralizar num sentido muito particular o facto da pandemia: não a sua virulência e letalidade, mas a sua agressividade para com o sistema socioeconómico e político do desligamento. Portanto, sim reagimos à pandemia sobretudo comandados pelo desligamento e era precisamente a isso que devíamos resistir. Era preciso ter visto na pandemia uma fissura e por ela ter espreitado para o mundo desligado.
[…]»
 
 
 
[João Gabriel Ribeiro, Shifter, 30-XII-2020]

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